A aposta de dois mestres do entretenimento para criar uma ‘cidade da música’ em São Paulo
A Semana Internacional da Música de São Paulo entra em nova fase sob o comando de Luiz Calainho e Coy Freitas, amplia a ocupação da cidade e quer conectar a cena independente ao mainstream

RESUMO +
A Musickeria, empresa de música do grupo L21, e a produtora Otorongo realizarão, de 29 de novembro a 3 de dezembro, a primeira edição da SIM São Paulo totalmente sob seu comando após comprarem a conferência. O evento terá o Conjunto Nacional como base e buscará aproximar música independente, grandes empresas, plataformas, governos e compradores internacionais.
Luiz Calainho passou parte dos anos 1990 voltando de Austin, no Texas, com uma ideia na cabeça. Na época, ainda executivo da Sony Music, ele frequentava a SXSW, conferência que nasceu dedicada à música e depois se transformou em um dos principais encontros de cultura, tecnologia e negócios do mundo.
A cada edição, a pergunta era parecida: por que o Brasil, com tantos gêneros, artistas e uma indústria desse tamanho, não tinha algo assim?
Mais de 30 anos depois, Calainho decidiu comprar parte da resposta.
A Musickeria, empresa de música de seu grupo L21, se uniu à Otorongo Produções, sociedade de Coy Freitas e Marcos Passarini, para adquirir a SIM São Paulo – Semana Internacional de Música de São Paulo.
Criada por Fabiana Batistela, a conferência chega agora a uma nova fase sob o comando dos dois grupos.
A mudança começa a aparecer de fato neste ano. De 29 de novembro a 3 de dezembro, a primeira SIM inteiramente comandada pelos novos donos terá o Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, como sua principal base e avançará por outros espaços da cidade.
O objetivo é ampliar uma conferência historicamente ligada à música independente e colocar no mesmo ambiente artistas, gravadoras, plataformas digitais, produtores, marcas, governos e compradores internacionais.
“A nossa entrada na liderança da SIM São Paulo é para furar essa bolha, manter esse trabalho com a base, mas conectar com o mainstream e olhar como mercado”, diz Coy Freitas.
No limite, Calainho e Freitas querem montar uma espécie de cidade temporária da música dentro de São Paulo.
De dia, painéis, encontros e apresentações se concentrarão principalmente na Paulista. À noite, showcases, apresentações curtas voltadas à descoberta de artistas, e shows ocuparão espaços da capital.
Calainho resume a ambição de outra forma: quer que, durante aqueles cinco dias, São Paulo se transforme na “capital da música” — não só do Brasil, mas do mundo.
Uma ideia que começou nos anos 1990
A relação de Calainho com esse modelo de conferência começou antes de ele virar empresário.
Na virada de 1990 para 1991, entrou na Sony Music como diretor de marketing. Ainda nos primeiros anos na gravadora, começou a viajar para eventos internacionais do setor. Entre eles estava a SXSW, em Austin.
Naquele momento, o evento americano tinha uma configuração bem diferente da atual. Era essencialmente um encontro da indústria da música, que reunia artistas, executivos, produtores e profissionais do setor para discutir negócios, apresentar novos nomes e criar conexões.
Calainho calcula ter participado de sete ou oito edições durante os anos de Sony e de outras três ou quatro já como empresário.
“Sempre pensava: o Brasil tem que ter um negócio desses. Considerando que o Brasil tem uma diversidade de gêneros da música que é imbatível, tinha que ter uma coisa como essa”, afirma.
A oportunidade apareceu anos depois.
A SIM foi criada por Fabiana Batistela em 2013 e cresceu como um ponto de encontro principalmente da cena independente. Calainho começou a se aproximar do projeto nos primeiros anos da conferência. Coy Freitas seguiu caminho semelhante e passou a atuar mais diretamente em sua curadoria.
A ideia de uma compra começou a amadurecer quando Calainho sugeriu a Freitas que Musickeria e Otorongo entrassem primeiro como coprodutoras.
No ano passado, as empresas participaram da realização da SIM ao lado de Batistela. A edição aconteceu no Memorial da América Latina e teve 60 painéis, cerca de 270 palestrantes, 43 showcases diurnos, rodadas de negócios, sessões de apresentação de artistas e ações de networking, relacionamento profissional entre participantes.
Encerrado o evento, os dois decidiram avançar.
“Eu virei para o Coy e falei: vamos bidar”, diz Calainho, usando o termo em inglês para fazer uma oferta. As duas empresas compraram a SIM em uma operação dividida meio a meio.
Da bolha independente para toda a indústria
Comprar a SIM, para os novos donos, não significava abandonar o espaço que a tornou conhecida.
A música independente continuará sendo uma das bases do evento. A diferença está na tentativa de conectá-la de forma mais direta às áreas que movimentam dinheiro e escala dentro da indústria.
Isso inclui gravadoras, editoras, empresas de shows, plataformas digitais, escritórios de artistas, marcas, advogados especializados, empresas de tecnologia e fornecedores.
Coy define esse mercado como um ecossistema fragmentado.
“Você tem artistas, empresários, agências de booking, empresas que fazem show, advogados de direito autoral, toda a indústria de serviços. A música não é só o artista em cima do palco”, afirma. Booking é a atividade responsável pela contratação e organização de apresentações de um artista.
É justamente nessa fragmentação que os sócios enxergam espaço para a SIM.
A conferência terá rodadas de negócios estruturadas para aproximar diferentes partes do setor, além de uma feira com expositores e encontros entre empresas brasileiras e delegações estrangeiras.
Segundo Freitas, comitivas de mais de 20 países devem participar, algumas com poucas pessoas e outras com dezenas de representantes.
A tentativa é transformar a SIM também em uma porta de entrada para quem quer fazer negócios com a indústria brasileira. E em uma vitrine para empresas e artistas locais que buscam mercados no exterior.
Um mercado de 116 bilhões de reais
O tamanho dessa engrenagem ajuda a explicar a mudança de escala pretendida pelos novos donos.
Segundo Coy, o ecossistema da música movimenta cerca de 116 bilhões de reais por ano no Brasil e envolve aproximadamente 4,3 milhões de pessoas, considerando empregos formais, informais e trabalhos temporários. Ele afirma ainda que há perto de 300.000 empresas formais ligadas de alguma maneira ao setor.
Os números ajudam também a mostrar um dos desafios da SIM: organizar um mercado que cresce sem necessariamente funcionar como uma indústria integrada.
Festivais, shows de estádio, casas noturnas, festas regionais, Carnaval, rodeios, eventos de prefeituras, música gravada e plataformas digitais fazem parte da mesma cadeia, mas nem sempre trabalham em contato direto.
“Quando você junta o ecossistema, você gera oportunidades. Porque como é que você faz negócio? Conhecendo, conversando, promovendo relacionamento”, diz Freitas.
O crescimento dos shows é uma das áreas em que essa mudança ficou mais visível.
Coy cita a quantidade crescente de artistas brasileiros capazes de lotar arenas e estádios e um calendário que passou a reunir turnês internacionais, festivais e eventos de música ao longo de praticamente todo o ano.
Para ele, a expansão do palco exige também uma expansão dos bastidores.
O Conjunto Nacional como quartel-general
A escolha do Conjunto Nacional não aconteceu por acaso.
O edifício está no centro do plano de Calainho de criar um polo de cultura e entretenimento naquele trecho da Avenida Paulista.
Seu grupo já opera no complexo o Teatro YouTube, o Blue Note e o Nubank Art Lab. A SIM entra agora como mais uma peça dessa ocupação.
“Na minha opinião, isso está se configurando como um distrito da arte e da cultura de São Paulo”, afirma Calainho.
Durante a conferência, o Conjunto Nacional funcionará como uma espécie de quartel-general. Ali estarão parte dos painéis, rodadas de negócios, showcases e encontros profissionais.
Mas a SIM não ficará restrita ao prédio.
A organização pretende usar outros espaços da Paulista e, principalmente à noite, casas de shows espalhadas por São Paulo.
A estratégia tenta aproveitar uma característica da cidade: em praticamente qualquer dia da semana há música acontecendo em algum lugar, de rodas de samba e bailes a casas de pequeno porte e estádios.
O palco é só uma parte
Uma das apostas da nova gestão é mostrar justamente o que existe ao redor do artista.
A programação será dividida em diferentes frentes.
Uma delas é a difusão de conhecimento, com pesquisas, estudos de caso e debates. Outra concentra negócios. Há ainda a agenda de apresentações de novos artistas e uma frente voltada à relação entre a indústria privada e o poder público.
Entram nessa discussão temas como políticas culturais, formação profissional e regras que afetam empresas e trabalhadores do setor.
Também haverá programas de transformação social, com mentorias e ações em parceria com equipamentos culturais da cidade.
“A música também é uma ferramenta de transformação social em grande escala”, diz Freitas. “O artista representa e, quando representa, quebra paradigmas e propõe novos modelos.”
A programação ainda pretende cruzar a música com tecnologia, sustentabilidade, comportamento e saúde mental.
Uma conferência que precisa funcionar o ano inteiro
O negócio da SIM também está mudando.
A receita vem da venda de credenciais, patrocínios, espaços para empresas e ações de relacionamento durante o encontro.
Há diferentes categorias de ingresso. Algumas são direcionadas a quem busca conteúdo e quer entrar na indústria. Outras atendem profissionais interessados principalmente nas rodadas de negócios e no networking.
Mas o plano é fazer com que a SIM não dependa apenas dos cinco dias de evento.
Ao longo do ano, integrantes da organização participam de encontros internacionais para aproximar empresas, artistas e delegações estrangeiras da conferência brasileira.
Coy montou ainda um conselho e distribuiu a operação entre profissionais responsáveis por áreas como relações internacionais, poder público, negócios, apresentações musicais, comunicação e impacto social.
“Negócios, na base, são relacionamentos. A gente conecta pessoas para promover o crescimento dessa indústria”, afirma.
Para Calainho, a referência continua sendo aquela que conheceu quando ainda trabalhava na Sony.
A SXSW cresceu muito além da música. A SIM parte de outra escala e de outro mercado. O ponto em comum está na tentativa de concentrar, durante alguns dias, pessoas que normalmente passam o ano inteiro trabalhando em partes diferentes de uma mesma indústria.
