Transição ecológica custa menos que a inação climática no Brasil, revela estudo
Análise do Cebrap e do ClimaInfo mostra que custo anual de manter os modelos atuais de energia e agroalimentar no país pode superar US$ 900 bi por ano e alerta para o risco de "neoextrativismo verde"

Manter os modelos atuais de energia e produção de alimentos no Brasil custa mais caro, ano após ano, do que investir na transformação desses dois setores. É o que revela um novo estudo divulgado nesta quinta-feira, 27, pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) em parceria com o ClimaInfo, ao defender que as agendas sejam tratadas como parte do mesmo problema.
Segundo o levantamento, os custos sistêmicos do modelo agroalimentar atual giram entre US$ 410 bilhões e US$ 526 bilhões por ano, enquanto a transição desse setor exigiria um investimento acumulado de US$ 268 bilhões a US$ 511 bilhões até 2050.
Na prática, entre meio ano e pouco mais de um ano de gastos com o modelo vigente já equivalem, em ordem de grandeza, ao valor total necessário para reestruturar o setor.
No caso da energia, a conta segue lógica parecida, embora em outra escala. Os custos anuais do modelo atual somam entre US$ 300 bilhões e US$ 428 bilhões, enquanto os investimentos necessários até 2050 ficam entre US$ 597 bilhões e US$ 915 bilhões. Isso significa que de um ano e meio a três anos de custos correntes bastariam para cobrir toda a transição energética brasileira.
Essa diferença de escala também tem relação com o peso do setor nas emissões brasileiras. Diferentemente da maioria dos países, onde a energia domina o balanço de carbono, no Brasil a agropecuária e a mudança no uso da terra respondem historicamente pela maior fatia e também representam a maior oportunidade.
É essa centralidade que ajuda a explicar por que o custo da inação no sistema agroalimentar já se aproxima do de energia, mesmo com um investimento de transição proporcionalmente menor.
Os pesquisadores fazem uma ressalva: essa comparação não quer dizer que os investimentos feitos hoje seriam recuperados financeiramente nesses prazos. O que ela demonstra é o tamanho do problema de continuar como está. Os custos de não agir, segundo o estudo, envolvem impactos climáticos, degradação ambiental, prejuízos à saúde pública, vulnerabilidade energética e dependência tecnológica, e tendem a crescer quanto mais a mudança for adiada.
Três caminhos possíveis
O estudo trabalha com três cenários para o futuro da transição brasileira. O primeiro, chamado de Business as Usual, representa a inércia: soluções de baixo carbono ganham espaço, mas de forma pontual, sem mexer nas bases da economia, que continua girando em torno da exportação de commodities e mantendo as mesmas desigualdades e pressões ambientais.
Um segundo caminho toma como referência as metas que o Brasil assumiu no Acordo de Paris. Seguir as NDCs à risca implicaria cortar boa parte das emissões, zerar o desmatamento ilegal até o fim da década e ampliar consideravelmente a geração renovável, mas ainda deixando lacunas na articulação entre os diferentes setores.
O terceiro cenário, batizado de transição justa e sustentável, é o que rompe com essa fragmentação: energia, agro, indústria e meio ambiente passam a operar sob um mesmo planejamento. O resultado seria descarbonizar a economia enquanto se recupera áreas degradadas, se reduz desigualdades e se diversifica a produção, sem precisar avançar sobre novas áreas de vegetação nativa.
A armadilha do rótulo verde
Um dos pontos centrais é o alerta de que trocar atividades poluentes pelas de baixo carbono não garante, por si só, uma transição justa.
Os pesquisadores chamam esse risco de "neoextrativismo verde": a possibilidade de o Brasil manter sua economia concentrada na exportação de produtos primários, agora sob um rótulo verde, com minerais críticos, biocombustíveis e energia renovável ocupando o lugar que hoje pertence a commodities tradicionais.
Nesse cenário, atividades associadas à descarbonização passariam a reproduzir gargalos antigos da economia brasileira, como pressão sobre terras e recursos naturais, concentração dos ganhos econômicos em poucos grupos e baixa agregação de valor às cadeias produtivas.
Para evitar esse caminho, o estudo defende um modelo de transição coordenado entre políticas energéticas, agrícolas, industriais e ambientais, capaz de unir descarbonização, regeneração de ecossistemas e redução de desigualdades.
