A conta chegou? O crédito disparou nos bancos digitais; agora a inadimplência começa a cobrar a fatura, diz BTG

Durante anos, os bancos digitais venderam a promessa de democratizar o acesso ao sistema financeiro. E, pelos números, cumpriram a missão.
Hoje, mais da metade dos clientes que tomam crédito pessoal no Brasil está concentrada exclusivamente nas plataformas digitais. No mercado de cartões, quatro em cada dez primeiros cartões emitidos no país já saem de fintechs e neobancos.
Mas a mesma revolução que ampliou o acesso ao crédito também trouxe uma consequência menos celebrada: o risco aumentou.
Um estudo da Equifax Boa Vista, analisado pelo BTG Pactual, mostra que a expansão acelerada dos bancos digitais entre 2021 e 2025 foi acompanhada por uma deterioração relevante da qualidade do crédito, especialmente entre consumidores de menor renda e com histórico financeiro mais limitado.
Na leitura do BTG, os números ajudam a explicar uma das principais discussões do setor atualmente: até que ponto o crescimento dos bancos digitais está criando um mercado maior — e até que ponto está elevando o risco de crédito da economia.
Bancos digitais abrem porta de entrada do crédito
Nos últimos anos, os novos bancos digitais não apenas ganharam participação dos bancos tradicionais, mas passaram a liderar a inclusão de novos tomadores no sistema financeiro brasileiro.
Entre 2021 e 2025, o saldo de crédito ativo dos bancos tradicionais cresceu 35,7%. Já entre os bancos digitais, a expansão foi de mais de 360%.
Na porta de entrada do sistema financeiro, 41,4% dos primeiros cartões de crédito emitidos no Brasil vieram de bancos digitais no ano passado. Entre os incumbentes, essa participação foi de apenas 4,9%.
No crédito pessoal, a fatia de clientes atendidos exclusivamente por instituições digitais saltou de 18% para 51,8% no período.
Para os analistas do BTG, os números sugerem que as fintechs não estão apenas tomando espaço dos bancos tradicionais, mas efetivamente ampliando o mercado de crédito ao incorporar consumidores que antes tinham acesso limitado — ou nenhum acesso — a esses produtos.
"A digitalização aumentou a concorrência e a inclusão financeira", destaca o BTG, em relatório.
Conta da inclusão vem na forma de inadimplência
A expansão, porém, cobra seu preço. Segundo o BTG, parte relevante dos novos clientes incorporados pelos bancos digitais apresenta perfil de risco mais elevado, o que ajuda a explicar a piora dos indicadores de qualidade da carteira.
"A digitalização aumentou a concorrência e a inclusão, mas também transferiu parte do risco de crédito para instituições digitais e fintechs. Na nossa visão, isso indica que indivíduos com perfis mais arriscados entraram no sistema financeiro, trazendo níveis mais elevados de inadimplência e endividamento para o sistema", afirmam os analistas.
Nos cartões de crédito dos bancos digitais, a parcela de saldos vencidos saltou de 5,77% em 2021 para 11,16% em 2025.
Enquanto isso, nos incumbentes, a deterioração foi significativamente menor, passando de 6,60% para 8,75% no mesmo período.
A piora da qualidade de crédito fica ainda mais evidente entre os consumidores de menor renda. Na faixa de renda de até um salário mínimo, a penetração dos cartões de crédito avançou de 6% para 20,5% em quatro anos. Em contrapartida, a inadimplência atingiu 33%.
Para o BTG, é o retrato de uma inclusão financeira que ampliou o acesso ao crédito, mas também aumentou a exposição do sistema a grupos historicamente mais vulneráveis a oscilações econômicas.
O teste dos bancos digitais ainda pode estar por vir
Apesar da piora dos indicadores, os analistas não enxergam uma deterioração descontrolada no curto prazo.
Parte disso se explica pelo próprio modelo de negócios dos bancos digitais e fintechs.
Embora atendam clientes mais arriscados, essas instituições operam com estruturas significativamente mais leves do que os bancos tradicionais, reduzindo custos operacionais e permitindo uma precificação de risco mais agressiva.
Em outras palavras: os bancos digitais conseguem conviver com níveis mais elevados de inadimplência sem necessariamente comprometer a rentabilidade.
Para o BTG, o ponto de atenção é outro.
"A questão principal hoje é até que ponto o risco de deterioração da qualidade dos ativos aumenta se a renda disponível piorar, em meio a um endividamento sistêmico mais alto e uma base de tomadores com maior fatia de populações vulneráveis", dizem os analistas.
A preocupação ganha relevância em um ambiente marcado por juros elevados, desaceleração econômica e famílias ainda pressionadas pelo custo de vida.
Caso a capacidade de pagamento dos consumidores se deteriore de forma mais intensa, os bancos digitais poderão ser obrigados a desacelerar rapidamente a concessão de crédito — especialmente porque boa parte do crescimento recente ocorreu em produtos de prazo mais curto, que respondem mais rapidamente às mudanças do ciclo econômico.
Em outras palavras, os bancos digitais venceram a corrida pela inclusão financeira. O próximo teste será provar que conseguem atravessar um ambiente mais adverso sem que o crescimento conquistado nos últimos anos se transforme em uma fonte permanente de risco.
O que isso significa para as ações do setor?
Para quem acompanha os bancos na bolsa, o relatório reforça uma divisão que já vem aparecendo nas conversas entre investidores.
Segundo o BTG, tanto o Itaú Unibanco (ITUB4) quanto o próprio BTG Pactual (BPAC11) continuam sendo vistos por investidores globais como os nomes mais defensivos do setor financeiro brasileiro.
A percepção é de que os dois bancos possuem carteiras mais resilientes e maior capacidade de atravessar períodos de deterioração econômica.
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Já o Nubank (ROXO34) segue ocupando uma posição própria nessa discussão.
Embora a inadimplência tenha atingido recordes, os analistas destacam que o banco digital roxinho continua se beneficiando de um custo de servir muito mais baixo que o dos incumbentes e consegue precificar o risco de forma a manter a lucratividade.
Ainda assim, segundo o BTG, mudanças recentes no alto escalão e a deterioração do crédito pessoal ainda geram debate sobre se é hora de manter ou abandonar a tese do roxinho.
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Para o BTG, existem amortecedores capazes de limitar uma piora mais brusca da inadimplência dos bancos digitais no curto prazo. Mas o alerta permanece ligado.
