Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
Mundo
09/06/2026
4 min

Um recomeço com Pyongyang: por que Xi Jinping está na Coreia do Norte?

Um recomeço com Pyongyang: por que Xi Jinping está na Coreia do Norte?

O presidente chinês, Xi Jinping, pousou na Coreia do Norte nesta segunda, 8, para a primeira visita oficial ao vizinho desde 2019. Os países celebram publicamente uma boa relação diplomática, com os dirigentes descrevendo-a como "forjada em sangue", em referência à Guerra da Coreia, conflito no qual os países se uniram em uma aliança ideológica.

Todavia, nos últimos anos, uma série de fatores amargou os laços: após um lockdown total de três anos e meio durante a pandemia, que viu uma pausa em todo o comércio e na comunicação política com a China, Pyongyang se aproximou cada vez mais de Moscou, oferecendo equipamentos e soldados para os esforços do presidente russo, Vladimir Putin, na Ucrânia em troca de petróleo e de auxílio econômico.

Segundo o think tank Center for Strategic and International Studies (CSIS), esses desenvolvimentos diluíram a influência chinesa sobre seu vizinho, comprometendo um monopólio diplomático que a China aproveitava em Pyongyang, ao mesmo tempo em que as relações com Moscou se aprofundavam. Portanto,a visita é, primeiramente, um esforço para reverter o itinerário das relações entre os países, trazendo Pyongyang novamente à esfera de influência chinesa.

Dados do CSIS revelam uma imagem preocupante para a China: além da falha de comemorar datas simbolicamente importantes, como o aniversário de 75 anos de relações diplomáticas entre os países, entre 2023 e 2025, o líder norte-coreano Kim Jong Un se encontrou com Xi Jinping apenas oito vezes. Em comparação, o dirigente da Coreia do Norte se encontrou com Putin 25 vezes.

Além disso, Pequim também age com cautela quanto às ambições nucleares norte-coreanas, um tema sensível no debate internacional. Se opor publicamente às armas poderia afastar ainda mais Pyongyang da esfera chinesa — por outro lado, um endosso oficial chinês nesse âmbito pode fortalecer a presença americana na região e, no pior dos casos, desencadear uma resposta militar trilateral dos EUA, do Japão e da Coreia do Sul, apura o jornal britânico BBC.

Um recomeço diplomático

Líder supremo norte-coreano, Kim Jong Un, manobra entre dois vizinhos poderosos enquanto busca manter a filosofia de autossuficiência de seu país (AFP)

Nesse contexto, a visita representa um esforço da China para aprofundar as relações e recomeçar os laços bilaterais entre Pyongyang e Pequim, a fim de tirar Pyongyang da órbita de Moscou. Ao pousar na capital norte-coreana, Xi disse que busca aprofundar "a coordenação e a cooperação estratégica" com o vizinho, e que ambos os lados deveriam cultivar um "momentum poderoso" nas relações, após uma recepção glamorosa com tapete vermelho e a presença da guarda de honra norte-coreana.

Da mesma forma que Xi não pode abrir mão de Pyongyang por questões diplomáticas, Kim também não pode perder laços com Pequim —  de acordo com o CSIS, a China é facilmente o maior parceiro comercial do país, representando mais de 90% de todo o comércio internacional da Coreia do Norte, com cerca de US$ 2,3 bilhões no ano passado, o maior nível em seis anos, no que analistas consideram uma medida para atrair o país para mais perto da China, e mais longe da Rússia.

Assim, a estratégia de Pyongyang, segundo o think tank, baseia-se em laços comerciais com a China e em tratados de defesa com a Rússia:

"A Coreia do Norte precisa administrar a complexa relação com seus dois maiores vizinhos e tentar explorar quaisquer divergências em seu próprio benefício. Embora Kim tenha se beneficiado enormemente de uma Moscou disposta a ceder tecnologias e armamentos de defesa cruciais, a dependência excessiva é perigosa para um regime que se orgulha notoriamente de sua autossuficiência", diz um artigo do CSIS que analisa a relação entre os países, realçando a filosofia de autossuficiência, ou juche, sobre a qual a Coreia do Norte opera desde sua fundação.

Em outras palavras, a visita ocorre em um tênue equilíbrio diplomático. Para a China, a Coreia do Norte é um valioso aliado ideológico contra a influência do Ocidente e um solo fértil para a propagação da influência chinesa na Ásia — por outro lado, as ambições nucleares de Kim Jong-Un são um fator que desestabiliza a região e pode comprometer a postura chinesa de aliança com Pyongyang.

Por sua vez, a Coreia do Norte busca operar entre dois extremos, aproveitando os benefícios que conseguir de seus poderosos vizinhos sem cair totalmente sob o controle de nenhum deles. Assim como em muitas outras relações diplomáticas, ambos se encontram em uma posição de necessidade mútua, mas tomam cuidado para não priorizar os laços sobre seus próprios interesses nacionais.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
Distribuído por