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InvestMercados
09/06/2026
5 min

Riachuelo vê faltar peças PP e reduz modelagem com avanço das canetas emagrecedoras

Riachuelo vê faltar peças PP e reduz modelagem com avanço das canetas emagrecedoras

Os medicamentos à base de GLP-1, conhecidos popularmente como canetas emagrecedoras, ainda estão longe de alcançar a maior parte da população brasileira. Mas os efeitos da nova classe de tratamentos já começam a aparecer em diferentes setores da economia desde os alimentos e bebidas, mas também na moda.

Durante evento realizado pela rede farmacêutica Pague Menos e o Itaú BBA nesta terça-feira, 9, executivos de grandes empresas relataram mudanças concretas no comportamento dos consumidores associadas à busca por saúde, emagrecimento e bem-estar. Entre eles, Cathyelle Schroeder, CMO da Riachuelo, que disse que a empresa já observa impactos relevantes na demanda por tamanhos de roupas.

"Hoje já vemos impactos e resultados. Quando olhamos para nosso portfólio, em média 5% da nossa grade  [modelagem] caiu. Quando pensamos do PP ao GG, já temos essa diferença. Em grades mais do dia a dia, como camisetas, também reduzimos em média 4% os tamanhos", afirmou.

De acordo Schroeder, o avanço das canetas emagrecedoras já provoca mudanças na operação da companhia. "Começa a faltar nas araras PP e P e sobrar GG e G, um fato que não acontecia há pouquíssimo tempo atrás", disse a executiva.

Embora a Riachuelo ainda trate o fenômeno como uma tendência em observação, a empresa vê sinais consistentes de mudança. A CMO da varejista cita projeções do setor que apontam para uma redução de quase 6% do mercado de moda plus size em 2026, após anos de expansão.

A executiva destacou que a varejista acompanha o tema com cautela porque oacesso aos medicamentos ainda está concentrado em uma parcela mais restrita da população. Mesmo assim, os efeitos já aparecem em algumas regiões e perfis de consumidores.

"Tem muito estudo ainda para ser feito, muitas hipóteses, mas a gente já vê na prática quebras de grades nossas, principalmente pelo PP, que era um tamanho bem menos vendido do que a gente vende agora."

Atualmente, segundo dados da NielsenIQ (NIQ), empresa de pesquisa e inteligência do consumidor, 4,6% dos lares brasileiros fazem de medicamentos injetáveis à base de GLP-1. A título de comparação, no ano passado, em mercados consolidados como Estados Unidos e Canadá, esse percentual foi de 12% e 15%, respectivamente.

Ainda assim, a CMO da Riachuelo também aponta que a renovação do guarda-roupa surge como um dos efeitos indiretos mais relevantes da popularização dos tratamentos. A executiva menciona que cerca de 80% das pessoas que perdem peso de forma significativa afirmam precisar comprar roupas novas. Dessas, 55% já realizaram alguma compra para atualizar o guarda-roupa.

Ao mesmo tempo, Schroeder ressaltou que o fenômeno se conecta a uma transformação mais ampla iniciada após a pandemia, marcada pela valorização da saúde, do esporte e de hábitos considerados mais saudáveis. "A categoria de athleisure ganhou muito protagonismo. O esporte passou a fazer parte do lifestyle das pessoas com muito mais força", afirmou.

Menos álcool, mas bebidas mais premium

A transformação também está sendo observada pela indústria de bebidas. Brunna Wruck, diretora de Consumer and Market Insights da Heineken Brasil, afirmou que o GLP-1 é apenas um dos elementos de uma tendência maior de busca por saudabilidade que vem ganhando força desde a pandemia.

"Do ponto de vista da Heineken, o que temos visto é que o consumidor busca beber menos, mas beber melhor", disse. Segundo a executiva, a mudança favorece o segmento premium de cervejas, principal aposta estratégica da companhia.

"O consumidor, quando for beber uma cerveja, vai buscar algo de mais qualidade. Em vez de consumir uma quantidade maior de uma cerveja mais barata, ele procura uma cerveja com melhores ingredientes e maior qualidade."

Nesse contexto, a empresa também aposta no crescimento de categorias alinhadas ao discurso de saúde e bem-estar, como cervejas sem álcool, sem glúten, com menos calorias e menor teor alcoólico. A executiva citou ainda a expansão da cerveja zero álcool, impulsionada pela redução do estigma em torno desse consumo.

"Estamos trabalhando nessa quebra de estigma para que a pessoa se sinta confortável de tomar uma cerveja zero e não se sentir julgada por isso."

Proteína vira protagonista

Na indústria de alimentos, a leitura é semelhante. Mariana Lemos, head de marketing da Nestlé, afirmou que os medicamentos aceleram uma mudança de comportamento que já vinha sendo observada desde a pandemia. "Os medicamentos vieram para ficar. Estão revolucionando e acelerando uma mudança do comportamento do consumidor que já vinha acontecendo".

Segundo Lemos, o interesse crescente por saúde, imunidade, envelhecimento saudável e longevidade impulsiona a demanda por alimentos funcionais, área em que a companhia tem concentrado investimentos.

A proteína aparece como principal exemplo dessa transformação. "Proteína sempre esteve ligada a esporte e performance. Hoje ela está inserida diariamente no cardápio de muitos consumidores."

Dados apresentados pela executiva mostram que 71% dos consumidores já incluem algum alimento proteico diariamente na alimentação.

A estratégia da Nestlé passa por adaptar produtos para diferentes perfis de consumidores. Jovens associam proteína à performance e energia; adultos buscam equilíbrio na rotina; enquanto consumidores mais maduros relacionam o nutriente à vitalidade, autonomia e longevidade.

Produtos saudáveis vendem mais — mesmo custando mais

Gabriel Fagundes, Head of Industry Insights Brazil da NielsenIQ, também afirmou durante o painel que produtos com atributos ligados à saudabilidade apresentam desempenho superior no varejo.

Segundo Fagundes, entre os principais lançamentos do último ano, itens associados a proteínas, menos açúcar, menos calorias ou menos álcool vendem, em média, 50% mais do que produtos sem esses atributos. "Eles performam 50% melhor do que lançamentos que não têm esse tipo de claim", afirmou.

Além disso, os consumidores estão dispostos a pagar mais por esses produtos. De acordo com o executivo da Nielsen, esses itens chegam ao mercado custando, em média, R$ 5 acima da média das respectivas categorias. "O mercado está reagindo a essa necessidade de buscar melhores atributos, principalmente os relacionados a menos açúcar, menos calorias e proteína."

AutorClara Assunção
FonteExame
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