A conta chegou para Trump: falências no agro dos EUA sobem 19% em 2026
A cinco dias das eleições de meio de mandato, 57% dos eleitores rurais desaprovam a gestão econômica do presidente, segundo pesquisa

Os pedidos de falência no agronegócio dos Estados Unidos cresceram 19% nos nove primeiros meses de 2026, em meio ao aumento do endividamento e dos custos de produção, pressionados pela alta de 67% no preço do diesel desde fevereiro.
No período, foram registrados 292 pedidos de recuperação financeira pelo Capítulo 12 da legislação americana entre janeiro e setembro, ante 246 no mesmo período de 2025. Somente no terceiro trimestre, foram contabilizados 91 pedidos em todo o país, segundo dados do sistema federal defalências dos EUA.
O Capítulo 12 é um mecanismo da legislação americana destinado à reorganização financeira de agricultores familiares e pescadores que enfrentam dificuldades para pagar suas dívidas. O instrumento permite reestruturar obrigações financeiras sem necessariamente encerrar as atividades produtivas.
A deterioração das condições financeiras também aparece nas projeções do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). A dívida agrícola deve alcançar US$ 605,1 bilhões em 2026, crescimento nominal de 4,5% no ano e de 44% desde 2019, atingindo o maior valor da série dos últimos sete anos.
Desse total, os financiamentos imobiliários agrícolas devem somar US$ 399 bilhões, alta nominal de 4,6% e real de 1,6%. Já as dívidas não imobiliárias, utilizadas principalmente para custear as operações das fazendas, devem atingir US$ 206,1 bilhões, avanço de 4,4% em termos nominais e de 1,4% descontada a inflação.
“A solvência do setor agrícola deverá piorar em 2026 em relação a 2025, com a dívida crescendo a uma taxa mais rápida do que os ativos ou o patrimônio líquido”, afirma o USDA em suas projeções para o setor.
Um dos indicadores dessa deterioração é a relação entre dívida e ativos, que deve passar de 13,34% em 2025 para 13,54% em 2026. Quanto maior o percentual, maior a parcela do patrimônio das propriedades comprometida com obrigações financeiras.
A liquidez também preocupa. Segundo o USDA, o capital de giro das fazendas, recurso disponível para financiar as operações após o pagamento das obrigações de curto prazo, deve crescer 3,5% nominalmente neste ano, depois de ter recuado 15% em 2025.
Diesel mais caro
O aumento do endividamento ocorre em um momento em que os produtores americanos enfrentam dificuldades para preservar suas margens de lucro. Além dos juros elevados e dos preços mais baixos de algumas commodities, a disparada do diesel acrescentou uma nova pressão sobre os custos agrícolas.
Desde fevereiro, o combustível utilizado para movimentar tratores, colheitadeiras e outros equipamentos ficou mais de 67% mais caro. A alta atingiu os produtores durante etapas importantes do calendário agrícola, como o plantio e a colheita, quando o consumo de combustível tende a ser maior.
Na semana passada, em uma tentativa para mitigar os impactos sobre o setor, o presidente americano anunciou um pacote de US$ 8 bilhões em ajuda os agricultores.
Por trás da valorização está a guerra no Oriente Médio, iniciada em fevereiro com a ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. O conflito atravessou períodos de uso intensivo de máquinas agrícolas e agravou as dificuldades de um setor que já enfrentava os efeitos das tensões comerciais com a China.
Com combustível, financiamento e outros insumos pressionando as despesas, os produtores encontram menos espaço para preservar a rentabilidade, especialmente quando os preços recebidos pelas commodities não acompanham o aumento dos custos.
Embora o encarecimento do diesel faça parte desse cenário, os dados de falência não permitem atribuir diretamente ao combustível o crescimento dos pedidos de recuperação financeira.
Para Harrison Pittman, diretor do Centro Nacional de Direito Agrícola (NALC), os registros judiciais ajudam a dimensionar as dificuldades enfrentadas pelo setor.
“O número de pedidos de falência ao abrigo do Capítulo 12 apresentados neste trimestre ressalta as significativas pressões financeiras que a agricultura dos Estados Unidos enfrenta”, afirmou Pittman.
Agro dos EUA e as eleições de meio de mandato
O problema para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é que essa pressão recai justamente sobre uma de suasbases eleitorais mais fiéis. Em 2024, o republicano recebeu 78% dos votos nos condados cuja economia depende da agricultura. Entre os eleitores rurais, conquistou 69% dos votos, segundo o Pew Research Center.
Agora, a cinco dias das eleições de meio de mandato, as chamadas midterms, que renovarão as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e cerca de um terço das 100 vagas do Senado, o agravamento das dificuldades financeiras no campo pode se tornar um obstáculo político para os dois anos restantes do mandato do presidente.
Mesmo antes da guerra no Irã, os efeitos da crise já apareciam na estrutura do setor. Em 2025, os pedidos de falência agrícola cresceram 46% em relação ao ano anterior, enquanto o número de propriedades rurais voltou a diminuir.
Segundo relatório do USDA, os Estados Unidos encerraram 2025 com 1,865 milhão de fazendas, 15 mil a menos do que em 2024.
A combinação de custos elevados, endividamento crescente e tensões comerciais ajuda a explicar por que o descontentamento econômico ganha espaço entre os eleitores rurais.
O desgaste já aparece nas pesquisas de opinião, levantando dúvidas sobre a mobilização de um eleitorado que foi decisivo para a vitória republicana em 2024.
Uma pesquisa AP-KFF realizada em agosto mostrou que 57% dos eleitores rurais desaprovavam a condução daeconomia por Trump. Mesmo entre os republicanos dessas regiões, 27% manifestaram desaprovação.
O levantamento também identificou uma diferença no entusiasmo eleitoral. Republicanos rurais insatisfeitos com a gestão econômica eram “substancialmente menos propensos” a afirmar que certamente votariam em novembro do que aqueles que aprovavam o governo.
O custo de vida aparece entre as principais preocupações. Três em cada quatro eleitores rurais classificaram o custo de vida em suas comunidades como “razoável” ou “ruim”.
Os sinais de desgaste já haviam surgido meses antes. Uma pesquisa Reuters/Ipsos, realizada em junho, mostrou que a aprovação de Trump entre os americanos rurais havia caído para 50%, o menor nível registrado até então. Apenas 31% aprovavam sua condução da economia.
Para os republicanos, o risco não está necessariamente em perder agricultores para os democratas, mas em ver parte de sua base rural deixar de comparecer às urnas.
