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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
02/09/2026
7 min

Como uma empresa mineira de engenharia virou um grupo de R$ 2 bilhões

Fundado em Minas Gerais em 1961, o Grupo MIP cresceu com obras industriais e hoje atua também em construção, logística e infraestrutura

Como uma empresa mineira de engenharia virou um grupo de R$ 2 bilhões

O Grupo MIP chega aos 65 anos em 2026 com uma receita próxima de R$ 2 bilhões e uma carteira ligada a alguns dos maiores projetos industriais em curso no país. A empresa mineira atua em mineração, siderurgia, papel e celulose, óleo e gás, logística portuária, construção e saneamento.

A história começou em 1961, com a implantação da usina da Usiminas em Ipatinga, em Minas Gerais. De lá para cá, o grupo passou por ciclos diferentes da indústria brasileira, criou novos negócios e montou uma holding para organizar a relação entre as três famílias controladoras.

Ao longo de mais de seis décadas, a companhia passou a ser associada às famílias Fattorelli Carneiro e Cançado, e hoje tem a operação executiva liderada pelo diretor-presidente Iomar Tavares da Cunha.

Em 2025, a receita consolidada chegou a R$ 1,969 bilhão. O Ebitda foi de R$ 524,7 milhões e o lucro líquido, de R$ 310,1 milhões. O grupo encerrou o ano com 4.970 funcionários.

A maior parte desse resultado veio da MIP Engenharia, responsável por R$ 1,639 bilhão do faturamento. A empresa atua em contratos de montagem industrial e obras eletromecânicas para clientes como Vale, Petrobras, Suzano, Usiminas e Novelis.

Parte da carteira atual está ligada a um novo ciclo de investimentos industriais. Há projetos em mineração de níquel, modernização de siderúrgicas, expansão de fábricas de papel e celulose e obras em unidades de alumínio.

Um dos exemplos é o projeto Araguaia Níquel, no Pará, onde a MIP participa da instalação eletromecânica da planta de beneficiamento. A empresa também atua em projetos da Samarco, em Mariana, na modernização de equipamentos da Usiminas, em Ipatinga, e em obras da Suzano e da Novelis.

Esse tipo de contrato ajuda a explicar a maior fatia da receita do grupo, mas também concentra boa parte do risco.

“Não pegamos uma obra de qualquer jeito nem fazemos orçamento só para ganhar o contrato. Orçamos com base nas avaliações técnicas necessárias para entregar dentro do prazo, do custo e com o lucro esperado”, diz Gustavo Vargas, CFO do Grupo MIP.

Engenharia pesada sem depender de uma única frente

A engenharia continua sendo o maior negócio do grupo, mas deixou de ser o único.

Em 1992, surgiu a MIP Construtora, criada a partir de um departamento interno da própria engenharia. A empresa passou a atuar em empreendimentos residenciais e comerciais, com foco em Minas Gerais.

Em 2025, a construtora faturou R$ 198 milhões e tinha 193 funcionários. A lógica financeira é diferente da engenharia. Enquanto os grandes contratos industriais trabalham com margens menores, a construtora opera com margens entre 25% e 30%.

“Na construtora, o foco é a margem, não o tamanho”, diz Vargas.

A empresa trabalha com poucos lançamentos por ano e evita transformar o negócio imobiliário em uma corrida por volume.

Essa diferença entre as duas operações é um dos pontos usados pelo grupo para reduzir a dependência de um único setor. Quando a engenharia passa por um ciclo mais fraco, outras empresas podem ajudar a compensar.

A Multilift cumpre parte desse papel.

Criada em 1995, a empresa atua em logística portuária, armazenagem e movimentação de cargas. Em 2025, faturou R$ 130 milhões e empregava 280 pessoas.

A companhia opera no Porto de Vitória e desenvolveu uma caixa articulada para embarque de granéis sólidos. O equipamento reduz a dispersão de partículas e o desperdício de carga.

A tecnologia também foi levada para fora do Brasil por meio da Haulder, joint venture criada com a holandesa Steinweg. A operação está presente no Chile, Peru e África do Sul.

Uma holding criada para organizar famílias e negócios

A estrutura atual do Grupo MIP começou a ganhar forma em 2019.

Naquele ano, as participações das três famílias controladoras foram reunidas na MIP Holding. O objetivo inicial era organizar a estrutura societária e a sucessão dos acionistas.

Depois, a holding passou a concentrar temas como risco, auditoria, sucessão, tecnologia, reforma tributária e novos investimentos.

“O Grupo MIP começou como um veículo de proteção societária e organização dos sócios e sucessores. Depois foi se transformando para aumentar o escopo e o valor agregado”, diz Vargas.

O conselho de administração tem seis integrantes, sendo três independentes. A estrutura conta ainda com comitês de auditoria, riscos e compliance, investimentos e estratégia, além de gestão e pessoas.

O plano de sucessão dos controladores e dos principais executivos aparece na matriz de riscos da holding.

A empresa também mantém auditoria externa e adota regras contábeis usadas por companhias abertas, apesar de ser uma sociedade anônima de capital fechado.

Em 2024, Ivo Godoi Júnior assumiu a presidência do conselho e a função de CEO da holding. A entrada de um executivo de fora das famílias faz parte do processo de separação entre propriedade e gestão.

Gustavo Vargas, CFO do Grupo MIP: "Não pegamos uma obra de qualquer jeito nem fazemos orçamento só para ganhar o contrato"

De uma obra em Ipatinga a quatro negócios

A primeira grande obra da MIP foi a implantação da Usiminas em Ipatinga. Em 1968, a empresa transferiu sua sede para Belo Horizonte.

Nas décadas seguintes, a companhia ampliou a atuação para mineração, siderurgia, metalurgia, energia, óleo e gás e papel e celulose.

Nos anos 1990 vieram a Construtora e a Multilift. Em 2018, o grupo criou a MIP Investimentos, braço dedicado a projetos em infraestrutura, saneamento e energia.

Essa empresa tem participação de 40% na Saneouro, concessionária de água e esgoto de Ouro Preto, em parceria com a GS Inima.

A MIP Investimentos também entrou em projetos de geração solar em Minas Gerais. A experiência, porém, mostra que a diversificação também inclui recuos.

Com mudanças nos incentivos e no mercado de energia solar, a rentabilidade das usinas ficou abaixo do esperado. O grupo decidiu vender esses ativos.

A operação de investimentos faturou R$ 2 milhões em 2025 e tinha dois funcionários.

Crescer sem transformar contrato em problema

A engenharia pesada trabalha com contratos grandes, prazos longos e custos que podem mudar durante a execução. Um erro de orçamento pode consumir o resultado de vários projetos.

Por isso, a MIP diz acompanhar preço, prazo, garantias e risco antes de assumir uma obra.

A regra também vale para os outros negócios.

Na construção, a empresa limita o número de lançamentos. Na energia solar, decidiu sair quando os números deixaram de fazer sentido. Na logística, renegociou contratos e ampliou a operação no Porto de Vitória.

“Não pensamos em crescimento a qualquer custo. Pensamos em perenidade, lucratividade e margem”, diz Vargas.

Essa postura aparece também na forma como a holding trata assuntos que atingem todas as empresas.

Com a reforma tributária, por exemplo, o grupo contratou a PwC para calcular impactos e o escritório Lacerda Diniz para acompanhar mudanças nas áreas de faturamento e tecnologia. Após um ataque cibernético em uma das empresas, a holding fez uma revisão de segurança em todo o grupo.

“A holding precisa compartilhar conhecimento e acelerar o diferencial competitivo das empresas”, afirma Vargas.

O novo ciclo de investimentos industriais

Aos 65 anos, o maior motor da MIP continua sendo o mesmo setor que deu origem ao grupo: a indústria.

A diferença está no tipo de projeto que vem ocupando a carteira.

Na mineração, aparecem ativos ligados a níquel e outros minerais usados em cadeias industriais. Na siderurgia, há projetos de modernização de plantas e equipamentos. Em papel e celulose, a empresa participa de expansões de fábricas. No setor de metais, trabalha em obras de alumínio.

A MIP Engenharia já participou de mais de 350 projetos e diz ter montado mais de 1 milhão de toneladas de equipamentos e estruturas ao longo da história.

Em 2025, o braço de engenharia tinha 4.485 funcionários, mais de 90% do total do grupo.

O tamanho dessa operação ajuda a explicar por que o grupo mantém os outros negócios separados, mas ligados por uma mesma holding.

A engenharia traz volume. A construtora trabalha com margens maiores. A Multilift depende da movimentação de cargas e do comércio exterior. A MIP Investimentos concentra projetos de longo prazo.

São quatro negócios diferentes sob o mesmo controle familiar, em uma empresa que começou com uma obra em Ipatinga e chega aos 65 anos com quase R$ 2 bilhões em receita.

AutorLeo Branco
FonteExame
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