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09/07/2026
10 min

A cidade no Pará que deixou de desmatar e atraiu 15 milhões de euros para restaurar florestas

A cidade no Pará que deixou de desmatar e atraiu 15 milhões de euros para restaurar florestas

A 320 quilômetros de Belém, uma cidade no sudeste do Pará tenta transformar a restauração em negócio. Paragominas quer se tornar uma referência em um modelo de bioeconomia que aposta na recuperação de áreas degradadas sem abrir mão da produção rural — combinando sistemas agroflorestais, pecuária regenerativa, crédito verde e novas formas de produzir na Amazônia.

A ideia é que recuperar a vegetação deixe de ser apenas uma obrigação ambiental e passe a fazer parte da estratégia econômica das propriedades, aumentando a produtividade, recuperando o solo, formando corredores florestais e criando novas oportunidades de renda para pequenos e grandes produtores.

A transformação acontece depois de décadas de pressão sobre a floresta. Até 2008, cerca de 878 mil hectares, o equivalente a aproximadamente 45% do território municipal, já haviam sido desmatados. Hoje, Paragominas concentra projetos de restauração, crédito de carbono, sistemas agroflorestais e pecuária de baixa emissão de carbono, tornando-se um dos municípios amazônicos que mais atraem iniciativas ligadas à bioeconomia.

O movimento acompanha uma mudança mais ampla no país. O Brasil reúne cerca de 100 milhões de hectares de pastagens degradadas com potencial de recuperação, e um estudo do World Resources Institute (WRI) estima que a restauração pode adicionar US$ 141 bilhões à economia brasileira até 2050.

Em maio, durante o Bioeconomy Amazon Summit (BAS) 2026, em Belém, a EXAME passou dois dias em Paragominas para acompanhar a Trilha da Restauração, uma imersão organizada no âmbito do Programa AMABIO, financiado pela Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) e implementado pela Expertise France, com participação do CIRAD (Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento), Banco da Amazônia, Embrapa, prefeitura de Paragominas e outros parceiros.

Além dos programas regionais voltados à Amazônia, Paragominas concentra mais de 15 milhões de euros em projetos identificados de cooperação técnica e investimentos diretos ligados à bioeconomia, restauração florestal e agricultura regenerativa. Entre eles estão iniciativas como o TERRAMAZ, Sustenta & Inova, FeffAccion e o próprio AMABIO, além de projetos conduzidos por empresas e organizações como Hydro, Carbonext, Suzano, CIRAD e Imazon, que financiam desde reflorestamento e crédito de carbono até sistemas agroflorestais e pecuária de baixa emissão.

A prefeitura ressalta, porém, que não existe um balanço consolidado que reúna todos os investimentos públicos e privados aplicados no município nos últimos anos.

O objetivo da viagem era aproximar representantes do sistema financeiro, organismos de cooperação internacional e produtores rurais. Segundo um diagnóstico citado pelo AMABIO, a Amazônia Legal conta com 159 mecanismos financeiros mapeados, mas apenas 23% são exclusivos para bioeconomia. Quando o recorte é a sociobioeconomia, o percentual cai para 13%.

O próprio AMABIO foi lançado com a meta de mobilizar 1 bilhão de euros em investimentos públicos e privados para a bioeconomia amazônica. A AFD já destinou 80 milhões de euros ao Banco da Amazônia como primeira parcela de uma linha que pode chegar a 250 milhões de euros, enquanto a Expertise France conduz uma cooperação técnica de 7 milhões de euros. Paragominas está entre os principais territórios beneficiados pela iniciativa.

Como o dinheiro chega ao território

Para Janaína Galvão, chefe de projeto da Expertise France, a visita tinha uma função prática: tirar o debate sobre bioeconomia das salas de conferência e levá-lo para as propriedades rurais.

“A gente montou essa atividade de vir a Paragominas para aproximar investidores, representantes do sistema financeiro e agências de cooperação internacional, para trazê-los para o território e poder ver exatamente o que é a bioeconomia, o que é a restauração florestal, o que é um SAF”, afirmou Janaína durante a visita.

Os Sistemas Agroflorestais (SAFs) são modelos de produção que combinam árvores, culturas agrícolas e, em alguns casos, criação de animais na mesma área. Em vez de substituir completamente a vegetação nativa por uma única cultura, o sistema busca reproduzir parte da dinâmica da floresta, aumentando a diversidade, protegendo o solo e criando novas fontes de renda.

Em Paragominas, o modelo aparece principalmente em propriedades que cultivam cacau junto a espécies florestais, como cumaru e açaí, reduzindo a necessidade de abrir novas áreas para produção. 

Janaína Galvão: chefe de projeto da Expertise France defende levar investidores e bancos ao território para aproximar financiamento e bioeconomia. (Expertise France/Divulgação)

A organização da trilha também teve participação de Tienne Barbosa, coordenadora de Finanças Verdes da Expertise France. Segundo ela, a lógica do projeto é reduzir a distância entre os instrumentos financeiros disponíveis e a realidade de agricultores que trabalham com sazonalidade, cadeias curtas, informalidade e garantias difíceis de encaixar nos modelos tradicionais de crédito.

Esse também é o pano de fundo do Pecuária Verde, produto financeiro do Banco da Amazônia que tem Paragominas como território-piloto. O modelo prevê crédito rural associado à regularização ambiental, recuperação de áreas degradadas e adoção de boas práticas produtivas.

Um pequeno produtor que virou referência local

A primeira parada da EXAME foi na propriedade de Rivelino Angelo Rabelo, na comunidade Potiritá. Natural de Nova Venécia, no Espírito Santo, ele chegou a Paragominas em 1989, aos 19 anos, depois de crescer em uma família de agricultores.

No Espírito Santo, a terra do avô havia sido dividida entre oito filhos e 36 netos. O espaço ficou pequeno. No Pará, Rivelino encontrou uma área degradada, sem sombra e cercada por dúvidas sobre a fertilidade do solo.

“Quando a gente chegou nesse local, não tinha uma vegetação onde a gente pudesse esconder a cabeça para poder passar o sol”, disse Rivelino. “Mas eu trago dos meus ancestrais que onde dá muito mato é porque a terra é boa.”

Rivelino Rabelo: produtor rural em Paragominas combina cacau, roça sem fogo, composteira e pastagem rotacionada em área de agricultura familiar. (Expertise France/Divulgação)

Hoje, a propriedade combina agricultura familiar, cacau, pecuária sustentável, roça sem fogo, biodigestor, composteira e pastagem rotacionada. O produtor afirma que já recusou uma proposta de R$ 2 milhões para vender a terra.

“Eu aprendi que a terra tem muito valor para nós, para nossa sobrevivência. Isso eu tenho transmitido para minha esposa, para meus filhos e para meus companheiros da comunidade”, afirmou.

A mudança veio com apoio técnico de iniciativas como Terra Mais, CIRAD, Secretaria Municipal de Agricultura e Fórum das Comunidades. Rivelino passou a produzir adubo orgânico com leite de vaca, esterco, caldo de cana, pó de rocha e cinza. Também adotou piquetes para o gado, com cerca elétrica e estacas de gliricídia, reduzindo a pressão sobre o pasto.

Casos como o de Rivelino fazem parte da estratégia da prefeitura para ampliar sistemas produtivos de baixo carbono. Entre as metas estão expandir a recuperação de áreas degradadas, incentivar sistemas agroflorestais e fortalecer programas como o Recoopera Paragominas em parceria com instituições nacionais e internacionais.

“A partir da implantação do projeto com a pastagem rotacionada, a gente começou a enxergar uma coisa: a gente consegue conviver ainda mais com as árvores de uma maneira organizada”, disse.

Como o cacau entrou na conta

A segunda visita foi à propriedade de Rui Costa, produtor de cacau em sistema agroflorestal. Em 15 hectares, ele cultiva cacau e já montou uma pequena estrutura para fabricar chocolate e derivados.

“Nós estamos mexendo no cultivo do cacau desde 2017. Estamos lutando todo dia para ver se a gente consegue. Estamos conseguindo”, afirmou Rui.

O plano agora é ampliar a diversidade da área. O produtor prepara o plantio de cerca de 1.000 árvores de cumaru, em espaçamento de 10 por 10 metros, com a intenção de agregar o ingrediente ao chocolate branco.

“Estamos tentando fazer um chocolate de qualidade, para mostrar não só para o estado do Pará, mas para o Brasil todo”, disse.

Rui Costa: produtor de cacau cultiva 15 hectares em sistema agroflorestal e já fabrica chocolate e derivados na propriedade. (Expertise France/Divulgação)

A experiência mostra um dos caminhos defendidos pelos organizadores da trilha: usar a restauração não apenas como recomposição ambiental, mas como base para novos produtos, renda e agregação de valor.

Segundo a prefeitura, ainda não existe um levantamento consolidado da área ocupada por SAFs em Paragominas. Mesmo assim, projetos em andamento preveem a implantação de 140 hectares de sistemas agroflorestais em 2026, ampliando a recuperação produtiva de áreas degradadas.

Como a pecuária entra na restauração

À tarde, a visita seguiu para a propriedade de Pércio, outro conhecido produtor da cidade, onde a discussão saiu da escala da agricultura familiar e entrou no desenho da paisagem. René Poccard, pesquisador sênior do Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento (CIRAD) e coordenador do Programa ParagoClima, conduziu a explicação em campo.

Ali, a restauração aparece conectada ao melhoramento da pastagem. A lógica é que, ao intensificar a pecuária nas áreas adequadas, outras áreas deixam de ser pressionadas e voltam a formar corredores florestais.

“O que a gente vai ver na paisagem é a dinâmica de restauração florestal integrada com o melhoramento da pastagem”, afirmou Poccard. “Melhorando as pastagens, você melhora a formação dos corredores.”

Segundo ele, a pecuária tradicional na região foi historicamente baseada no fogo. Desmatava-se, queimava-se no verão, jogava-se semente na cinza, formava-se o pasto e, quando a área degradava, o fogo voltava para limpar o terreno.

A mecanização mudou parte dessa lógica. Com tratores e adubos, produtores passaram a reformar pastagens apenas onde o relevo e o solo permitiam. Nas grotas, baixadas e áreas sujeitas a alagamento, a floresta voltou a avançar.

“Você tem uma paisagem estabilizada que se regenera”, disse Poccard. “A floresta, quanto mais passam os anos, mais ela se enriquece.”

René Poccard: pesquisador do CIRAD vê na melhoria das pastagens um caminho para formar corredores florestais e recuperar a paisagem. (Expertise France/Divulgação)

A lógica também aparece em outras iniciativas da região. Desde 2009, a Hydro informa ter reflorestado mais de 3.000 hectares em Paragominas, incluindo um projeto-piloto de plantio com drones em uma área de 50 hectares. Em áreas privadas do município, a prefeitura estima ainda cerca de 130 mil hectares de restauração passiva, formados principalmente por florestas secundárias.

Na avaliação do pesquisador, o ponto central é que a conservação passa a ser consequência de uma decisão produtiva.

“Você consegue mesclar benefícios ambientais e econômicos a partir de um esforço produtivo, e não conservacionista”, afirmou.

Qual é o desafio para escalar

Para Poccard, Paragominas mostra que a bioeconomia precisa ser tratada como mudança concreta de uso da terra. As emissões no município, assim como em boa parte da Amazônia, estão ligadas a incêndios florestais, desmatamento, metano do gado e manejo inadequado.

“Se tiver boas práticas, outras maneiras de trabalhar tanto a floresta como as pastagens ou os sistemas agroflorestais, eles podem se tornar sequestradores ou diminuir muito suas emissões”, afirmou.

O desafio é transformar experiências locais em modelos replicáveis. Isso exige assistência técnica, crédito, políticas públicas e produtos financeiros capazes de reconhecer diferentes perfis de produtores — do agricultor familiar sem mecanização ao empresário rural de alta tecnologia.

“Para todo esse leque tem soluções possíveis”, disse Poccard.

A prefeitura afirma que pretende ampliar a recuperação de áreas degradadas, incentivar sistemas agroflorestais, fortalecer a pecuária de baixa emissão de carbono e atrair novos investimentos voltados à bioeconomia. A estratégia inclui ampliar a cooperação com instituições de pesquisa, empresas, governos e organismos internacionais para dar escala às iniciativas já em andamento.

O desafio, porém, continua sendo transformar projetos-piloto em uma política econômica permanente. Em Paragominas, esse movimento já começou em propriedades de diferentes tamanhos, onde pasto, floresta e cacau dividem espaço. A aposta é que restaurar a vegetação deixe de representar apenas um custo ambiental e passe a ser, cada vez mais, uma oportunidade de negócio.

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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