Pelo menos metade do mercado de canetas emagrecedoras é informal, diz EMS

Às vésperas do lançamento do Ozivy, sua caneta injetável à base de semaglutida, a EMS afirma que a principal disputa no mercado de medicamentos da classe GLP-1 não está entre as farmacêuticas, mas sim na concorrência com produtos vendidos fora dos canais regulados. Segundo Marcos Sanchez, vice-presidente da companhia, uma parcela significativa do consumo ocorre por meio de medicamentos trazidos ilegalmente do exterior ou manipulados em larga escala, à margem das regras aplicadas à indústria farmacêutica.
A declaração foi feita durante evento promovido pelo Grupo Pague Menos e pelo Itaú BBA nesta terça-feira, 9, sobre os impactos dosmedicamentos da classe GLP-1 — categoria que inclui tratamentos para diabetes tipo 2 e obesidade, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro.
"Sendo super conservador, o mercado é metade informal e metade formal. Para não dizer que o mercado é 25% formal e 75% informal", afirmou Sanchez. "O grande ponto não é disputa entre market share de indústrias. É o market share que está completamente fora da legislação".
Segundo o executivo, o mercado paralelo inclui produtos trazidos do Paraguai e medicamentos manipulados em escala comercial. Para Sanchez, apesar das ações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e da Polícia Federal, ainda há espaço para uma fiscalização mais efetiva.
"Todos nós somos impactados diariamente por marcas que estão aprovadas dentro do país, mas que não poderiam estar saindo do país e estão atravessando a fronteira com uma facilidade enorme", disse.
Sanchez também direcionou críticas ao que chamou de atuação industrial de algumas farmácias de manipulação.
"A farmácia de manipulação tem seu espaço. Se quiser virar indústria, não tem problema nenhum. Mas do jeito que opera hoje, com empresas faturando R$ 500 milhões, R$ 600 milhões, R$ 800 milhões, isso não faz sentido algum", afirmou.
Segundo o vice-presidente da EMS, há preocupação adicional relacionada à rastreabilidade e às condições de armazenamento desses produtos. O executivo argumentou que medicamentos biológicos e peptídicos exigem cadeia logística refrigerada e rígidos controles sanitários.
"Você literalmente não sabe o que tem dentro. Se o produto estiver mal acondicionado, ele pode perder efeito. A indústria passa por uma regulamentação extremamente robusta e o jogo deveria ser igual para todos", disse.
Ozivy chega às farmácias na próxima semana
As declarações acontecem no momento em que a EMS se prepara para iniciar a comercialização do Ozivy. A partir da próxima segunda-feira, 15 de junho, a companhia começará a distribuir sua caneta de semaglutida para as principais redes farmacêuticas do país.
O medicamento chegará ao mercado com preço a partir de R$ 452 por caneta. Pacientes cadastrados no programa Vida + Leve poderão pagar R$ 287 mensais nos três primeiros meses de tratamento. Após esse período, o valor previsto é de R$ 498 por caneta.
O lançamento marca a entrada da primeira semaglutida produzida no Brasil por síntese química com aprovação regulatória para comercialização no país. A primeira leva terá mais de 500 mil canetas distribuídas inicialmente nas principais redes farmacêuticas, com expansão gradual para todo o território nacional.
Para Sanchez, a produção local pode ajudar a ampliar o acesso à terapia em um mercado ainda marcado por preços elevados e forte dependência de produtos importados. "O drive da empresa é gerar acesso. Existe uma demanda reprimida muito grande e uma oportunidade enorme de ampliar esse mercado", afirmou.
Mercado pode superar R$ 11 bilhões
Na avaliação da EMS, o mercado brasileiro de medicamentos agonistas de GLP-1 ainda está longe da maturidade. O executivo afirmou que a categoria deve superar R$ 11 bilhões em vendas em 2026 e continuar crescendo em ritmo de dois dígitos nos próximos anos.
"O produto é revolucionário. Essa classe veio para ficar e provavelmente está apenas no começo", disse.
Além do uso para controle do diabetes e da obesidade, Sanchez destacou que estudos vêm apontando possíveis impactos desses medicamentos sobre compulsões e comportamentos impulsivos, como antitabagismo e antialcoolismo, embora ressalte que parte das evidências ainda está em desenvolvimento.
A estratégia da EMS para capturar esse crescimento passa por uma plataforma de peptídeos que já recebeu mais de R$ 1 bilhão em investimentos. Segundo o executivo, a fábrica da companhia em Hortolândia (SP) tem capacidade inicial para produzir entre 600 mil e 700 mil canetas por mês, com potencial de expansão para mais de 1,2 milhão de unidades mensais.
Apesar da chegada de novos concorrentes, Sanchez avalia que a prioridade do setor não deve ser uma guerra de preços entre fabricantes.
"Nosso principal foco é trazer o mercado informal para dentro da farmácia. Esse é o principal concorrente hoje", afirmou. “Existe espaço para todos os players. O desafio é fazer com que o paciente esteja dentro de uma jornada segura de tratamento, com acompanhamento médico e produtos regulados".
