A BrasilAgro mudou a estratégia para 2026/27 — e o El Niño tem a ver com isso
Companhia reduz área de algodão, concentra plantio em regiões mais seguras e aposta em milho e irrigação para reduzir volatilidade

A previsão de um El Niño forte fez a BrasilAgro reduzir a aposta no algodão na safra 2026/27. A estratégia da companhia foi cortar em 70% a área de algodão de primeira safra e concentrar o cultivo em áreas irrigadas, onde o risco de perda de produtividade é menor.
A mudança, porém, não se restringe ao algodão. A empresa redesenhou o planejamento da safra 2026/27 para reduzir a exposição a áreas de maior risco climático e priorizar culturas com melhor relação entre risco e retorno.
“Você não tem uma bala de prata para resolver o problema do El Niño. O que você faz é uma somatória de decisões”, disse André Guillaumon, CEO da BrasilAgro, em coletiva com jornalistas.
No exercício encerrado em junho de 2026, o algodão já mostrou os desafios enfrentados pela companhia. A receita com algodão pluma chegou a R$ 82,2 milhões, alta de 3% na comparação anual, mas a margem bruta da cultura ficou negativa em 23%, contra uma margem positiva de 20% em 2025, pressionada pela queda de preços e pelo aumento do custo unitário.
Para a próxima safra, a companhia reduziu drasticamente a área de algodão de primeira safra, enquanto o algodão de segunda safra avançou 36%, principalmente em áreas irrigadas.
“Quando a gente tomou essa decisão, o preço estava comprimido. O algodão é uma cultura de custo de capital alto e tem uma volatilidade climática muito grande”, disse Guillaumon.
A escolha pelo algodão também envolve uma questão de custo. Em um ambiente de Selic a 14% ao ano, o alto investimento necessário por hectare aumenta o peso do capital na decisão.
Segundo Guillaumon, a comparação entre retorno e capital investido foi determinante para reduzir a exposição à cultura, que ainda combina maior risco climático e dependência dos preços internacionais.
“A gente está falando de uma cultura de R$ 14 mil, R$ 15 mil por hectare. Quando você olha uma margem EBITDA da soja e compara com o algodão naquele momento, não fazia sentido correr esse risco”, afirmou.
A estratégia agora é concentrar o algodão em áreas onde a companhia consegue controlar melhor a variável climática. “No algodão irrigado você reduz a volatilidade produtiva. No algodão de sequeiro, com o risco do El Niño, não fazia sentido aumentar exposição”, explicou.
A mudança não significa abandonar a cultura. O algodão continua no portfólio, mas dentro de uma lógica mais seletiva, com menor volume e maior previsibilidade.
BrasilAgro 2025/26
O movimento de ajuste no algodão acontece em um momento em que a BrasilAgro busca equilibrar crescimento operacional e controle de risco. O resultado de 2026 mostra esse processo. A companhia teve melhora em algumas culturas, mas enfrentou pressões vindas justamente dos negócios mais expostos a custos elevados e condições de mercado adversas.
No exercício encerrado em junho deste ano, a companhia registrou receita líquida operacional de R$ 891,7 milhões, alta de 2% em relação ao ano anterior. O EBITDA Ajustado Operacional chegou a R$ 97,3 milhões, crescimento de 11%, impulsionado principalmente pela melhora dos resultados de soja, milho e operações de hedge.
O resultado final, porém, refletiu os desafios do ciclo. A companhia encerrou o exercício com prejuízo líquido de R$ 90 milhões, contra lucro de R$ 138 milhões em 2025. A diferença foi explicada principalmente pela menor contribuição das vendas de fazendas, que haviam gerado R$ 180,1 milhões de ganho no ano anterior, e pela pressão da cana-de-açúcar.
Dentro do balanço, o algodão aparece como uma das culturas que mais evidenciam a mudança de estratégia.
Enquanto a soja aumentou sua margem bruta para 20% em 2026 e o milho avançou para 21%, o algodão pluma terminou o período com margem negativa de 23%, afetado pela queda de preços e pelo aumento do custo unitário.
Safra 2026/27
O El Niño mais forte, que deve chegar ao Brasil a partir de outubro, também alterou outras decisões da companhia. Para a safra 26/27, a BrasilAgro manteve a área total praticamente estável, em 165,2 mil hectares, mas mudou o desenho do plantio.
A companhia reduziu a área de soja em 5%, eliminou o feijão safrinha, aumentou o milho de primeira safra em 22% e ampliou as pastagens em 21%.
Segundo Guillaumon, parte da estratégia foi retirar áreas novas ou de maior risco produtivo do calendário agrícola. Áreas em formação têm maior sensibilidade a eventos climáticos porque ainda não atingiram todo o potencial de fertilidade.
“Uma área de 20 anos, se acontece uma seca, o produtor perde 15% ou 20% da produção. Uma área nossa de primeiro ou segundo ano pode perder 60% ou 70%, porque ainda não tem a fertilidade consolidada”, afirmou.
A empresa também ampliou a capacidade operacional para reduzir o risco de perder a janela ideal de plantio, uma preocupação que pesa, segundo o CEO, em anos com maior irregularidade climática, como é o caso da safra 2026/27.
A mudança no mix acontece depois de uma safra em que os grãos tiveram desempenho melhor que outras culturas. A soja alcançou 245,6 mil toneladas produzidas, crescimento de 14% em relação ao ciclo anterior, enquanto a receita da cultura aumentou 22%, para R$ 444,8 milhões.
A melhora operacional ajudou a companhia a entregar EBITDA Ajustado Operacional de R$ 97,3 milhões em 2026, alta de 11% sobre o ano anterior. O resultado final, porém, foi afetado por outros fatores, como a menor contribuição das vendas de fazendas e a pressão na cana-de-açúcar.
