Fim da escala 6x1: qual é a carga horária de outros países do mundo?

A proposta de emenda à Constituição (PEC) sobre o fim da escala 6x1 tramita no Senado desde a última quinta-feira, 28, após ter sido aprovada pela Câmara dos Deputados no dia anterior com ampla maioria.
APEC 221/2019 tem sido um dos principais pontos defendidos pelo governo federal e pela esquerda no Legislativo desde o ano passado, mas é criticada por diversos setores, sobretudo o produtivo, que se organizou para tentar postergar o debate do tema no Senado. Ela propõe uma carga horária máxima de 40 horas semanais, frente à exigência atual de 44 horas, com período de transição de 14 meses, sem redução de salário.
Em meio ao debate nacional, o jornal londrino Financial Times afirmou "enquanto alguns no Ocidente tentam aprovar semanas de trabalho com quatro dias úteis em razão da IA, o Brasil apenas agora está avaliando diminuir a carga de milhões de seus trabalhadores de seis dias para cinco."
Obrasileiro trabalha, em média, quase 2 mil horas ao ano,de acordo com dados do Penn World Table de 2025. Esse número é 11% maior do que o dos Estados Unidos e 34% superior ao dado alemão, por exemplo.
O conjunto de dados da Penn World Table é compilado pela Universidade da Califórnia em Davis e a Universidade de Groningen, a fim de contabilizar a produtividade, riqueza e gastos em um país. Veja a seguir mais detalhes de como funciona a jornada em outros países.
A situação trabalhista em países membros do G7
Os países do G7 têm, em geral, legislações trabalhistas mais restritivas e jornadas efetivas consideravelmente menores do que a brasileira..
- Alemanha: O limite legal é de 8 horas diárias, de segunda a sábado, com teto de 48 horas semanais. A jornada pode ser estendida a até 10 horas por dia desde que a média de 8 horas seja respeitada em um período de referência de 6 meses ou 24 semanas. Trabalhar aos domingos e feriados é, em geral, proibido por lei. Na prática, o alemão trabalhou em média 1.335 horas em 2023 — o menor volume entre os países do G7 e cerca de 49% menos que o brasileiro.
- Canadá: A legislação federal fixa em 48 horas o limite máximo semanal na maior parte dos casos, com possibilidade de horas a mais em situações excepcionais, como emergências ou planos de escala modificados. Na prática, o canadense trabalhou em média 1.731 horas em 2023, cerca de 15% a menos que o brasileiro.
- Estados Unidos: A Fair Labor Standards Act não estabelece um limite máximo de horas semanais, mas exige o pagamento de hora extra (1,5 vez o valor regular) para todo trabalho acima de 40 horas semanais. O americano trabalhou, em média, 1.789 horas em 2023, 11% a menos do que o brasileiro.
- França: A jornada legal é de 35 horas semanais, com teto diário de 10 horas — prorrogável a 12 horas em casos excepcionais previstos em convenção coletiva. As horas acima das 35 semanais são consideradas extras. O francês trabalhou em média 1.487 horas em 2023, aproximadamente 34% menos que o brasileiro.
- Itália: A jornada normal é fixada em 40 horas semanais pela lei, podendo convenções coletivas estabelecer limite inferior. Horas trabalhadas além das 40 semanais são consideradas extraordinárias; na ausência de convenção coletiva, o limite é de 250 horas extras anuais mediante acordo entre empregador e empregado. O italiano trabalhou em média 1.701 horas em 2023, cerca de 17% a menos que o brasileiro.
- Japão: A lei trabalhista japonesa fixa a jornada em 40 horas semanais e 8 horas diárias como regra geral. A exceção são pequenas empresas de setores como varejo, beleza, cinemas e restaurantes com menos de 10 funcionários, que podem adotar até 44 horas semanais. O empregador deve garantir ao menos um dia de folga por semana. Apesar do país ser conhecido por longas jornadas de trabalho, o japonês trabalhou em média 1.654 horas em 2023, cerca de 20% a menos que o brasileiro.
- Reino Unido: Em média, o trabalhador britânico não pode exceder 48 horas semanais, calculadas em geral sobre um período de 17 semanas. É possível, porém, optar individualmente por sair desse limite (opt-out). Menores de 18 anos têm limite de 8 horas diárias e 40 horas semanais. O britânico trabalhou em média 1.523 horas em 2023, cerca de 31% menos que o brasileiro.
- Na África do Sul, a lei trabalhista (Basic Conditions of Employment Act) fixa o teto em 45 horas semanais para trabalhadores abaixo do limite salarial estabelecido pelo governo — sendo 9 horas diárias para quem trabalha cinco dias por semana, e 8 horas para quem trabalha mais dias. O horário de almoço é não remunerado e não entra no cômputo. Horas extras são voluntárias, limitadas a 3 horas por dia ou 10 horas por semana, e devem ser pagas a 1,5 vez o valor regular, ou em dobro para domingos e feriados. O sul-africano trabalhou em média 2.181 horas em 2023, cerca de 9% a mais do que o brasileiro.
Quanto se trabalha em outros países do Mercosul
No bloco regional, o Brasil apresenta carga horária anual menor que Paraguai e Bolívia, mas maior que Argentina e Uruguai.
- Argentina: A jornada padrão é de 8 horas diárias e 48 horas semanais. Uma reforma aprovada em fevereiro de 2026, no governo Javier Milei, passou a permitir acordos individuais que possibilitem jornadas de até 12 horas diárias, mantido o teto de 48 horas semanais — com intervalos mínimos de 12 horas entre turnos e 35 horas de descanso semanal. O argentino trabalhou em média 1.612 horas em 2023, cerca de 24% a menos do que o brasileiro.
- Paraguai: A semana padrão é de 48 horas para trabalho diurno, com máximo de 8 horas diárias. Para o trabalho noturno, o limite diário cai para 7 horas. Horas extras são limitadas a 3 por dia e 9 por semana, com remuneração proporcional acrescida de adicional; horas extras noturnas e em feriados são pagas em dobro. O paraguaio trabalhou em média 2.123 horas em 2023, cerca de 6% a mais do que o brasileiro.
- Uruguai: A jornada não pode ultrapassar 8 horas diárias, com teto de 48 horas semanais no setor industrial e 44 horas no comércio e escritórios. Horas extras são limitadas a 8 por semana e pagas com adicional de 100% sobre a hora regular; para trabalho no dia de descanso semanal, o adicional sobe para 150%. O uruguaio trabalhou em média 1.481 horas em 2023. É a menor carga horária entre os países do Mercosul analisados e cerca de 35% inferior à do brasileiro.
- Bolívia: A legislação trabalhista boliviana fixa a jornada efetiva em 8 horas diárias e 48 horas semanais, com limite de 7 horas para o trabalho noturno. O boliviano trabalhou em média 1.968 horas em 2023, volume próximo ao brasileiro, cerca de 1% inferior.
Confira o quanto o brasileiro trabalha comparado a outros países

