A batalha pelas CPUs: o plano da Nvidia para dominar o mercado de PCs

A Intel dominou a computação pessoal por quatro décadas. A AMD levou anos para arranhar esse domínio. A Apple levou três anos para provar que dava para fazer diferente, enquanto a Qualcomm tentou e ficou com apenas 0,8% do mercado. Agora, na segunda-feira, 1º, Jensen Huang entrou na fila. Com a Nvidia no páreo, a batalha agora inclui também a empresa mais valiosa do mundo.
A Nvidia anunciou o RTX Spark, seu primeiro chip completo para computadores pessoais na Computex de Taipei.
Ao contrário dos processadores tradicionais, o chip combina CPU de 20 núcleos, GPU Blackwell com 6.144 CUDA cores e até 128 GB de memória unificada num único componente — o mesmo conceito que tornou oApple Silicon dominante, mas dessa vez para Windows.
A diferença é que, além do hardware, a Nvidia chegou com o ecossistema preparado: três anos de trabalho conjunto com a Microsoft, Adobe reformulando Photoshop e Premiere para a nova plataforma e os principais desenvolvedores de jogos adaptando seus títulos.
A proposta central é rodar modelos de inteligência artificial diretamente no dispositivo, sem depender da nuvem e com desempenho que, segundo a própria Nvidia, coloca seus laptops no nível de consoles de videogame.
Por que agora
O mercado de processadores para computadores pessoais ficou estagnado por quase uma década.
As vendas globais de PCs caíram de 365 milhões de unidades em 2011 para cerca de 260 milhões em 2015, à medida que smartphones e tablets absorviam a atenção e o investimento da indústria.
AIntel, que detinha quase 80% do mercado de CPUs para PCs em meados dos anos 2010, viu seu domínio se tornar um problema: não havia crescimento real para capturar. O mercado existia, mas não expandia.
A IA agêntica mudou esse cálculo. Modelos que executam tarefas complexas de forma autônoma, reservar viagens, corrigir bugs, editar vídeos, precisam rodar no próprio dispositivo do usuário, com baixa latência, sem depender da nuvem. Isso tornou a CPU do computador pessoal estrategicamente relevante outra vez.
O mercado global de CPUs, incluindo PCs, servidores e dispositivos móveis, foi avaliado em US$ 79,2 bilhões em 2025 e deve chegar a US$ 119,7 bilhões até 2033, crescendo a uma taxa anual de 5,3%, segundo a SkyQuest.
O segmento de computadores pessoais responde por mais de 41% da receita total do mercado de microprocessadores, segundo a Precedence Research.
"Se você olhar a evolução dos CPUs, os saltos eram enormes. Depois, houve uma estabilização. Ainda não chegamos a esse ponto com CPUs e GPUs no contexto atual de IA", diz Fabro Steibel, diretor executivo do ITS Rio, em entrevista à EXAME.
A diferença agora é que a pressão não vem de mais velocidade bruta de processamento, mas da necessidade de rodar modelos de IA localmente, com privacidade e sem custo de nuvem.
"Quanto mais centralizado for o processamento local, maior tende a ser a proteção de dados, porque há menos intermediários", diz Steibel.
O que a Qualcomm não conseguiu — e o que isso diz sobre a Nvidia
A Qualcomm chegou primeiro com a linha Snapdragon X para Windows e não decolou. O hardware era competente.
O problema foi o ecossistema: a Microsoft demorou para garantir compatibilidade de software e os desenvolvedores não migraram.
As vendas ficaram abaixo de 1% do mercado de PCs no terceiro trimestre de 2024, segundo dados da Canalys. A ABI Research projetou que PCs com arquitetura Arm não devem superar 13% do mercado em 2025 — apesar de o CEO da Qualcomm ter declarado publicamente que esperava atingir 50% em cinco anos.
A Nvidia chegou com uma vantagem estrutural que a Qualcomm não tinha: três anos de trabalho conjunto com a Microsoft para garantir compatibilidade com o ecossistema Windows for Arm antes do lançamento.
A Adobe está reformulando o Photoshop e o Premiere para o RTX Spark. Blackmagic Design, Blender e CapCut confirmaram suporte. Os principais desenvolvedores de jogos estão adaptando títulos e sistemas anti-cheat para a nova plataforma.
Mas Steibel tem uma ponderação. "O mercado de CPUs é bastante complexo. Só faz sentido produzir chips em larguíssima escala. Existem muitas questões comerciais e de cadeia de suprimentos para afirmar que a Nvidia terá grande sucesso em CPUs. Veja a Apple: ela desenvolveu seus próprios processadores, o que foi um acerto, mas ainda enfrenta desafios, mesmo após cerca de seis anos nessa estratégia", diz.
A concentração que a Nvidia já tem em GPUs, acrescenta, não se replica automaticamente. "A entrada em CPUs acende um alerta, porque pode afetar outros mercados relacionados. Mas ainda é cedo para imaginar o sucesso que ela terá nesse segmento."
Wall Street consagra o vencedor, mas por enquanto
Apesar da cautela, a reação dos mercados aponta para uma vitória da Nvidia — ao menos em Wall Street. Às 15h33 de segunda, no horário de Brasília, a companhia de Huang era avaliada em US$ 5,4 trilhões.
É um número que diz muito sobre o que o mercado acha que vai acontecer. A Nvidia entrou num segmento que a Intel dominou por 40 anos, que a AMD levou décadas para disputar e que a Qualcomm não conseguiu arranhar — e o mercado precificou isso como vitória antes mesmo de um único laptop ser vendido.
Se isso é suficiente para mudar um mercado que resistiu a décadas de tentativas, o outono americano vai responder.
