Títulos IPCA+, CDBs e pós-fixados: quem ganha com a Selic alta por mais tempo

A disparada das taxas da renda fixa está criando um dilema para investidores. De um lado, títulos públicos voltaram a oferecer remunerações historicamente elevadas, com papéis atrelados à inflação pagando mais de 8% ao ano acima do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). De outro, quem já tinha recursos aplicados em Tesouro IPCA+ e prefixados passou a registrar perdas na marcação a mercado.
Em meio à revisão das expectativas para inflação e taxa básica de juros, a Selic, a questão agora é entender quais ativos tendem a se beneficiar dos juros altos por mais tempo e quais exigem maior cautela.
Isso porque os vencimentos de 2028 e 2029, que concentram a maior parte da pressão recente, registraram alta de até 70 pontos-base nas taxas em apenas uma semana. Nesta segunda-feira, 8, rendimento anual do título Tesouro IPCA+ 2032 passou a ser IPCA + 8,29%, enquanto prefixados se aproximam de retornos de 15% ao ano.
Mas o movimento que parece uma boa notícia para investidores também expõe um aumento da desconfiança dos mercados sobre o cenário econômico brasileiro. Em meio ao novo avanço das taxas do Tesouro Direto, o mais recente Boletim Focus mostrou a 13ª semana consecutiva de alta nas projeções para a inflação. A projeção do IPCA para este ano saiu de 5,09% para 5,11%.
Ao mesmo tempo, os economistas elevaram a expectativa para a Selic ao final de 2026, reforçando a percepção de que o Banco Central poderá manter os juros em níveis elevados por mais tempo. A expectativa agora é que os juros terminem o ano no patamar de 13,50% antes 13,25%.
A mudança provoca uma reprecificação da renda fixa. Na última sexta, 5, o Tesouro Direto chegou a interromper temporariamente as negociações após oscilações consideradas fora do padrão.
Por trás desse movimento está uma combinação de fatores, segundo especialistas em renda fixa consultados pela EXAME. Inflação resistente, dúvidas sobre a trajetória fiscal do governo, tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos e Irã e a perspectiva de juros elevados também nos Estados Unidos.
"O mercado tem exigido uma remuneração maior para financiar o governo em prazos mais longos, especialmente diante das dúvidas sobre a sustentabilidade das contas públicas e a capacidade de estabilização da dívida ao longo dos próximos anos", afirma João Abdouni, analista da EQI Research.
Essa exigência de prêmio maior explica por que o Tesouro IPCA+ 2032 voltou a pagar mais de 8% ao ano, acima da inflação, patamar considerado excepcional em termos históricos.
O paradoxo da renda fixa: taxas melhores, mas perdas na carteira
A disparada dos juros, contudo, trouxe um efeito que tem assustado muitos investidores. Embora os títulos estejam pagando mais para quem entra agora, quem já possuía papéis prefixados ou indexados à inflação está vendo o saldo da carteira diminuir. A razão é a marcação a mercado, como explicam os analistas.
Na prática, quando o mercado passa a exigir juros maiores para emprestar dinheiro ao governo, os títulos antigos perdem valor. "O investidor que aplicou há pouco tempo em Tesouro IPCA+ ou prefixado está vendo uma marcação negativa porque existe uma relação inversa entre o preço do título e a taxa de remuneração", explica Fernando Felipe, especialista em renda fixa da Veedha Investimentos.
Segundo Felipe, o movimento não significa necessariamente prejuízo definitivo. Quem permanecer com o papel até o vencimento continuará recebendo a remuneração contratada na data da compra. Essa é justamente a orientação predominante entre os especialistas, de que apesar dos retornos atuais maiores, não vale a pena se desfazer do papel antes do vencimento contratado.
"Esses ativos vêm sofrendo os efeitos da abertura da curva de juros, mas continuam oferecendo retornos atrativos para quem pretende carregá-los até o vencimento", diz Abdouni.
Quem ganha com a Selic mais alta por mais tempo?
Se existe uma unanimidade entre gestores e analistas, ela está nos pós-fixados. Tesouro Selic, CDBs atrelados ao CDI e fundos DI aparecem como os principais beneficiários do cenário atual. Isso porque esses investimentos acompanham diretamente o comportamento dos juros básicos.
"Os ativos pós-fixados são os únicos que efetivamente se beneficiam de uma Selic mais alta por mais tempo, porque sua rentabilidade acompanha a própria taxa de juros", afirma o especialista da Veedha.
Para Viviane Las Casas, especialista em renda fixa da Valor Investimentos, o momento ainda favorece estratégias mais defensivas. "Quando existe incerteza sobre o comportamento da Selic nos próximos meses, a tendência é que o investidor prefira ativos pós-fixados em vez de assumir o risco de duration dos títulos mais longos", afirma.
A vantagem desses ativos é que o investidor continua capturando juros elevados sem precisar fazer apostas sobre quando o Banco Central voltará a cortar a Selic.
IPCA+ acima de 8% é oportunidade ou sinal de alerta?
O retorno acima de 8% nos títulos indexados à inflação chama atenção porque está muito acima da média observada nos últimos anos. Mas os especialistas ressaltam que taxas tão elevadas não surgem por acaso. Quando o mercado exige mais de 8% ao ano acima da inflação para financiar o governo brasileiro por longos períodos, isso também reflete uma percepção maior de risco.
"Esse prêmio elevado é explicado pela percepção de risco fiscal e pelas incertezas em relação à trajetória da dívida pública brasileira", afirma Abdouni.
"Há apenas três meses o Tesouro IPCA+ 2032 estava próximo de IPCA mais 7,4%. Hoje já se aproxima de IPCA mais 8,3%, uma abertura bastante expressiva e muito acima da média histórica", acrescenta Las Casas.
Para Abdouni, os níveis atuais de juros reais já oferecem uma oportunidade relevante para investidores com horizonte de médio e longo prazo, especialmente nos títulos indexados à inflação. O analista ressalta, porém, que ainda não é possível afirmar que as taxas atingiram o pico, já que a trajetória futura dependerá da evolução da inflação, da política monetária e do cenário fiscal.
"Ninguém consegue afirmar que as taxas atingiram o pico. Elas podem seguir subindo ou cair dependendo da evolução da inflação, da política monetária e do cenário fiscal. Mas, olhando para horizontes de médio prazo, o patamar atual já oferece uma relação de retorno interessante para investidores que buscam ganho real e proteção ao poder de compra", afirma.
O risco escondido está no crédito privado
Se os títulos públicos oferecem uma oportunidade de travar retornos elevados, o crédito privado exige cautela adicional. O motivo é que juros elevados por muito tempo aumentam apressão sobre o caixa das empresas.
"O principal cuidado do investidor neste cenário é com o risco de crédito. Quanto mais tempo a inflação e os juros permanecem elevados, maior fica a pressão financeira sobre as empresas", afirma Felipe.
Segundo o especialista da Veedha, companhias mais endividadas podem enfrentar dificuldades para refinanciar dívidas ou sustentar suas margens. Las Casas também acrescenta que "o ambiente de juros altos penaliza empresas mais alavancadas e com dívida indexada à Selic". "A seleção dos emissores passa a ser ainda mais importante", diz.
Diante desse contexto, especialistas recomendam priorizar emissores de maior qualidade e evitar concentrações excessivas em empresas de setores mais sensíveis ao ciclo econômico.
Juros estão altos, mas parece faltar comprador
Mas mais do que a alta do juros em si, o aspecto mais revelador do momento atual é justamente a dificuldade do Tesouro Direito em vender títulos mesmo oferecendo remunerações historicamente elevadas.
Nas últimas semanas, alguns leilões tiveram demanda abaixo do esperado e o mercado voltou a discutir a possibilidade de novas intervenções do Tesouro Nacional, como ocorreu em março, quando o governo suspendeu leilões e realizou uma recompra recorde de R$ 49 bilhões em títulos.
De acordo com os analistas em renda fixa,o problema não é falta de atratividade, mas sim a falta de confiança. "Taxas altas atraem compradores apenas quando existe confiança de que o governo conseguirá honrar sua dívida em termos reais. Quando há dúvidas sobre a trajetória fiscal, o prêmio de risco passa a pesar mais do que o rendimento nominal", afirma a especialista da Valor Investimentos.
Fernando Felipe complementa que muitos investidores acreditam que os juros ainda podem subir mais. "As pessoas estão exigindo cada vez mais prêmio para correr risco e parte do mercado prefere esperar novas altas antes de comprometer recursos em títulos de prazo longo."
Em outras palavras, o fato de o Tesouro precisar oferecer IPCA+ 8% para captar recursos é, ao mesmo tempo, uma oportunidade para investidores e um sinal de que o mercado está cobrando caro para continuar financiando o governo brasileiro.
