A aposta de R$ 525 milhões da Centauro para crescer além das marcas tradicionais
Com 17 linhas licenciadas e produtos exclusivos, varejista amplia sua presença no mercado esportivo e aposta em preços mais acessíveis para conquistar consumidores

RESUMO +
A varejista de artigos esportivos Centauro ampliou de nove para 17 suas linhas licenciadas em um ano, enquanto a operação conjunta de marcas próprias e licenciamentos faturou R$ 525,5 milhões no primeiro semestre de 2026. Segundo a companhia, esse braço já representa cerca de 20% das vendas e inclui produtos de clubes, seleções e marcas esportivas.
A Centauroencontrou uma maneira de ampliar suas vendas sem depender apenas das grandes fabricantes de artigos esportivos.
A varejista, conhecida por comercializar produtos de marcas como Nike e Adidas, decidiu acelerar uma operação na qual assume também o papel de desenvolvedora de produtos. A estratégia passa por fechar contratos com clubes de futebol, seleções e marcas esportivas para criar coleções exclusivas, controlar a produção e vender os itens em suas mais de 230 lojas espalhadas pelo Brasil.
Em apenas um ano, a companhia ampliou de nove para 17 o número de linhas licenciadas. O movimento faz parte de umaoperação que reúne marcas próprias e licenciamentos e faturou R$ 525,5 milhões no primeiro semestre de 2026. Esse braço do negócio já responde por cerca de 20% das vendas da Centauro, segundo a companhia.
A expansão começou a ganhar força em 2025, quando a varejista criou uma estrutura dedicada aos licenciamentos. A proposta é aproveitar a experiência acumulada com marcas próprias, como Oxer, Nord e Adams, para desenvolver produtos de outras marcas, mas com preços, características e distribuição definidos pela própria Centauro.
"A ideia era muito ocupar espaços de mercado onde a gente ainda não tinha um portfólio para oferecer", afirma Claudia Paoli, diretora de Marketing, Marcas Próprias e Licenciados da Centauro.
A ideia é utilizar marcas reconhecidas pelo consumidor para oferecer produtos que complementem aqueles já disponíveis nas lojas. No futebol, isso significa vender peças de clubes e seleções com preços inferiores aos das camisas oficiais. Em outras modalidades, a estratégia permite desenvolver roupas e acessórios de performance capazes de competir com os produtos das grandes fabricantes.
O avanço ocorre em um momento de crescimento do Grupo SBF, dono da Centauro e da Fisia, responsável pela operação da Nike no Brasil. No segundo trimestre de 2026, impulsionado pela Copa do Mundo, o grupo registrou receita líquida recorde de R$ 2,2 bilhões, alta de 22,1% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Como funciona o negócio de produtos licenciados da Centauro
Diferentemente do modelo tradicional, no qual a varejista compra mercadorias prontas de fabricantes para revendê-las, a operação de licenciamentos coloca a Centauro no controle de praticamente toda a cadeia.
A companhia negocia os direitos de uso das marcas, desenvolve os produtos, escolhe fornecedores, define preços e organiza a distribuição. As empresas e entidades licenciadoras fornecem as diretrizes de identidade visual e aprovam os designs, mas a execução comercial fica sob responsabilidade da varejista.
Os contratos envolvem pagamentos de royalties, cujos percentuais variam conforme a negociação. Alguns também preveem investimentos em marketing. A duração depende do parceiro: enquanto acordos com clubes de futebol costumam acompanhar os ciclos de gestão das agremiações, outros contratos podem chegar a dez anos, com possibilidade de renovação automática.
A produção é terceirizada e dividida entre fornecedores brasileiros e asiáticos. Em média, metade dos itens é fabricada no Brasil e a outra metade no exterior. Durante o primeiro semestre, período marcado pelas coleções de inverno, a participação asiática chega a 60%, principalmente pela necessidade de materiais e tecnologias utilizados em jaquetas e peças mais estruturadas.
Dentro da Ásia, 90% da produção está concentrada na China, com fornecedores também em Bangladesh. No verão, a distribuição se inverte, com maior participação da indústria brasileira, especialmente na fabricação de malhas, algodão e roupas fitness.
O modelo dá à Centauro maior autonomia sobre preços e margens. Embora a executiva não divulgue os percentuais de rentabilidade, afirma que a operação apresenta margens saudáveis, mesmo depois do pagamento dos royalties.
"A gente não tem muitos intermediários no meio do caminho", diz Paoli.
Portfólio ampliado: produtos licenciados ajudam a Centauro a alcançar novos consumidores.
A experiência com as marcas próprias foi determinante para essa expansão. A Oxer, principal marca própria da rede, ajudou a companhia a desenvolver competências de criação de coleções, negociação com fornecedores e gestão da produção, posteriormente aproveitadas nos licenciamentos.
O resultado aparece nos números. A operação conjunta de marcas próprias e licenciamentos faturou R$ 743 milhões em 2023 e chegou a R$ 962 milhões em 2025, crescimento de 29,5% em dois anos.
Os R$ 525,5 milhões registrados nos primeiros seis meses de 2026 mostram a dimensão desse negócio, embora a Centauro não divulgue quanto da receita corresponde exclusivamente aos produtos licenciados.
Por que o futebol se tornou uma das principais apostas
Uma das principais oportunidades identificadas pela Centauro está no mercado de produtos de clubes de futebol. A varejista percebeu que poderia complementar a venda de camisas oficiais com coleções mais acessíveis, aproveitando a identificação dos torcedores com seus times.
Enquanto as camisas oficiais de jogo costumam ocupar faixas mais elevadas de preço, as peças licenciadas desenvolvidas pela Centauro são comercializadas, em geral, entre R$ 90 e R$ 300.
A diferença permite atingir consumidores interessados em demonstrar apoio a seus clubes sem necessariamente comprar o uniforme oficial. O portfólio também vai além das camisetas e inclui casacos, bonés, chinelos, mochilas, malas e porta-chuteiras.
Atualmente, a companhia trabalha com licenciamentos de clubes como Corinthians, São Paulo, Vasco, Atlético-MG, Coritiba e Internacional, além de propriedades internacionais, como Barcelona, UEFA e Associação do Futebol Argentino (AFA).
A definição de novos parceiros leva em consideração o comportamento dos consumidores em cada região do país. A empresa analisa quais clubes têm maior procura nas lojas para identificar oportunidades de ampliar o portfólio.
"A gente olha muito para dados. Então, quais são os clubes que eu mais vendo na Bahia? Como é que eu me conecto ainda mais com esses consumidores?", afirma Paoli.
A distribuição nacional também permite vender produtos de clubes fora de seus estados de origem. Uma coleção de um time baiano, por exemplo, pode encontrar compradores em São Paulo, onde existe uma comunidade de torcedores.
A Copa do Mundo de 2026 mostrou o potencial dessa estratégia. Entre janeiro e junho, a Centauro comercializou 489 mil unidades de produtos licenciados da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
A preparação começou antes da competição. Em outubro de 2025, a companhia iniciou sua comunicação sobre o Mundial com a bola oficial da Adidas. Nos meses seguintes, organizou um calendário de lançamentos, incluindo a entrada dos produtos licenciados da CBF em fevereiro, antes da chegada das principais coleções de vestuário oficial.
A iniciativa também abriu espaço para campanhas próprias e exposição antecipada dos produtos nas vitrines.
O desempenho acompanhou o crescimento mais amplo das vendas relacionadas à Copa. Até o final de julho, o Grupo SBF havia comercializado mais de 1,5 milhão de itens associados ao torneio, incluindo camisas da Seleção, produtos licenciados e bolas oficiais.
O desafio agora é transformar a demanda concentrada no Mundial em vendas recorrentes. Para isso, a varejista pretende explorar tanto as rivalidades regionais do futebol quanto outras ocasiões de consumo, como Natal, Dia dos Pais e Dia das Mães.
Onde a Centauro pretende crescer com essa estratégia
Embora o futebol tenha sido um dos principais motores da expansão, a Centauro enxerga oportunidades em outras modalidades esportivas.
Uma das parcerias mais relevantes é com a japonesa ASICS, marca conhecida principalmente por seus tênis de corrida. Por meio do licenciamento, a varejista desenvolve roupas e acessórios de performance com preços inferiores aos de parte dos produtos das grandes fabricantes esportivas.
"A nossa principal licença é a ASICS. A gente consegue bater de frente com outras marcas maiores, como Nike e Adidas, mas a gente tem dentro de casa um know-how para desenvolver produtos de performance e um pouco mais acessíveis", afirma Paoli.
A proposta não se limita a reproduzir coleções tradicionais com preços menores. Segundo a executiva, cada modalidade exige características específicas de tecido, resistência e conforto. Na corrida, por exemplo, a companhia desenvolve peças com tecnologias de respirabilidade e secagem rápida. Já nos treinos de força, a resistência ao atrito ganha importância.
A empresa também acompanha modalidades em expansão, como o Hyrox, competição que combina corrida e exercícios funcionais, para identificar novas necessidades de equipamentos e vestuário.
O catálogo inclui ainda acessórios como raqueteiras, faixas de cabelo, munhequeiras e mochilas. A intenção é aumentar a quantidade de produtos oferecidos ao consumidor dentro de uma mesma marca, sem depender exclusivamente das categorias mais tradicionais.
Além da ASICS, o portfólio de licenciamentos reúne nomes como FARM Rio e Marcelo Melo, tenista brasileiro especializado em duplas.
Outra oportunidade está no calendário esportivo. Depois de aproveitar a Copa masculina de 2026, a Centauro já prepara uma coleção voltada à Copa do Mundo Feminina de 2027. A produção está em andamento, embora a empresa ainda não tenha divulgado metas de vendas.
O movimento faz parte de uma estratégia mais ampla de crescimento do Grupo SBF, que também investe na reforma de lojas, ampliação do sortimento e melhoria da logística. Para a Centauro, os licenciamentos oferecem uma maneira de aproveitar essa estrutura para desenvolver produtos exclusivos, aumentar o alcance das marcas parceiras e ocupar espaços ainda pouco explorados dentro do varejo esportivo.
A expansão para novos clubes e categorias continuará orientada pelos dados de consumo e pelas oportunidades identificadas nas lojas. A companhia não divulga uma meta de quantos licenciamentos pretende alcançar nos próximos anos.
"Cuidamos do início ao fim da cadeia de produção e de distribuição", diz Paoli. "A gente consegue entregar uma experiência boa, com margem e ter o controle total da cadeia."
