Tesouro supera taxas da crise na era Dilma: o que isso diz sobre o Brasil

Os títulos públicos brasileiros estão pagando algumas das maiores remunerações da última década. Em determinados vencimentos, papéis atrelados à inflação já oferecem retornos superiores ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) mais 8% ao ano, nível que não era registrado desde 2015 e 2016, durante o segundo governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).
Naquele período, os títulos chegaram a pagar pouco mais de IPCA + 7% ao ano, refletindo a desconfiança dos investidores com o fiscal. Nesta segunda-feira, 8, o rendimento anual do Tesouro IPCA+ com vencimento em 2032 chegou a mais 8,36%.
À primeira vista, a situação parece representar uma oportunidade rara para investidores. Afinal, são poucos os momentos em que o governo brasileiro oferece uma remuneração tão elevada para captar recursos. Mas, para analistas e gestores, a disparada das taxas revela algo mais profundo: o mercado está cobrando um prêmio cada vez maior para financiar o país.
O movimento ocorre em meio à piora das expectativas para inflação, revisões para cima na trajetória da taxa básica de juros, a Selic, incertezas fiscais e um ambiente internacional mais turbulento. A combinação desses fatores provocou uma forte abertura da curva de juros, levou investidores a exigirem retornos maiores e fez até mesmo o Tesouro Nacional enfrentar dificuldades para vender títulos.
Mais do que uma questão de rentabilidade da renda fixa, o avanço das taxas mais uma vez se tornou um termômetro da percepção de risco sobre a economia brasileira.
O que explica a disparada dos juros?
A alta recente dos rendimentos dos títulos públicos não tem uma única causa. Segundo especialistas ouvidos pela EXAME, o movimento resulta da combinação entre fatores domésticos e externos.
De um lado, o mercado revisou para cima suas projeções para inflação e juros. O mais recente Boletim Focus mostrou a 13ª semana consecutiva de alta nas expectativas para o IPCA, enquanto os economistas passaram a projetar uma Selic de 13,50% ao final de 2026, acima da estimativa anterior de 13,25%.
Do outro, aumentaram as preocupações com a trajetória fiscal do país e com os impactos do cenário geopolítico internacional, especialmente após a escalada dastensões envolvendo Estados Unidos e Irã, que elevou os preços do petróleo e reacendeu temores inflacionários.
"O mercado tem exigido uma remuneração maior para financiar o governo em prazos mais longos, especialmente diante das dúvidas sobre a sustentabilidade das contas públicas e a capacidade de estabilização da dívida ao longo dos próximos anos", afirma João Abdouni, analista da EQI Research.
Para Juliana Tomaz, head de crédito da AMW, asset da Warren Investimentos, o estresse atual pode ser explicado por três fatores principais: a piora do cenário geopolítico, a dinâmica fiscal brasileira e os efeitos da própria marcação a mercado.
"O mercado olha para a necessidade do governo de rolar uma dívida crescente em um ambiente de juros elevados e questiona a sustentabilidade dessa equação. Quanto maior a desconfiança, maior o prêmio exigido", afirma.
Ian Lima, gestor de renda fixa da Inter Asset, acrescenta que parte importante do movimento recente está ligada à abertura dos juros nominais e ao aumento da inflação implícita embutida nos preços dos ativos."Quando colocamos em perspectiva, os juros nominais abriram mais do que os juros reais. Isso sinaliza que a inflação implícita desses ativos está bastante elevada", afirma.
Segundo Lima, nos vencimentos mais curtos e intermediários, o impacto recente está mais relacionado ao cenário geopolítico e à reprecificação dos juros nominais, enquanto os riscos fiscais tendem a aparecer com mais intensidade nos vértices mais longos da curva.
Focus piorou, mas mercado já estava lá
Embora o Focus tenha mostrado novas altas para inflação, o gestor de renda fixa da Inter avalia que o efeito prático dessas revisões sobre os preços dos títulos é limitado. De acordo com Lima, o mercado costuma antecipar movimentos que só aparecem posteriormente nas projeções dos economistas.
"O Focus costuma estar atrasado em relação ao mercado. Essa elevação das projeções já estava amplamente precificada pelos ativos", afirma.
Para o gestor, o dado mais relevante para o Banco Central são asexpectativas de inflação mais longas, especialmente para 2028, justamente porque elas servem como referência para medir a credibilidade da política monetária. Nesse caso, ele observa que houve até uma leve melhora recente.
Por isso, na sua avaliação, a sequência de revisões do Focus ajuda a explicar o ambiente de cautela, mas não é o principal fator por trás da forte abertura recente das taxas.
"Esse movimento recente está basicamente relacionado à questão do custo geopolítico dos ativos e à abertura dos juros nominais, que acabou levando, em alguma medida, os juros reais na mesma direção".
Quando juros sobem, os títulos caem
A disparada dos rendimentos dos títulos públicos também ajuda a explicar por que muitos investidores passaram a ver perdas em suas carteiras de renda fixa nas últimas semanas. O motivo é a chamada marcação a mercado. Quando o mercado passa a exigir juros maiores para emprestar ao governo, os títulos antigos, que pagam taxas menores, perdem valor.
"Existe uma relação inversa entre o preço do título e sua taxa de remuneração. Quando as taxas sobem, os preços caem", explica Fernando Felipe, especialista em renda fixa da Veedha Investimentos.
O efeito tem sido especialmente forte nos títulos prefixados e nos papéis indexados à inflação com vencimentos mais longos.
Mas os especialistas destacam que a perda só se concretiza caso o investidor venda o papel antes do vencimento. "Para quem carrega até o vencimento, não tem mistério. O investidor vai receber exatamente o que contratou", afirma a head de crédito da AMW.
Quanto R$ 100 mil podem render o Tesouro
Lima concorda que os preços atuais já se tornaram mais atrativos, mas avalia que ainda é cedo para afirmar que o ajuste terminou. "Estamos em um processo de desmonte de posições e ainda há revisões altistas para a Selic acontecendo. Isso pode fazer esses ativos sofrerem um pouco mais no curto prazo", diz.
Por isso, sua recomendação para quem deseja aumentar exposição é fazer as alocações gradualmente, evitando concentrar todo o investimento de uma só vez.
Com base Tesouro Prefixado 2032, que está pagando 14,86% ao ano, o consultor Fernando Gofferje calcula que o investimento alocado pode dobrar em pouco mais de cinco anos com esse valor de remuneração.
"Em uma simulação com R$ 100 mil, [o investidor] receberia líquido, no vencimento, R$ 94.733,82 de juros. E estamos falando de um título que tem garantia do Tesouro Nacional", afirmou Gofferje.
Mas em umcenário de juros elevados e forte volatilidade, os especialistas alertam que a busca por rentabilidades mais altas exige atenção redobrada aos riscos envolvidos. A recomendação é evitar decisões baseadas apenas na taxa oferecida pelos ativos e avaliar fatores como prazo, liquidez e qualidade do emissor antes de investir.
"Em cenário de instabilidade como o atual, a palavra-chave é parcimônia. Não é o momento de correr atrás da maior taxa sem entender o que está por trás dela", afirma Tomaz. Segundo a head de crédito da AMW, o investidor deve avaliar três pontos antes de qualquer aplicação, desde o risco de crédito do emissor, à liquidez do papel e sua capacidade de suportar a volatilidade dos títulos mais longos.
