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09/06/2026
5 min

Steve Jobs não planejou, mas iPhone pode ter sido o maior anticoncepcional da história

Steve Jobs não planejou, mas iPhone pode ter sido o maior anticoncepcional da história

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Lançado em junho de 2007 por Steve Jobs em uma convenção em São Francisco, o iPhone entrou para a história como o aparelho que reinventou a comunicação.

Agora, um estudo do National Bureau of Economic Research (NBER) acrescenta uma camada inesperada a esse legado: o smartphone da Apple pode ter sido responsável por 33% a 52% do declínio na taxa geral de fecundidade dos Estados Unidos entre 2007 e 2011.

O estudo "Is the iPhone Birth Control?", assinado por Caitlin K. Myers e Ezekiel Hooper, do Middlebury College, publicado neste mês, é o primeiro a identificar um efeito causal (e não apenas correlacional) entre a difusão do smartphone e o colapso da natalidade americana após 2007.

O experimento natural da AT&T

A taxa geral de fecundidade dos Estados Unidos, que leva em conta os nascimentos anuais por mil mulheres entre 15 e 44 anos, ficou estável entre 65 e 70 ao longo de toda a década de 1980 até 2007.

Naquele ano, começou uma queda que não parou: em 2024, o índice havia recuado para 54, uma contração de 22% em 17 anos.

Nenhuma das explicações convencionais — recessão econômica, custo de moradia, acesso a anticoncepcionais — conseguiu dar conta da amplitude e da persistência do fenômeno.

Myers e Hooper usaram uma peculiaridade do lançamento do iPhone para isolar o efeito do aparelho.

De junho de 2007 a fevereiro de 2011, o dispositivo da Apple só era vendido nos Estados Unidos por meio da operadora AT&T, sob contrato de exclusividade de cinco anos.

Isso significa que a exposição de um condado ao iPhone dependia diretamente da cobertura de rede 3G da AT&T naquele território, e essa cobertura variava enormemente no país. Em Dakota do Sul, toda a população estava coberta. Em Montana, nenhuma.

A estratégia das pesquisadoras foi comparar condados com cobertura quase total da AT&T — onde mais de 90% da população vivia em área coberta — com condados sem acesso, onde menos de 10% da população estava na área de cobertura da operadora.

O resultado, estimado por dois métodos estatísticos distintos, foi que o iPhone reduziu as taxas de natalidade em 4,5% a 8% entre jovens de 15 a 19 anos e em 3,2% a 6,6% entre os que tinham de 20 a 24 anos.

Menos encontros, menos filhos

O estudo aponta três canais pelos quais o aparelho pode ter operado esse efeito.

O primeiro é o deslocamento das interações presenciais.

Dados da American Time Use Survey (ATUS) mostram que o tempo diário que jovens de 15 a 19 anos passavam na presença de amigos caiu de 141 minutos para 43 minutos entre 2003 e 2024, uma redução de 69%. Na faixa de 20 a 24 anos, a queda foi de 107 para 49 minutos.

O segundo canal é o aumento do acesso à pornografia, que funcionaria como substituto do sexo com parceiro, segundo o estudo.

O índice do Google Trends para a busca "porn" mais que dobrou entre 2007 e 2011, passando de 40 para 86 na escala normalizada da plataforma.

A parcela de respondentes do General Social Survey (GSS) com idades entre 30 e 34 anos que relatou ter assistido a filmes de conteúdo adulto no último ano subiu 22 pontos percentuais entre 2000 e 2018.

O terceiro mecanismo seria o acesso facilitado a informações sobre anticoncepção, que teria aumentado o uso de métodos contraceptivos condicionalmente à ocorrência de relações sexuais.

Os três caminhos convergem para o mesmo resultado final: menos sexo desprotegido.

Dados do National Survey of Family Growth (NSFG) mostram que a proporção de mulheres de 25 a 29 anos que relatou ter tido relações sexuais desprotegidas no último mês caiu 27% entre 2002 e o ciclo 2017–2019.

33% a 52% da queda geral

De uma queda observada de 6,2 nascimentos por mil mulheres entre 2007 e 2011, entre 2,1 e 3,2 são atribuídos ao iPhone, a depender do método econométrico utilizado.

O efeito não foi uniforme por raça. Entre mulheres brancas, a queda estimada foi de 4,2%; entre hispânicas, de 4,9%.

Entre mulheres negras, o efeito foi estatisticamente nulo, resultado que as autoras atribuem a possíveis diferenças na adoção do iPhone em relação ao Android e a dinâmicas específicas de fecundidade anteriores a 2007 que o método pode não neutralizar completamente nesse subgrupo.

O efeito também foi distinto por faixa etária. Enquanto os nascimentos caíram com mais força entre jovens até 24 anos, entre mulheres acima de 30 o iPhone não acelerou a queda — suprimiu um crescimento que, sem o aparelho, teria sido mais acentuado.

A taxa de nascimentos entre mulheres de 30 a 34 anos subiu 0,7% entre 2007 e 2011, mas o modelo estima que, sem o iPhone, teria subido entre 3,6% e 4,3%.

O que a política não resolve

A conclusão das pesquisadoras tem implicações diretas para o debate sobre políticas pró-natalidade, que mobilizou governos em todo o mundo — da Coreia do Sul, que gastou cerca de US$ 270 bilhões em programas desde 2006, ao governo Trump, cujos membros descreveram o declínio da fecundidade como "um dos problemas de longo prazo mais urgentes do país".

Os instrumentos tradicionais (transferências de renda, créditos fiscais, licença parental, creches subsidiadas) atuam sobre o custo de criar filhos.

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O que os dados mostram, segundo o estudo, é que o problema está anterior a essa decisão: as relações e a atividade sexual que geram filhos simplesmente estão ocorrendo com menos frequência. Nenhum benefício financeiro altera esse mecanismo.

O estudo não afirma que o iPhone é a única causa da queda da fecundidade americana. Mas, para o período em que a evidência causal é mais sólida — de 2008 a 2011 —, os dados sugerem que o aparelho lançado por Jobs mudou não apenas a forma como americanos se comunicam, mas quantos filhos eles têm.

AutorTamires Vitorio
FonteExame
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