2,8 bilhões de habitantes: a agenda de Xi Jinping na primeira visita à Índia em 7 anos
Reaproximação cautelosa dos países surge após quase uma década de tensões e baixas relações diplomáticas, e tem como foco questoes fronteiriças e econômicas

Após dois anos de uma cautelosa reaproximação, China e Índia se encaminham para um novo teste diplomático, com a possibilidade de transformar uma trégua administrada em uma relação baseada em maior diálogo e cooperação.O presidente chinês, Xi Jinping, e o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, devem se encontrar na próxima semana durante a cúpula da Organização para Cooperação de Xangai (OCX), em Bishkek, no Quirguistão.
O encontro deve ser breve e cuidadosamente organizado à margem das reuniões marcadas para os dias 31 de agosto e 1º de setembro. O principal momento, porém, está previsto para ocorrer em Nova Délhi, durante a cúpula do Brics — Xi é esperado na Índia entre 12 e 13 de setembro, o que deverá ser sua primeira visita ao país em sete anos.
Segundo fontes ouvidas pelo South China Morning Post, jornal de Hong Kong, Pequim prepara uma delegação de cerca de 400 pessoas para a viagem.
O jornal avalia que a disputa pela fronteira no Himalaia deverá estar entre os principais temas da conversa, ao lado de comércio, investimentos e relações entre as populações, incluindo a retomada e flexibilização de vistos.
As discussões também abordaram a possibilidade de avançar na delimitação da fronteira, embora não haja expectativa de um acordo definitivo. O objetivo mais imediato seria melhorar os mecanismos de gestão territorial e ampliar a cooperação nas regiões fronteiriças.
Os preparativos ganharam força nesta semana, quando o chanceler chinês, Wang Yi, e o assessor de Segurança Nacional da Índia, Ajit Doval, realizaram a 25ª rodada de negociações sobre a fronteira. Os dois países classificaram o diálogo como importante para preservar a distensão.
Doval afirmou que a retomada da normalidade nas relações é resultado direto da manutenção da paz e da tranquilidade nas áreas fronteiriças. Pequim, por sua vez, defendeu que a questão territorial fosse colocada em seu devido lugar no relacionamento bilateral.
Economia e reaproximação
A agenda econômica pode oferecer resultados mais concretos. Novas regras indianas permitem que investidores de países que compartilham fronteira terrestre com a Índia, incluindo a China, adquiram participações de até 10% em empresas sem aprovação governamental, exceto em setores restritos.
Um encontro entre Xi e Modi poderia dar impulso ao comércio e aos investimentos e, ao mesmo tempo, enfrentar o grande déficit comercial da Índia com a China. Os dois países também já retomaram voos diretos e vistos para turistas, embora outras questões permaneçam pendentes.
A volta de jornalistas chineses à Índia está entre os principais pontos ainda em negociação. Nova Délhi também tem adotado uma postura mais cautelosa em relação aos vistos, com a expectativa de que qualquer flexibilização seja controlada e baseada na reciprocidade.
Analistas, contudo, recomendam cautela quanto à possibilidade de grandes avanços. Especialistas ouvidos pelo South China Morning Post avaliam que um acordo abrangente sobre a fronteira permanece improvável e que o objetivo mais realista é consolidar a estabilidade e criar novos canais de cooperação.
A reaproximação ocorre após a crise provocada pelo confronto no vale de Galwan, em 2020, que deixou pelo menos 20 soldados indianos mortos. A China afirmou que quatro de seus militares morreram no episódio, que desencadeou anos de tensão militar e diplomática.
Desde outubro de 2024, quando os dois países chegaram a um entendimento para retomar patrulhas em partes da fronteira disputada, a relação entrou em uma fase de distensão gradual. A retomada dos intercâmbios e da peregrinação indiana ao Tibete também ajudou a reduzir as tensões.
Para a Índia, uma relação mais estável com a China pode garantir cadeias de fornecimento, fortalecer a estratégia de manufatura doméstica e ampliar sua margem de negociação com os Estados Unidos. Para Pequim, o diálogo com Nova Délhi pode dificultar os esforços americanos para conter a influência chinesa na região.
Apesar dos incentivos à reaproximação, ambos os governos devem buscar maximizar seus ganhos e limitar concessões. O encontro entre Xi e Modi, portanto, deve representar menos uma tentativa de grande acordo e mais um esforço para transformar a atual trégua em uma relação bilateral mais estável e previsível, segundo a análise do South China Morning Post.
