A aposta no Brasil de uma gigante de 22 bilhões de euros que atua nos bastidores das empresas
Fundada na França em 1967, a Capgemini desenvolve e integra sistemas para grandes empresas; operação brasileira tem 4.500 profissionais e novo polo no Recife

Você provavelmente nunca comprou diretamente um serviço da Capgemini. Bancos, varejistas, empresas de telecomunicações e governos, sim.
Em um grande banco, a multinacional francesa desenvolveu ferramentas de integração para a jornada do Pix. Para outro cliente, colocou uma implementação de Salesforce de pé em cinco semanas, usando agentes de inteligência artificial para mapear o negócio e as funcionalidades da plataforma. Em uma grande companhia de telecomunicações, cuida da gestão de dados.
Esse trabalho de bastidor ajuda a explicar uma empresa que fechou 2025 com 22,5 bilhões de euros em receita — 1,6 bilhão de euros de lucro líquido e mais de 420 mil funcionários ao fim daquele ano. A Capgemini é listada na bolsa de Parise faz parte do CAC 40, índice que reúne algumas das maiores companhias francesas.
No Brasil, são cerca de 4.500 profissionais. Já a operação que reúne Brasil e Argentina fatura mais de 230 milhões de euros por ano, segundo José Falcão, COO da Capgemini para os dois países. A cifra equivale a cerca de 1% da receita global registrada pelo grupo em 2025.
“A gente está só começando nossa história no país, tem muita coisa por fazer ainda”, diz Falcão.
Para 2026, Falcão diz que empresa trabalha com uma projeção próxima de 18% de alta, com possibilidade de encerrar o ano perto de 20%. Segundo ele, a operação vem registrando avanços anuais de dois dígitos desde 2020.
O que a Capgemini faz
A forma mais simples de explicar a Capgemini é tratá-la como uma empresa que projeta, constrói, integra e opera tecnologia para outras empresas.
Isso pode significar instalar uma plataforma pronta, como SAP, Salesforce ou ServiceNow; desenvolver um sistema sob medida em linguagens como Java, .NET e Python; integrar sistemas que antes não conversavam entre si; administrar dados e infraestrutura; ou redesenhar processos usando cloud einteligência artificial.
“A gente faz desenvolvimento de sistemas, integração de sistemas para grandes clientes corporativos”, diz Falcão.
O balanço ajuda a colocar peso em cada atividade. Em 2025, 63% da receita global veio de Applications & Technology, divisão que reúne desenvolvimento, modernização e manutenção de ambientes tecnológicos. Outros 29% vieram de Operations & Engineering, enquanto consultoria de estratégia e transformação respondeu pelos 8% restantes.
É um negócio essencialmente B2B. Entre os clientes que a companhia autoriza citar estão Jaú Serve, Grupo Edson Queiroz, Riachuelo, Drogaria Araújo e Secretaria da Fazenda de Alagoas. Globalmente, a lista inclui oMcDonald's.
A relação costuma ir além de um projeto pontual. Falcão diz que a carteira brasileira é relativamente concentrada e que boa parte dos contratos se estende por anos.
“A maioria deles tem mais de cinco anos de contato com a gente”, diz Falcão.
Essa duração é relevante para entender a economia de uma consultoria de tecnologia. Depois de entrar em um cliente para desenvolver ou modernizar um sistema, a fornecedora pode permanecer na manutenção, na evolução da plataforma, na infraestrutura, nos dados ou em novos projetos. O cliente ganha um fornecedor que conhece a operação; a consultoria reduz a necessidade de começar do zero a cada venda.
Como surgiu a Capgemini
A Capgemini começou muito menor do que o tamanho atual sugere.
Em outubro de 1967, o francês Serge Kampf montou a Sogeti em um apartamento de dois cômodos em Grenoble, na França, ao lado de antigos colegas da Bull. O computador ainda era uma tecnologia distante da rotina de boa parte das empresas, e a aposta estava em prestar serviços técnicos e de organização para companhias que começavam a informatizar suas operações.
A expansão veio rápido e com uma característica que permanece no grupo quase seis décadas depois: aquisições. Em 1975, após comprar as empresas CAP e Gemini Computer Systems, o grupo já estava presente em 21 países. Em 1988, entrou no CAC 40.
A lista de compras ao longo das décadas incluiu Ernst & Young Consulting, em 2000, e CPM Braxis, em 2010. Mais recentemente, em outubro de 2025, a Capgemini concluiu a aquisição da WNS por US$ 3,3 bilhões, reforçando sua atuação na terceirização e operação de processos empresariais apoiados por inteligência artificial.
O tamanho adquirido nessas operações também aparece no quadro de funcionários. A integração da WNS foi a principal razão para a Capgemini terminar 2025 com 423.400 pessoas, 24% mais que um ano antes. Em junho de 2026, o número havia recuado para 417.600.
O grupo também ganhou velocidade nos números mais recentes. A receita avançou 8,8% no primeiro semestre de 2026, para 12,082 bilhões de euros. Em moeda constante, a alta foi de 11,3%. Depois do resultado, a companhia elevou a projeção de avanço da receita em 2026 para algo entre 8,5% e 9% em moeda constante.
A entrada no Brasil começou por uma compra
A mesma estratégia de aquisições abriu a porta do mercado brasileiro.
Em 2010, a Capgemini comprou o controle da CPM Braxis, empresa brasileira de tecnologia. Na época, a aquisição foi apresentada pelo grupo francês como uma forma de ganhar escala em um dos principais mercados de TI da América Latina.
O negócio encontrado aqui, porém, era diferente daquele que a multinacional queria construir.
Segundo Falcão, a CPM Braxis tinha forte presença em infraestrutura e também revendia equipamentos. A Capgemini passou os anos seguintes mudando a composição da operação para serviços de tecnologia, como desenvolvimento e integração de sistemas.
Hoje, os 4.500 profissionais brasileiros trabalham tanto em escritórios quanto de forma remota. A companhia mantém estruturas em São Paulo, Barueri, Rio de Janeiro e Recife, e tem gente espalhada por outras partes do país.
Para Falcão, um dos aprendizados do negócioé que o contrato seguinte depende da entrega do anterior.
“A gente não consegue vender nada se não tiver referências positivas, clientes felizes, para a gente apresentar aos novos clientes”, afirma.
É uma lógica particularmente importante em contratos de tecnologia que mexem em sistemas centrais de uma companhia. A troca de fornecedor custa tempo, dinheiro e conhecimento acumulado. Para a Capgemini, executar bem um projeto pode significar permanecer dentro do mesmo cliente por anos.
Onde a inteligência artificial já mudou a entrega
A inteligência artificial entrou no discurso de praticamente todas as grandes consultorias de tecnologia. Na Capgemini, um dos exemplos brasileiros está menos em criar um produto de IA para vender na prateleira e mais em reduzir o tempo necessário para entregar um projeto.
Falcão cita o caso de um cliente que precisava colocar Salesforce em funcionamento em cinco semanas. A equipe criou agentes de IA especializados tanto nas áreas de negócio do cliente quanto nas funcionalidades do software. Com eles, produziu o diagnóstico e o roteiro da implantação.
“A gente conseguiu de uma maneira bastante rápida entregar para o cliente um diagnóstico de qual deveria ser o roadmap de implementação otimizado para ele”, diz Falcão.
O movimento está alinhado ao que a Capgemini vem vendendo globalmente. A companhia afirma que clientes estão aumentando investimentos na modernização de sistemas antigos e em IA agêntica, com softwares capazes de executar sequências de tarefas com maior autonomia.
Há também um efeito sobre o próprio modelo das consultorias. A compra da WNS, por exemplo, foi apresentada pela Capgemini como uma aposta em operações mais automatizadas, nas quais contratos podem deixar de ser remunerados apenas pela quantidade de profissionais envolvidos e ganhar componentes por transação, assinatura ou resultado.
Quais os próximos passos da Capgemini no Brasil
Parte da expansão da Capgemini no país está acontecendo a mais de 2.000 quilômetros de São Paulo.
A companhia inaugurou em 2025 uma operação no Porto Digital, no Recife, que chegou a cerca de 440 profissionais em menos de um ano. A base já concentra perto de 10% do quadro brasileiro.
“Pretendemos continuar investindo no escritório lá”, diz Falcão. O executivo afirma que o plano é chegar a 1.000 pessoas no Recife até o fim de 2027.
Além de ampliar a capacidade de entrega, o escritório cumpre outro papel. Durante a pandemiae o avanço do trabalho remoto, a empresa espalhou profissionais pelo país. Agora, segundo Falcão, ter polos maiores ajuda a manter equipes próximas e a transmitir a cultura interna.
O segundo motor apontado por Falcão para a expansão não é uma nova plataforma nem uma aquisição. É treinamento.
A empresa mantém o START, programa gratuito destinado inclusive a pessoas sem experiência anterior em tecnologia. As trilhas passam por cloud, Java, Salesforce e ServiceNow e têm mais de 200 horas de conteúdo.
Até agora, foram mais de 84 mil inscritos, 21 mil formados e 710 contratados pela companhia.
A lógica é criar uma porta de entrada para posições que, se buscadas apenas entre profissionais experientes, enfrentam um mercado mais disputado. Falcão diz que a empresa também evita impor um intervalo fixo entre promoções para quem entra nesses programas: quem demonstra capacidade para assumir uma função maior pode avançar mais rapidamente.
“Mais do que pessoas competentes, com competências e experiência, nós conseguimos acessar profissionais que têm fome de crescimento”, diz.
O próprio COO foge do currículo típico de um executivo de tecnologia. Falcão é formado em propaganda e marketing pela ESPM, começou a carreira como trainee do Unibanco, passou por Deloitte, Ernst & Young, BearingPoint e T-Systems e entrou na Capgemini em 2018.
No programa de formação, a variedade é ainda maior. Falcão cita profissionais que chegaram à tecnologia depois de trabalhar como motorista de aplicativo, atendente de enfermagem e consultora da Avon.
“O motor desse crescimento é, como eu disse, qualidade na entrega e capacitação dos profissionais”, afirma.
