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09/06/2026
12 min

Luana Lopes Lara defende Kalshi no Web Summit Rio e diz que quer trazer empresa ao Brasil

Luana Lopes Lara defende Kalshi no Web Summit Rio e diz que quer trazer empresa ao Brasil

O Web Summit Rio abriu sua edição de 2026 nesta segunda-feira, 8, no Riocentro, com uma discussão sobre dinheiro, regulação e o futuro das apostas em eventos reais.

O evento, que reúne startups, investidores, empresas de tecnologia e executivos de vários países, vai até quinta-feira, 11, no Rio de Janeiro.

Um dos nomes da abertura foi a brasileira Luana Lopes Lara, cofundadora e CEO da Kalshi, empresa americana avaliada em 22 bilhões de dólares.

A companhia opera mercados de previsão, um tipo de bolsa em que usuários compram e vendem contratos ligados ao resultado de eventos do mundo real, como eleições, inflação, juros, esportes e temas de cultura.

A fala de Luana teve dois recados centrais. O primeiro: a Kalshi quer entrar no Brasil. O segundo:ela não aceita que a empresa seja tratada como uma casa de apostas.

“Queremos vir para o Brasil. Esperamos vir para o Brasil em breve, mas vamos trabalhar com o governo”, afirmou Luana, em conversa no palco principal do Web Summit.

A frase foi dita após uma pergunta sobre a decisão do Ministério da Fazenda que resultou em uma proibição aos mercados de previsão no país. Luana disse que a situação brasileira lembra o começo da Kalshi nos Estados Unidos, quando a empresa passou anos tentando explicar seu modelo a reguladores, imprensa e mercado.

“Muitos países estão exatamente onde os Estados Unidos estavam em 2018 e 2019, quando começamos a empresa”, afirmou. “Foram anos de educação dos reguladores, do público, da mídia e da indústria.”

A brasileira por trás da Kalshi

Luana nasceu em Belo Horizonte, em 1996. Antes de entrar no mercado de tecnologia e finanças, estudou dança na Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, em Joinville, e chegou a atuar como bailarina profissional na Áustria.

Depois, foi para o MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, onde se formou em Ciência da Computação e Matemática em 2018. Na universidade, conheceu Tarek Mansour, com quem criou a Kalshi logo após a formatura.

Durante a entrevista, Luana conectou a origem brasileira à trajetória da empresa. Segundo ela, a cultura brasileira ajudou a sustentar a empresa nos anos em que a Kalshi ainda não tinha produto no ar.

“Uma qualidade pouco observada dos brasileiros e da cultura brasileira é o otimismo e a crença de que as coisas vão dar certo no final”, disse.

Segundo Luana, a Kalshi passou de três a quatro anos sem produto lançado, enquanto tentava obter autorização para operar um mercado de previsão regulado nos Estados Unidos.

“Foi muito difícil mental e psicologicamente para mim e para meu cofundador continuar insistindo, mesmo recebendo não atrás de não”, afirmou.

Ela também citou a formação no país como parte da base que a levou até a empresa.

“Metade do que aprendi em matemática e ciência, e tudo que me trouxe até aqui, veio do Brasil”, disse.

Como funciona a Kalshi

A Kalshi funciona como uma bolsa de contratos sobre eventos futuros. Em vez de comprar uma ação de uma empresa, o usuário negocia contratos ligados a perguntas de “sim” ou “não”.

Um exemplo: se determinado índice de inflação ficará acima de um patamar, se um candidato vencerá uma eleição ou se um time chegará a uma final.

A empresa foi lançada ao público em 2021 e se tornou a primeira plataforma do tipo regulada pela CFTC, órgão que fiscaliza mercados de commodities e futuros nos Estados Unidos.

Hoje, segundo Luana, a Kalshi negocia mais de 1 bilhão de dólares por semana. Em maio de 2026, a companhia fechou uma rodada de investimento de 1 bilhão de dólares, liderada pela Coatue, e passou a ser avaliada em 22 bilhões de dólares.

Luana tem cerca de 12% da empresa. Com isso, seu patrimônio é estimado em 2,6 bilhões de dólares. A marca colocou a brasileira entre as mulheres mais jovens do mundo a construir uma fortuna bilionária sem herança.

Apesar do valor de mercado, a Kalshi ainda tem uma equipe pequena para seu tamanho. Segundo Luana, a empresa cruzou a marca de 170 funcionários.

“Tivemos sorte de crescer agora, no mundo da inteligência artificial. Cada engenheiro tem cerca de 20 agentes em nuvem fazendo muito trabalho”, afirmou.

A executiva disse que a estrutura enxuta também é uma escolha de gestão. “Gosto que cada pessoa na empresa tenha, no máximo, uma pessoa entre mim e ela”, afirmou. “O motivo real de estarmos à frente é que somos mais rápidos do que todo mundo.”

Por que Luana diz que Kalshi não é casa de apostas

Grande parte da entrevista foi dedicada a explicar por que a Kalshi não deve ser comparada a cassinos ou casas de apostas esportivas.

Luana afirmou que a diferença começa no modelo de receita. Segundo ela, cassinos e casas de apostas ganham dinheiro quando o usuário perde. A Kalshi, por outro lado, ganha com taxas cobradas nas transações.

“Nós não ganhamos dinheiro quando as pessoas perdem. Ganhamos dinheiro com taxa de transação”, disse.

Na visão dela, isso muda o incentivo da plataforma. A Kalshi, segundo Luana, quer manter usuários que trazem informação correta para os mercados, inclusive quando eles ganham dinheiro.

“Queremos que os vencedores continuem trazendo informação para os mercados e continuem vencendo”, afirmou.

A executiva também disse que a plataforma não permite alavancagem nem margem para usuários de varejo em mercados de previsão. Ou seja, o usuário não pode operar com dinheiro emprestado dentro desses contratos.

Segundo Luana, quando um cliente começa a perder valores relevantes, a empresa pode atrasar depósitos, bloquear novos aportes e pedir comprovação de recursos.

“Se você começa a perder, nós vamos impedir novos depósitos, vamos atrasar seus depósitos e pedir comprovação de recursos”, afirmou.

Luana reconheceu que há risco de perda financeira. Mas disse que esse risco precisa ser comparado ao de outras atividades, como negociação de ações, criptoativos, contratos futuros e apostas esportivas.

“Existe risco em qualquer uma dessas atividades”, disse. “Mas os mercados de previsão são mais intuitivos para as pessoas.”

O plano para entrar no Brasil

A entrada no Brasil ainda não tem data. Luana disse que a estratégia da Kalshi passa por conversas com governo, reguladores, imprensa e público.

Segundo ela, o desafio é explicar as diferenças entre mercados de previsão, apostas esportivas e cassinos.

“É quase uma educação sobre as diferenças”, afirmou.

Luana disse que a empresa costuma ser atacada por setores que enxergam a Kalshi como ameaça. Primeiro, segundo ela, vieram cassinos e casas de apostas. Mais recentemente, as críticas passaram a vir também de bolsas tradicionais.

“Sempre que você mexe com uma indústria grande, eles vão tentar te parar, porque é muito difícil competir”, afirmou.

Para Luana, o caminho da Kalshi fora dos Estados Unidos será parecido com o processo americano: entrar de forma regulada, explicar o produto e tentar construir um modelo aceito por governos.

“É muito importante para nós chegar de forma legal e regulada. É a única maneira como fazemos as coisas”, disse.

A meta de virar a maior bolsa de derivativos do mundo

Nos Estados Unidos, a Kalshi começou com força entre usuários individuais. Agora, a empresa quer atrair bancos, fundos e outros investidores institucionais.

Luana disse que a meta é transformar a Kalshi na maior bolsa de derivativos do mundo. Derivativos são contratos financeiros cujo valor depende de outro ativo, índice ou evento.

“Queremos ser a maior bolsa de derivativos do mundo”, afirmou.

Para isso, a empresa vem lançando novos produtos. Um deles são os futuros perpétuos, contratos sem data fixa de vencimento. Segundo Luana, a Kalshi lançou esse produto de forma legal e regulada nos Estados Unidos.

A companhia também busca ampliar operações em bloco, margem aprovada por reguladores e integração com grandes instituições financeiras.

“Só vamos chegar lá se todos, até o Goldman Sachs, estiverem negociando na mesma piscina de liquidez”, disse.

A executiva afirmou que a entrada de bancos exige uma estrutura técnica e regulatória mais complexa. Segundo ela, a integração de uma instituição financeira pode levar um ano, com etapas de tecnologia, compliance e monitoramento de mercado.

Mercados de previsão como proteção para empresas

Luana também defendeu o uso da Kalshi como ferramenta de proteção para empresas.

Um exemplo citado foi o de empresas que querem reduzir o risco financeiro de eventos externos, como uma paralisação do governo americano, mudanças tributárias ou o resultado de uma final esportiva.

Ela contou o caso de uma empresa chamada Arrived Homes, que comprou mais de 1 milhão de dólares em contratos na Kalshi para se proteger contra uma paralisação longa do governo dos Estados Unidos.

Também citou bares e lojas que usam a plataforma para bancar promoções ligadas a eventos esportivos. Se um time vence e o estabelecimento precisa cumprir uma oferta, o contrato comprado na Kalshi pode compensar parte da perda.

“Oferecemos mercados que têm significado econômico real no mundo”, afirmou. “Não fazemos roleta. Nunca faríamos algo assim.”

Segundo Luana, a empresa tem recebido procura de bares, lojas de bagel e outros pequenos negócios interessados nesse tipo de proteção.

Limites sobre guerra, terrorismo e violência

A conversa também passou por temas sensíveis. Luana foi questionada sobre mercados ligados a eventos políticos e internacionais, incluindo um episódio envolvendo o líder supremo do Irã.

Ela disse que a Kalshi tem uma linha clara: não permite mercados associados a guerra, terrorismo ou assassinato.

“Qualquer mercado associado a guerra, terrorismo e assassinato não é permitido na Kalshi”, afirmou.

Segundo ela, quando um evento violento interfere em um mercado já aberto, a empresa anula as negociações e devolve o dinheiro colocado pelos usuários, sem permitir lucro.

“Todo mundo recebe de volta o dinheiro que colocou, mas não pode lucrar com isso”, disse.

Luana afirmou que, no caso citado, a empresa errou na comunicação com os usuários.

“Fizemos um trabalho ruim na educação do cliente e na comunicação sobre o que aconteceria nesses casos”, afirmou. “Se os usuários estão confusos, a culpa é nossa.”

“Maior que a bolsa de valores”

No fim da entrevista, Luana reafirmou uma de suas teses mais ambiciosas: a de que os mercados de previsão podem superar o mercado de ações.

Questionada sobre quanto tempo isso levaria, ela falou em um horizonte de cinco a dez anos, embora tenha dito que a previsão pode estar conservadora.

“Eu acredito nisso”, afirmou.

Para a executiva, a explicação está no tipo de assunto que as pessoas entendem e discutem no dia a dia.

“Quando você sentar em uma mesa de jantar hoje à noite, não acho que vai falar se a ação da Meta vai cair por causa de mais data centers. Você vai falar sobre eleições, pandemias, esportes”, disse.

Segundo Luana, esses temas são mais próximos da vida das pessoas do que indicadores de empresas listadas em bolsa.

“É muito mais intuitivo. É muito mais humano pensar em mercados de previsão do que em outras classes de ativos”, afirmou.

O que é o Web Summit Rio

O Web Summit Rio é a versão brasileira de uma conferência global de tecnologia criada na Europa. O evento reúne fundadores de startups, investidores, executivos, autoridades, empresas de tecnologia, criadores de conteúdo e nomes da mídia.

A edição de 2026 ocorre de 8 a 11 de junho, no Riocentro. Segundo a organização, são mais de 34 mil participantes, cerca de 1.500 startups e mais de 600 investidores.

A programação está dividida em 14 trilhas temáticas, como inteligência artificial, fintechs, inovação corporativa, comércio digital e software como serviço.

Além de Luana Lopes Lara, a edição deste ano tem nomes como Michele Catasta, presidente e chefe de IA da Replit; Mati Staniszewski, cofundador da ElevenLabs; Bruno Lewicki e Christian Rôças, da OpenAI na América Latina; Marcio Aguiar, da Nvidia para a América Latina; Fábio Coelho, presidente do Google Brasil; Priscyla Laham, presidente da Microsoft Brasil; e Diego Barreto, CEO do iFood.

A programação também inclui representantes do mercado chinês, como Hai Wu, presidente do China Internet Investment Fund, e Mark Chen, presidente da Huawei Cloud na América Latina. Um dos pontos de atenção da feira é o G1 Robot, robô humanoide de 1,30 metro da Unitree.

Fora do eixo de tecnologia e finanças, o evento recebe nomes como Lázaro Ramos, Fábio Porchat, Rodrigo Moran, da Meta, e a atleta Rebeca Andrade.

Os temas do Web Summit em 2026

A inteligência artificial ocupa parte central da programação. O debate deixou de tratar apenas do que a tecnologia pode fazer e passou a olhar para a infraestrutura que sustenta esses sistemas, como servidores, chips, data centers e disputa entre empresas e países.

Outro tema é a economia dos criadores. Painéis discutem a perda de força de conteúdos muito produzidos nas redes sociais e o avanço de comunidades menores, influenciadores de nicho e formatos mais próximos do público.

O evento também tem uma trilha sobre informação, redes sociais e inteligência artificial generativa. Um dos painéis discute a pergunta “a quem pertence a verdade?”, em meio ao avanço de deepfakes e conteúdos sintéticos.

Na área de finanças, entram discussões sobre fintechs, pagamentos instantâneos e mercados de previsão, tema puxado pela presença de Luana e da Kalshi na abertura.

A história do Web Summit

O Web Summit nasceu em Dublin, na Irlanda, em 2009, criado por Paddy Cosgrave, Daire Hickey e David Kelly.

A primeira edição, realizada em 2010, reuniu cerca de 400 jornalistas, blogueiros e fundadores locais em um hotel. A proposta era debater como a tecnologia estava mudando a sociedade e criar encontros entre quem construía empresas na internet.

Entre 2011 e 2015, o evento cresceu em Dublin e passou de 400 participantes para mais de 42 mil. A cidade começou a enfrentar limites de estrutura, com hotéis lotados, problemas de conexão e falta de espaço para o público.

Em 2016, o Web Summit mudou para Lisboa. O governo português ofereceu a MEO Arena e a Feira Internacional de Lisboa para receber o evento. Em 2018, foi assinado um acordo de 110 milhões de euros para manter o festival na capital portuguesa até 2028.

Depois, a marca passou a levar eventos para outras regiões, como Toronto e Doha. Em 2023, chegou ao Rio de Janeiro, com o Riocentro como sede da primeira edição na América do Sul.

Uma das marcas do Web Summit é o uso de tecnologia própria para conectar participantes. O aplicativo do evento cruza dados de fundadores, jornalistas, investidores e executivos para sugerir reuniões, encontros e palestras.

AutorLeo Branco
FonteExame
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