“Juros altos vieram para ficar”, diz executivo da XP

O período de dinheiro barato que marcou boa parte da última década ficou para trás e empresas, investidores e governos precisarão se adaptar a uma realidade de juros estruturalmente mais elevados nos próximos anos.
A avaliação é de Eduardo Tabone, Eduardo Tabone, sócio e diretor do XP Private Ban, durante painel do LIDE sobre as relações econômicas entre Brasil e Estados Unidos realizado nesta terça-feira (9).
Segundo o executivo, o cenário global mudou de forma significativa após a pandemia, quando governos adotaram políticas fiscais expansionistas para sustentar a atividade econômica. Embora necessárias naquele momento, essas medidas deixaram como legado uma inflação mais persistente e um ambiente de juros elevados.
“Entramos em um ambiente econômico em que a inflação está estruturalmente mais persistente e os juros estão mais altos. O capital passa a ser mais seletivo e isso altera significativamente as relações comerciais, os investimentos e a forma como os países lidam com o crescimento”, afirmou.
Na avaliação de Taboni, a economia americana continua demonstrando resiliência. O mercado de trabalho segue forte, o consumo permanece aquecido e a atividade econômica continua crescendo, mesmo diante do aperto monetário promovido pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano).
Por isso, segundo ele, o principal debate entre investidores deixou de ser quando os juros nos EUA começarão a cair. “Agora a discussão é qual será o novo nível estrutural de equilíbrio dos juros americanos”, disse.
O executivo observou que os investidores passaram a exigir um prêmio maior para financiar a dívida americana, movimento refletido na abertura recente da curva de juros dos Treasuries.
Fiscal segue sendo o principal desafio do Brasil
Para Taboni, o diagnóstico também vale para o Brasil.
O país convive atualmente com uma taxa Selic de 14,75% ao ano e com juros reais entre os mais altos do mundo, cenário que ajuda a atrair capital estrangeiro, mas ao mesmo tempo aumenta o custo de financiamento para famílias e empresas.
Segundo ele, a possibilidade de uma redução estrutural dos juros depende diretamente da capacidade do governo de melhorar a percepção fiscal e oferecer maior previsibilidade aos investidores.
“O fechamento estrutural dos juros brasileiros vai depender da capacidade do país de gerar previsibilidade fiscal e estabilidade econômica”, afirmou.
Na visão do executivo, sem avanços nessa frente, o Brasil corre o risco de continuar convivendo com um custo de capital elevado por um período prolongado.
Capital mais caro exige mais eficiência
Taboni afirmou que a nova realidade deve alterar a forma como investidores avaliam empresas e oportunidades de investimento.
Segundo ele, em um ambiente de juros próximos de zero, o mercado costumava priorizar crescimento. Com o custo do dinheiro mais elevado, eficiência operacional, geração de caixa e qualidade dos negócios voltam a ganhar peso.
“O capital voltou a ter custo. Quando o capital tem custo, a diferenciação importa mais, a eficiência importa mais e a qualidade das empresas importa mais”, disse.
Para os investidores, o executivo recomendou atenção à diversificação internacional, proteção cambial e exposição a ativos capazes de oferecer proteção contra a inflação.
Já para as empresas, a orientação é reforçar a eficiência operacional e buscar maior previsibilidade financeira em um cenário que, segundo ele, deve permanecer desafiador por mais tempo.
A mensagem central da apresentação foi que tanto o Brasil quanto o restante do mundo precisarão se adaptar a uma nova era de juros mais elevados, em que crescimento econômico e expansão dos negócios dependerão cada vez mais da produtividade e da disciplina fiscal.
