Fundada na era da internet discada, esta empresa fatura R$ 594 milhões e aposta na IA para crescer

A BRQ Digital Solutions nasceu na era da internet discada, cresceu atendendo bancos e agora tenta se adaptar à nova pressão do setor de tecnologia: transformar inteligência artificial em produtividade — e receita.
Fundada em 1993, a BRQ fechou o primeiro trimestre de 2026 com receita líquida de R$ 159 milhões, alta de 16,5% na comparação anual. Em 2025, o faturamento foi de R$ 594 milhões.
Os números aparecem num momento em que empresas de tecnologia tentam transformar o discurso sobre inteligência artificial em receita concreta. A BRQ aposta que sua experiência em integração de sistemas e desenvolvimento corporativo pode ajudá-la a capturar parte dessa demanda.
“Todo mundo quer tirar algum benefício da IA, mas nem todo mundo sabe como”, afirma Antonio Rodrigues, sócio-fundador da BRQ. “A BRQ tem conseguido se posicionar como empresa que vai ajudar os clientes a tirar produtividade disso.”
O próximo passo da empresa é ampliar a atuação internacional e acelerar aquisições para incorporar novas competências ligadas à IA generativa.
Da IBM ao primeiro banco online
A BRQ nasceu quando Antônio Rodrigues e Benjamin Quadros, os dois fundadores, deixaram a IBM para abrir uma empresa de desenvolvimento de software no Rio de Janeiro. Eles se conheceram no curso de ciência da computação da Universidade Federal Fluminense.
O primeiro grande projeto veio com o Unibanco. A BRQ participou do desenvolvimento do “Unibanco 30 Horas”, um dos primeiros serviços bancários online do país, ainda antes da internet comercial. “Era modem discado. A internet como conhecemos hoje ainda nem existia”, diz.
A empresa cresceu de forma orgânica durante os primeiros anos, apoiada principalmente no setor financeiro. Depois vieram investimentos em cloud computing, mobilidade e dados.
Em 2007, a companhia trouxe o BNDESPar como sócio minoritário para financiar expansão e reorganizar a estrutura.
Com o capital, a BRQ comprou operações no Sul e no Nordeste e uma empresa nos Estados Unidos. Pouco depois, enfrentou a crise financeira de 2008. “Tivemos um momento delicado, mas sobrevivemos e voltamos a crescer”, afirma.
A virada para IA-Native
Nos últimos quatro anos, a BRQ começou uma transformação interna para incorporar inteligência artificial generativa em todas as áreas da companhia.
A empresa criou um modelo que chama de “Squad as a Service”, equipes de desenvolvimento que usam IA de forma integrada para acelerar projetos corporativos.
O objetivo é reduzir tempo de entrega e aumentar produtividade sem depender apenas de aumento de equipe.Segundo ele, a companhia trabalha com diferentes modelos de IA e provedores de cloud, como Google Cloud, AWS, Microsoft, Oracle e SAP, sem depender de uma única plataforma.
A mudança também começa a alterar o modelo comercial da empresa. Em vez de cobrar apenas por horas trabalhadas, a BRQ estuda contratos ligados ao ganho de produtividade gerado para o cliente.“Estamos testando formatos em que a cobrança considera o benefício gerado para o cliente, e não apenas o volume de trabalho”, diz.
Segundo Rodrigues, a empresa também criou plataformas internas para combinar diferentes modelos de IA em um mesmo projeto, dependendo da tarefa executada e do nível de segurança exigido pelo cliente.
A aposta acontece num momento em que empresas ainda tentam encontrar aplicações práticas para inteligência artificial generativa além dos testes iniciais. Para a BRQ, a expectativa é que a tecnologia reduza custo operacional e permita atender mais projetos sem ampliar equipes na mesma proporção.
O desafio é mão de obra
Se antes empresas de tecnologia disputavam quantidade de profissionais, agora a BRQ diz buscar perfis mais especializados.
A companhia afirma ter cerca de 150 vagas abertas. "A IA vai substituir quem só sabe o que sabia há três anos”, afirma Rodrigues. “Você vai precisar de gente mais qualificada para liderar essa IA.”
Segundo ele, o profissional deixa de ser apenas executor técnico e passa a atuar mais como arquiteto de sistemas e supervisor dos fluxos criados por inteligência artificial.A empresa também tenta acelerar essa formação via aquisições. Nos últimos quatro anos, a BRQ comprou cinco empresas para incorporar competências técnicas e equipes prontas.
A estratégia continua ativa. Segundo Rodrigues, parte das aquisições agora busca especificamente competências ligadas ao uso corporativo de IA, enquanto em anos passados a aquisição buscava carteira de clientes.
A aposta fora do Brasil
Hoje, cerca de 90% da receita da BRQ ainda vem do mercado brasileiro. Mas a companhia vê na IA uma oportunidade para reduzir uma antiga barreira da exportação de serviços: o idioma.“Agora você precisa de menos gente e até de menos capacidade de falar inglês fluente, porque a IA ajuda nisso”, afirma.
A empresa atende setores como bancos, varejo, agroindústria, manufatura, aviação e serviços. Apesar disso, a expansão internacional aparece como uma das prioridades para os próximos anos.
A expectativa da companhia é manter em 2026 um crescimento próximo ao registrado no primeiro trimestre, perto de 20%.“A tecnologia sempre aumentou produtividade e melhorou o mundo”, afirma. “A IA tem tudo para fazer isso também.”
