É bolha ou não é? Rali das 'techs' resistiu à guerra, mas empacou com juros altos

Os conflitos no Oriente Médio mudaram a narrativa de realocação global que favoreceu o Ibovespa e outras bolsas emergentes nos dois primeiros meses do ano. A aversão a ativos de risco voltou, mas abrindo exceção para a tese que mais atraiu capital ao mercado americano nos últimos anos. Historicamente, o setor de tecnologia não responde bem a cenários inflacionários como o provocado pela disparada do preço do petróleo, com as restrições no Estreito de Ormuz. A conta é simples: se os preços sobem, aumenta também o risco de uma elevação de juros, o que nunca foi bom para empresas de crescimento. As 'techs' estão prevendo centenas de bilhões em investimentos em infraestrutura de IA, o que as deixa ainda mais sensíveis a aumentos de custo de capital.
Recordes e sinais de bolha
O S&P 500 bateu recordes de fechamento 26 vezes em 2026. Treze delas após o início dos conflitos do Oriente Médio. O Nasdaq Composite renovou máximas 11 vezes desde meados de abril — no ano foram 21 recordes. Em um relatório publicado no final de maio, o Bank of America via diversos sinais de uma bolha. Primeiro, o avanço de 80% no Nasdaq desde as mínimas de abril, o que o banco compara com movimento visto antes do estouro da bolha das pontocom em 2000: o índice dobrou de valor naquele ano. No caso do S&P, apenas 21 ações de uma carteira de 500 (4% do portfólio) renovaram máximas junto com o índice.
O relatório BofA contabilizou, no acumulado de 2026, 31 cortes de juros por bancos centrais ao redor do mundo contra apenas 12 altas. E esse ambiente é propício para ativos de risco, não necessariamente porque eles estão baratos. Pelo contrário: o banco avalia que os múltiplos do S&P 500 estão elevados.
Goldman Sachs e o componente especulativo
O Goldman Sachs também chama atenção para o rali mais rápido em décadas do índice de referência do mercado americano. Mas ressalva que, ao contrário da bolha das pontocom, os preços das ações hoje esticaram também pelos bons resultados das empresas. Isso reduz, mas não elimina o componente especulativo, afirma o banco. Da mesma forma que há muitos comprados em bolsa americana, também há uma quantidade acima da média em posição vendida.
Outro termômetro observado pelo Goldman é a emissão de novas ações. Ao contrário da onda de recompras que tem sido vista no Brasil, as big techs estão indo pelo caminho contrário e emitindo novas ações para se financiar. Para o banco, esse é um sinal de que as próprias empresas estão achando seus papéis caros.
Google, Meta e o choque de realidade
É o que o Google está prestes a fazer, com a emissão de US$ 80 bilhões em novos papéis. A Meta também estaria indo pelo mesmo caminho, segundo o Financial Times, informação que foi tratada como "pura especulação" pela dona do Facebook e Instagram.
Essas notícias penalizaram não só as ações das empresas, impactaram o mercado como um todo. O rali que parecia ignorar as guerras também tomou um choque de realidade com o mais recente dado do mercado de trabalho dos Estados Unidos. Com a criação de vagas de trabalho superando e muito o consenso dos agentes, veio o choque de realidade de que o Federal Reserve poderá subir juros em vez de retomar um ciclo de cortes, ainda que Kevin Warsh chegue ao BC americano com um mandato de afrouxamento monetário.
O S&P 500 já recuou 2,5% desde as máximas e o Nasdaq, mais de 4%.
Emergentes como alternativa
Com os mercados precificando altas de juros, um aperto de liquidez pode começar a pesar sobre o desempenho das bolsas, alerta o HSBC. Para o banco, não há sinais avassaladores de bolha, mas há razões para cautela. A recomendação é uma abordagem ativa e seletiva em tecnologia americana. Os mercados emergentes, onde os valuations estão menos esticados, são apontados como uma rota alternativa para acessar o tema de IA — a Coreia que o diga.
Há sinais de que algumas ações talvez não tenham subido pelos motivos certos. A Dell se beneficiou por uma fala elogiosa de Trump. A Marvell, por uma recomendação informal de Jensen Huang, CEO da Nvidia. Ilustres desconhecidas do setor de semicondutores agora fazem parte do seleto clube das trilionárias. Tudo isso acontecendo ao mesmo tempo em que gigantes do setor de tecnologia se preparam para ingressar na bolsa com cifras astronômicas, nunca antes vistas.
Está claro que há quantidades impensáveis de dinheiro orbitando no entorno dessas companhias. Mas é inegável que os preços desses ativos subiram rápido demais, em um ambiente que vai ficando cada vez mais adverso. A tese se mostrou resistente — mas não inabalável.
