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NegóciosMPOL
09/06/2026
8 min

Shopping, porto, ginásio e parques: ele está apostando tudo para revitalizar a orla de Porto Alegre

Shopping, porto, ginásio e parques: ele está apostando tudo para revitalizar a orla de Porto Alegre

“O porto-alegrense diz que tem o pôr do sol mais lindo do mundo, mas não o enxergava por estar de costas para o Guaíba”, afirma o empresário Fernando Tornaim sobre a relação do gaúcho com o lago que banha a capital do Rio Grande do Sul.

Com a enchente que atingiu Porto Alegre maio de 2024, pairou a dúvida se o progresso alcançado nesta região da cidade seria perdido. Meses depois da tragédia, a região ainda tinha marcas da enchente gravada em paredes. Algumas obras públicas ainda seguem em andamento, porém espaços privados da orla de Porto Alegre já voltaram com tudo.

Um deles é o Cais Embarcadero, empreendimento que ocupa parte da antiga área portuária de Porto Alegre. A operação, que tem 50 lojas e restaurantes, tem como empreendedores a DC Set e a Tornak Holding, empresa de Fernando Tornaim. Após a enchente, o espaço foi reconstruído e transformado em um novo eixo de convivência, turismo e negócios em Porto Alegre.

A Tornak Holding foi criada em 2012 para investir em participações nos setores de comunicação, imobiliário, varejo, digital e arenas. Hoje, a empresa concentra os empreendimentos mais relevantes ligados ao Guaíba. O "Eixo Guaíba" se transformou no principal destino de entretenimento, convivência, consumo e turimo da capital Gaúcha. E isso não aconteceu por acaso.

“Não foi uma decisão baseada apenas em um ativo imobiliário. A gente olha para lugares que têm potencial de transformação para a cidade e que podem gerar uma experiência diferente para as pessoas”, afirma Tornaim.

Hoje, a Tornak participa de 28 negócios. Além do Cais Embarcadero, a holding tem participação no Grupo RBS, no Pontal Shopping, no Viva Open Mall, no Globo Experience (com o Grupo Globo), no Ginásio Gigantinho (do clube Internacional), dentre outros.

Além da gestão exclusiva na relação com marcas e patrocinadores em outros empreendimentos, como no Parque Harmonia (onde acontece o Acampamento Farroupilha), o Estádios Beira-Rio e a Arena do Grêmio.

Dos 28 negócios, 9 deles estão no eixo do Guaíba.

Shopping Pontal: empreendimento às margens do Guaíba foi a mais recente aquisição da holding (Tornak Holding/Divulgação)

Aposta em uma área que foi destruída

A tese da orla não surgiu apenas de uma oportunidade imobiliária. Ela está ligada à forma como Tornaim enxerga o futuro do consumo e das cidades. Para o empresário, a digitalização acelerou a busca por experiências presenciais, convivência e espaços capazes de reunir pessoas.

“As pessoas vão querer cada vez mais viver experiências, estar com a família, com os amigos. Existe um efeito rebote dessa vida cada vez mais dentro das telas”.

Esse conceito aparece em diferentes negócios da Tornak. O Cais Embarcadero, por exemplo, foi criado para ir além de um polo gastronômico. O espaço reúne restaurantes, eventos culturais, áreas para famílias, pets e acesso náutico, transformando uma área histórica do porto em um ponto de encontro da cidade.

Um antigo espaço portuário ganhou nova vida: o Cais Embarcadero virou ponto de encontro com gastronomia, eventos e lazer às margens do Guaíba (Tornak Holding/Divulgação)

Desde que a Tornak e a DC Set assumiram o Embarcadero, já investiram R$ 25 milhões em melhorias no local. Depois que a área foi atingida pela enchente, ficou impedida de operar por mais de 200 dias — mas voltou com uma estrutura renovada.

“Quando um povo sofre como sofreu, começam a despertar valores e sentimentos de resiliência e união. A mobilização para fazer acontecer foi muito grande”, afirma Tornaim.

O resultado foi uma retomada rápida. O espaço passou a receber mais público do que antes da enchente e se consolidou como destino turístico. Em alguns meses, 20% dos frequentadores vêm de fora do Rio Grande do Sul. Antes, era um público que ia ao Estado apenas para visitar a Serra Gaúcha.

Para Tornaim, essa mudança ajuda a alterar a própria relação dos moradores com a capital gaúcha. “Porto Alegre tinha um potencial gigantesco. A gente brinca que o gaúcho sempre fala do pôr do sol, mas a cidade estava de costas para o Guaíba.”

Como Tornaim construiu sua trajetória empresarial

Antes de administrar uma holding com participação em dezenas de negócios, Tornaim começou empreendendo em uma área completamente diferente. Aos 18 anos, criou a Kzuka, revista voltada ao público jovem que nasceu no Rio Grande do Sul e cresceu como uma plataforma de comunicação com eventos, rádio, televisão e relacionamento com marcas. 

O início do negócio ocorreu de forma artesanal. Em casa, Tornaim apurava e escrevia as reportagens, cuidava da distribuição, negociava publicidade e acompanhava a impressão.

“Eu comecei sozinho. Eu fazia as matérias, distribuía os jornais, mandava editar. Eu era a empresa”, lembra.

A proposta era criar um canal que aproximasse jovens, marcas e cultura. Na época, ainda não havia redes sociais e havia poucos veículos dedicados a esse público. O negócio cresceu rapidamente. A plataforma Kzuka e seus veículos chegaram a diferentes estados e teve centenas de funcionários. Em 2005, o Grupo RBS, maior conglomerado de media do Sul do país, adquiriu a empresa.

A venda marcou uma nova fase para Tornaim. Ele permaneceu como sócio  e passou a atuar  também como executivo do grupo, experiência que ajudou a estruturar sua visão empresarial.

“Eu aprendi que existe um equilíbrio entre a vida empreendedora, que acredita no feeling e na capacidade de mobilização, e o método, que também é fundamental para fazer um negócio crescer”, afirma.

Em 2012, criou a Tornak, com um modelo baseado em participações. Dez anos depois, Tornaim participou da reorganização societária do Grupo RBSe tornou-se sócio da empresa que adquiriu seu primeiro negócio. Tornaim se juntou à família Sirotsky, fundadores da empresa. Após a reestruturação, Nelson Sirotsky retornou como presidente do Conselho e Tornaim ficou na Vice- Presidência.

A última aquisição da Tornak foi o Pontal Shopping, comprado em sociedade com a Phorbis Empreendimentos Imobiliários. Inaugurado em 2023, o complexo reúne varejo, gastronomia, eventos, hotelaria e áreas verdes às margens do Guaíba.

O empreendimento recebeu mais de R$ 300 milhões em investimentos para sua construção. Phorbis e Tornak já são empreendedoras do Viva Open Mall, outro shopping da cidade.

De parques a estádios

Com a concessionária Gam3 Parks, a Tornak é parceira exclusiva na gestão e comercialização no trecho 1 da orla do Guaíba e no Parque Harmonia, em Porto Alegre. O acordo inclui a exploração de publicidade, patrocínios e ativações de marcas. O espaço inclui também o Acampamento Farroupilha, evento que celebra a cultura do gaúcho e que reuniu mais de 2 milhões de pessoas em sua última edição.

Depois de décadas de distância, o Guaíba voltou ao radar: a orla virou uma das principais apostas da Tornak

No estádio Beira-Rio, do Internacional, a Tornak participa de forma exclusiva da exploração comercial em parceria com a empresa Brio. O modelo também se estende à Arena do Grêmio.

Já a revitalização do ginásio Gigantinho é conduzida pela Tornak em sociedade com o Internacional e a RBS Ventures. O investimento é de R$ 15 milhões, aplicado em melhorias para transformar o antigo ginásio em uma arena capaz de receber shows, eventos corporativos e competições esportivas.

Construído em 1973, o Gigantinho perdeu relevância ao longo dos anos e passou a operar com limitações. A reforma busca devolver ao Rio Grande do Sul um espaço para grandes eventos esportivos, shows e encontros corporativos.

A expectativa é que o novo Gigantinho seja entregue ainda em 2026. Um dos desafios é adaptar o local para diferentes usos.

“Receber um show e receber um evento esportivo são duas coisas completamente diferentes. Tem o piso, os vestiários, a estrutura para imprensa. Tudo isso precisa ser pensado”, explica.

Um símbolo dos grandes eventos gaúchos será renovado: o Gigantinho deve voltar ao calendário de shows e competições em 2026 (Tornak Holding/Divulgação)

A lógica, segundo Tornaim, é transformar os estádios em espaços de experiência além dos dias de jogo.

“O jogo dura duas horas, mas a experiência pode durar seis. As pessoas querem estar ali, interagir, viver aquele momento.”

Segue a aposta na Orla

Quando questionado sobre novos investimentos na Usina do Gasômetro e no Cais Mauá, outros símbolos de Porto Alegre na orla do Guaíba, Tornaim afirma que pode vir a analisar dependendo das condições e dos editais.

A Usina do Gasômetro apresenta uma estrutura imponente que aparece em materiais usados para divulgar a capital gaúcha e foi reformada pela prefeitura, que pretende repassar o espaço para a iniciativa privada através de uma parceria público-privada (PPP).

Para Tornaim, a transformação da orla depende de um movimento coletivo entre poder público e iniciativa privada. Mas ele vê avanços claros na relação da cidade com o rio.

“Quando a gente consegue virar Porto Alegre para a orla, isso ressignifica a autoestima do gaúcho com a sua capital. Isso ajuda a movimentar a economia, manter e atrair talentos, eventos e negócios. Todos porto- alegrenses, gaúchos e turistas voltaram a se encontrar e se integrar ao Guaíba”

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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