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TecnologiaBDR
27/07/2026
8 min

A anatomia de uma queda: por que a IBM teve o pior dia em quase 60 anos

A anatomia de uma queda: por que a IBM teve o pior dia em quase 60 anos

Por mais de meio século, a IBM foi sinônimo de computação. Fundada em 1911, foi ela que construiu os grandes computadores que rodavam bancos, governos e companhias aéreas, e que davam nome a uma era inteira da tecnologia corporativa.

É por isso que o que aconteceu em julho pesa tanto. A empresa que definiu o setor foi apanhada de surpresa justamente pela transformação que mais mexe com ela hoje — a inteligência artificial (IA).

O estopim veio antes mesmo do balanço. Em 14 de julho, Arvind Krishna, presidente-executivo da companhia, avisou investidores que o trimestre havia sido "pior do que o esperado" e admitiu que a IBM não se moveu rápido o suficiente diante da disparada nos custos de infraestrutura provocada pela corrida da IA.

Naquele dia, as ações despencaram 25% — a maior queda diária da IBM desde a Segunda-Feira Negra de 1987, quando o papel caiu 23% na quebra generalizada de Wall Street. Em valor, foram mais de US$ 73 por ação evaporados, de US$ 290,23 para US$ 217,07.

A queda nas vendas de mainframes e o impacto no balanço da IBM

O epicentro do prejuízo foi o produto mais antigo da casa: o computador de grande porte.

O negócio de mainframes IBM Z encolheu 42% no segundo trimestre, à medida que empresas empurraram a compra desses equipamentos para depois, com pressa de garantir servidores, armazenamento e chips de memória para IA antes que os preços subissem.

A magnitude pegou a própria empresa de surpresa. Segundo James Kavanaugh, diretor financeiro da IBM, a combinação de mainframe e software associado sozinha tirou mais de cinco pontos percentuais do crescimento do trimestre — quando a companhia esperava um impacto de um a dois pontos, no máximo.

"Nas últimas semanas de junho, vimos clientes deslocarem seus gastos trimestrais para servidores, armazenamento e memória", escreveu Arvind Krishna, presidente-executivo da IBM, em carta a investidores. "Embora prevíssemos algum impacto de cadeia de suprimentos, não antecipamos a magnitude dessa repriorização."

O resultado foi uma receita de US$ 17,2 bilhões no trimestre, alta de apenas 1% em um ano — ante 9% no trimestre anterior. Dezenas de grandes contratos não fecharam no prazo.

O que mais pesou na reação, porém, não foi o número. Foi o tom.

"Essas condições exigem que nossas equipes executem com perfeição, e neste trimestre nós vacilamos", escreveu. "Não nos adaptamos nem nos movemos rápido o suficiente." A frase, vinda de um presidente-executivo que costuma projetar confiança, soou como uma rachadura — e o mercado a tratou como tal.

Por que a IBM ficou de fora da festa?

IBM

IBM: o legado dos primeiros computadores corporativos que moldaram o setor financeiro (Imagem gerada por IA/Exame)

A queda alimentou uma leitura apressada de que a adoção de IA pelas empresas estaria mais lenta do que se imagina.

Mas não é bem isso. O gasto corporativo com IA está a todo vapor — só que fluindo para lugares onde a IBM quase não está.

O dinheiro da atual onda de infraestrutura vai para as gigantes de nuvem, os provedores de data center e os fabricantes de chips, com a Nvidia à frente. É a camada física da IA, com servidores, processadores gráficos, memória. E o portfólio de infraestrutura da IBM — ancorado no mainframe — simplesmente não está alinhado a esse tipo de construção.

Há um segundo problema, de percepção. Enquanto a Microsoft tem o Copilot e o Google tem o Gemini — produtos de IA com nome e rosto —, a IBM não conduz sua estratégia por um único produto reconhecível. Seu portfólio de IA se chama watsonx, um guarda-chuva de ferramentas voltadas a dados, governança e modelos.

É poderoso para grandes empresas, mas difícil de enxergar de fora.

IBM decepciona no trimestre, e CEO admite que empresa 'vacilou'

A ausência da empresa nessa camada não é só acidente — é, em parte, estratégia.

A IBM decidiu não disputar com as gigantes de nuvem a corrida pelos maiores modelos de IA nem pelos assistentes de uso geral. Apostou em ser a fornecedora de confiança para bancos, hospitais e governos, que precisam de IA com governança, segurança e integração a sistemas antigos.

Nessa frente, a empresa mostra tração. O watsonx Orchestrate, plataforma para coordenar agentes de IA, integra-se a mais de 80 sistemas corporativos, de Salesforce a SAP. E, num movimento revelador, a IBM parou de tentar vender só os próprios modelos. O watsonx virou uma espécie de central que roda também modelos de terceiros, incluindo os da OpenAI e da Anthropic.

A companhia aposta que o valor da IA não está no modelo em si, que vira commodity, mas na camada que o organiza dentro da empresa.

O problema de timing é que essa aposta rende devagar, enquanto o tombo do hardware chega de uma vez.

As duas IBMs

O tombo do mainframe escondeu uma história mais animadora do outro lado da empresa. O software cresceu 5% no trimestre, e o Red Hat, a divisão de código aberto da IBM, acelerou para 11%.

O segmento respondeu por cerca de 45% da receita em 2025, mas por perto de dois terços do lucro, segundo o JP Morgan. É o de maior margem — 82,8% de margem bruta no primeiro trimestre, contra 56,9% da infraestrutura e 27,5% da consultoria.

Cada dólar vendido em software vale muito mais para o resultado do que o mesmo dólar em hardware.

Um ganho de 5% no software não cobre uma queda de dois dígitos na infraestrutura. E é essa a tensão que define a IBM hoje — uma "nova IBM", de software de alta margem, tentando crescer rápido o bastante para abafar a "velha IBM", de máquinas.

No acumulado de 2026, a ação cai cerca de 30%, enquanto o índice S&P 500 sobe perto de 10%. É a distância entre a promessa e a dúvida.

Adiamento ou destruição?

A pergunta que sobra é se os contratos apenas escorregaram para o trimestre seguinte ou se sumiram de vez. Na teleconferência de 22 de julho, Krishna cravou a primeira hipótese de que cerca de um terço dos negócios que não fecharam já havia sido concluído no início do terceiro trimestre. "Adiamento, não destruição", resumiu.

Ele também rejeita a ideia de que o mainframe estaria morrendo. Segundo o executivo, o IBM Z roda mais de 70% do volume mundial de transações em valor, e quase metade dos clientes do modelo mais recente, o z17, já investe em recursos de IA na própria máquina — a aposta da empresa é que rodar IA perto dos dados mais sensíveis vira, ele próprio, um motivo para comprar mainframe.

O mercado, por ora, não comprou inteiro. Depois da teleconferência, a ação fechou a US$ 205,77 — abaixo até do preço do dia do tombo. A empresa cortou a projeção de crescimento para 2026, de mais de 5% para uma faixa de 4% a 5%, embora tenha mantido o dividendo, a ser pago em agosto.

Não é a primeira vez

IBM

IBM: trajetória centenária da gigante de tecnologia é marcada por reinvenções e crises (Imagem gerada por IA/Exame)

A história da empresa é feita de auges e de atrasos.

Nos anos 1980, a IBM dominava a computação pessoal com o PC que ajudou a popularizar — mas terceirizou o sistema operacional para uma então pequena Microsoft e os processadores para a Intel, e viu as duas ficarem com o lucro do setor que ela havia criado.

Na década seguinte, o atraso quase foi fatal. A migração dos grandes mainframes para computadores menores e em rede pegou a IBM na contramão, e em 1993 a empresa registrou um prejuízo de US$ 8 bilhões, o maior da história corporativa americana até então. A virada veio com uma guinada para software e serviços, que a reposicionou longe do hardware.

O padrão se repetiu na era da nuvem. Enquanto Amazon, Microsoft e Google construíam os data centers que dominariam a computação em nuvem nos anos 2010, a IBM chegou atrasada e nunca alcançou o pelotão de frente.

Foi para tentar corrigir esse atraso que comprou a Red Hat por US$ 34 bilhões em 2019 — a maior aquisição de sua história e a aposta que sustenta o crescimento de software hoje.

O tropeço de julho, nesse contexto, é menos uma ruptura do que mais um capítulo de uma tensão antiga — uma empresa de 113 anos tentando, de novo, não ser deixada para trás pela própria mudança que ajudou a começar.

O resto depende do que a IBM não controla. Nesta semana, o Federal Reserve (Fed) decide os juros americanos e as maiores empresas de tecnologia divulgam balanços que vão ditar o humor do setor. Até lá, a companhia de 113 anos segue presa entre suas duas identidades — esperando descobrir qual delas vence.

AutorTamires Vitorio
FonteExame
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