7 coisas que você precisa saber antes de comprar ações na baixa
Queda de 14% do Ibovespa em dois dias é convite às compras, mas é preciso atenção

O Ibovespa voltou a cair nesta terça-feira, 27, e fechou em baixa de 0,51%, aos 175.710 pontos. Com isso, o índice acumula queda de 14,3% em dois dias desde a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O dólar recuou 0,97%, a R$ 5,35, depois de subir 8,21% na segunda-feira, a maior alta diária desde 1999.
Na segunda-feira, 26, primeiro pregão após o fim das eleições de 2026, o benchmark chegou a cair mais de 17% e fechou com tombo de 13,88%. O índice perdeu R$ 734 bilhões em valor de mercado, quase uma Petrobras (PETR4) inteira, e apagou 75% dos ganhos de 2026. O Tesouro prefixado beirou os 16%, e os títulos indexados ao IPCA romperam a barreira dos 8% acima da inflação.
Com tantas ações em baixa, a tentação de ir às compras é grande, mas os especialistas pedem cuidado. Para Marcos Bassani, da Boa Brasil Capital, os investidores ainda digerem as perdas da véspera, e sinais de compromisso fiscal, além das indicações para os ministérios e para o STF, podem reduzir a incerteza. "O nome da vez é cautela", resume.
Por que a Bolsa caiu tanto?
A queda reflete expectativas frustradas. O mercado apostava em outro resultado nas urnas, e plataformas de previsão, como a Polymarket, registravam 80% de chance de Flávio Bolsonaro (PL) ganhar as eleições. Lula terminou com 51,79%, somando 64.256.232 votos válidos, enquanto Flávio registrou 48,21%, ou 59.826.041 votos.
O que preocupa os investidores é o desafio fiscal e a trajetória dos juros. Em agosto, a dívida pública chegou a R$ 11,1 trilhões, equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB). Nos 12 meses até agosto, os juros do setor público somaram R$ 1,18 trilhão. Além disso, cerca de 92% das despesas primárias previstas no projeto de Orçamento de 2027 são obrigatórias, o que limita o espaço para o governo decidir onde gastar.
O reajuste do salário mínimo de R$ 1.621 para R$ 1.741, por exemplo, pode afetar significativamente o orçamento. Uma nota técnica do Congresso elaborada para o Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) de 2027 estimou que apenas o ganho real do piso poderia ter um impacto de cerca de R$ 15,6 bilhões nas contas públicas, considerando os parâmetros utilizados naquele momento, informou Natalie Verndl, professora da FEA-USP.
Diante desse quadro, Lula defende um ajuste gradual, com manutenção do arcabouço fiscal. A trajetória apresentada prevê a passagem de um déficit primário de 0,4% do PIB em 2026 para um superávit de 1,3% em 2030. O mercado, porém, tem dúvidas e, enquanto elas persistirem, a tendência é que os investidores sigam receosos.
É hora de comprar?
A Nero Capital olhou para o derretimento da Bolsa e decidiu não ir às compras. Para Daniel Utsch, gestor de ações da casa, a queda que se seguiu à reeleição de Lula foi proporcional ao tamanho da surpresa nas urnas, e não um exagero que abra espaço para pechinchas.
"A gente, pelo menos por ora, não viu essa queda como oportunidade ainda, porque o cenário é muito incerto", diz Utsch. "Não conseguimos olhar e falar que, com papéis caindo 30%, 40%, é hora de zerar o caixa comprando ações."
Já Sidney Lima, analista da Ouro Investimentos, diz que pode ser uma oportunidade, mas é preciso cautela. “Seria um erro concluir que todas as ações ficaram baratas. Uma empresa pode perder muito valor na Bolsa e continuar cara, principalmente se estiver endividada ou com perspectivas de lucro comprometidas”, afirma.
Segundo ele, há possibilidade de recuperação, inclusive no curto prazo, porque movimentos tão intensos costumam provocar ajustes excessivos de preços. Gustavo Assis, CEO da Asset, concorda que toda crise pode gerar boas oportunidades, mas ressalta que uma ação que caiu muito não está necessariamente barata.
“Empresas sólidas, lucrativas e pouco endividadas podem representar boas oportunidades de longo prazo. Entretanto, a Bolsa ainda pode cair mais, dependendo das perspectivas fiscais, dos juros e da confiança dos investidores. O ideal é não tentar acertar o fundo do mercado, mas realizar compras graduais, com disciplina e diversificação”, diz.
7 dicas para quem quer entrar na Bolsa em queda
Para Assis, investir em um mercado em queda exige cuidado, planejamento e visão de longo prazo. Veja os principais pontos levantados pelos especialistas.
1. Queda não é sinônimo de pechincha
O primeiro cuidado é não confundir a desvalorização de uma ação com uma oportunidade de compra. Um papel que perde 50% do valor, por exemplo, precisa subir 100% para retornar ao preço original. Além disso, nem todas as empresas conseguem recuperar suas máximas históricas, especialmente quando enfrentam problemas nos negócios ou nos resultados financeiros.
Por isso, Lima recomenda entender a origem da queda. “Sempre observe se a queda aconteceu por uma reação generalizada do mercado ou porque a situação financeira da empresa piorou. Essa diferença é fundamental para identificar boas oportunidades.”
2. Tenha paciência e não use dinheiro de curto prazo
“Tenha paciência, porque uma ação pode levar meses ou até anos para recuperar seu valor, e o investidor não deve aplicar recursos de que precisará no curto prazo”, aponta Lima.
Quem precisar do dinheiro antes da recuperação pode ser obrigado a vender as ações em um momento desfavorável, consolidando prejuízos.
3. Olhe o endividamento
Empresas muito endividadas tendem a sofrer mais quando os juros estão elevados, porque gastam mais para pagar suas dívidas e acabam comprometendo os lucros.
4. Diversifique
Concentrar o patrimônio em poucas empresas ou exclusivamente no mercado brasileiro deixa a carteira mais exposta aos problemas específicos de determinados negócios ou às oscilações da economia local.
5. Controle as emoções e tenha uma estratégia
Assis destaca a importância de seguir uma estratégia definida antes de investir, avaliando os fundamentos das empresas, estabelecendo quanto do patrimônio será destinado à Bolsa e compreendendo os riscos envolvidos. “O medo e a ganância são grandes inimigos do investidor”, brinca.
6. Compare com a renda fixa
Na segunda-feira, o Tesouro prefixado beirou os 16% e os títulos atrelados ao IPCA passaram de 8% acima da inflação. Com a renda fixa pagando tanto, a ação precisa entregar mais.
“É fundamental comparar o retorno esperado das ações com o que a renda fixa oferece. Com os juros elevados, não basta uma ação estar barata, ela precisa apresentar um potencial de valorização que compense o risco assumido. Também é importante diversificar para não depender de poucas empresas”, afirma Lima.
7. Entre aos poucos
Em vez de tentar acertar o fundo do mercado, a recomendação é montar a posição de forma gradual, já que a Bolsa ainda pode cair mais.
“Não significa que a queda da Bolsa terminou. Se as incertezas fiscais persistirem e os juros continuarem elevados, novas perdas são possíveis. Minha preferência, neste momento, seria por compras graduais de empresas lucrativas, com baixo endividamento e geração consistente de caixa. O investidor precisa comprar qualidade, não simplesmente aquilo que mais caiu”, conclui Lima.
