A contradição da abundância: como conectar o desperdício alimentar à agenda das empresas
Enquanto a agropecuária brasileira amplia sua produção, perdas invisíveis revelam uma ineficiência que custa caro para empresas, sociedade e clima

*Por Daniela Teston e Luiza Soares
O Brasil orgulha-se de seus sucessivos recordes de safra e da dimensão de sua produção agropecuária. Mas convive com o descarte diário de alimentos por padrões estéticos, desafios logísticos e falhas operacionais.
Este é um problema global: o desperdício de alimentos aptos para o consumo chega a US$ 1 trilhão por ano em todo o mundo e compromete 30% da produção agrícola do planeta.
Não temos métricas nacionais exatas, mas, como sétimo país mais populoso, nono maior PIB e pilar da agropecuária mundial, o prejuízo é significativo.
Alguns contrastes ajudam a dimensionar. Por um lado, a produção brasileira de grãos é estimada em 360,8 milhões de toneladas segundo o 11º Levantamento da Safra de Grãos 2025/2026, da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Arroz e feijão, base da dieta nacional, representam 11,1 milhões de toneladas de arroz em casca e 3 milhões de toneladas de feijão.
Ao mesmo tempo, cerca de 8 milhões de brasileiros enfrentam insegurança alimentar severa, quando a comida acaba e as pessoas passam dias sem comer, mesmo depois de o país ter deixado o Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) há dois anos.
E aproximadamente um quarto da população, cerca de 50 milhões de pessoas, não tem renda suficiente para custear uma dieta saudável com frutas, legumes, verduras e fontes adequadas de nutrientes.
A perda e o desperdício de alimentos ainda costumam ser tratados como questões pontuais de descarte ou eficiência operacional, embora causem impactos econômicos, sociais e ambientais e envolvam diversos atores.
Pesquisa sobre perda e desperdício de alimentos realizada em 2025 pelo Instituto Akatu, em parceria com a Market Analysis e apoio do WWF-Brasil e da WRAP, mostra que a maior parte da população atribui a responsabilidade principalmente ao governo, seguido por supermercados e indústrias, colocando o consumidor em segundo plano.
E quase todos os brasileiros (93,9%) associam o desperdício diretamente à perda de dinheiro.
Para as empresas, o argumento financeiro também é relevante.
Muitas delas ainda não sabem quanto perdem, onde as perdas acontecem nem quais são as causas. Algumas já estruturaram processos de mensuração, estabeleceram metas e acompanham indicadores, reduzindo custos associados ao desperdício.
Outras estão nos primeiros passos ou sequer começaram. Sem dados, fica difícil estabelecer prioridades e transformar ações isoladas em processos consistentes.
No campo social, também é preciso melhorar a identificação de excedentes e sua conexão com redes de distribuição, com sistemas mais eficientes e atenção à qualidade nutricional das doações.
Diminuir o desperdício de alimentos também reduz a pressão por novas áreas produtivas.
Mesmo com a queda dos alertas de supressão de cobertura vegetal no Brasil, a derrubada de vegetação nativa permanece elevada. Na Amazônia, os dados de 2025 mostram redução de 20,6% em relação a 2024, mas a expansão agropecuária e a especulação imobiliária continuam entre os vetores da conversão.
Há ainda uma outra dimensão pouco incorporada às estratégias empresariais.
Segundo o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima, cerca de 75% das emissões brasileiras de gases de efeito estufa vêm da mudança no uso da terra e da agropecuária.
Quando um alimento é produzido e não consumido, perdem-se o produto e todos os recursos naturais e energéticos usados ao longo da cadeia, mas não as emissões geradas na produção, processamento, transporte, armazenamento, comercialização, consumo e descarte, que continuam na conta climática.
O tema se conecta diretamente ao Acordo de Paris, ao Compromisso Global de Metano, voltado à redução de um dos gases mais potentes emitidos por alimentos em aterros, e ao ODS 12.3, que prevê reduzir pela metade o desperdício até 2030.
A inclusão de Desperdício Zero e Segurança Alimentar entre os temas prioritários da Action Agenda da COP31 reforça essa conexão.
A iniciativa busca acelerar as metas do Acordo de Paris mobilizando e reconhecendo a ação climática de atores que não são governos, entre eles as empresas.
Para o setor privado, isso aproxima a prevenção de perdas e desperdício das metas de descarbonização, dos critérios ESG e da busca por eficiência.
Nas conversas com empresas, uma das principais barreiras é a pouca presença do tema nas decisões de liderança.
Parte disso decorre de uma cultura de abundância que naturalizou o descarte como subproduto das operações.
Experiências internacionais mostram que a ação conjunta pode produzir resultados.
A WRAP, na Inglaterra, acumula 20 anos de atuação e reduziu o desperdício per capita em 22% entre 2019 e 2024.
Inspirado em pactos desse tipo, o programa Brasil Sem Desperdício (BSD), liderado pelo WWF-Brasil, busca adaptar essa lógica ao contexto brasileiro por meio de um acordo multissetorial, cuja escala depende da participação do setor privado.
Hoje, 11 grandes empresas já participam do movimento e avançam na definição, mensuração e redução de perdas, além de discutir redistribuição de excedentes e demandas fiscais com outras organizações e governos.
É um começo, mas ainda pequeno diante da dimensão do problema no país.
Em um desafio que nasce em grande medida das cadeias produtivas e de consumo, o setor privado precisa reconhecer seu papel na causa e na solução.
O desperdício de alimentos reúne ineficiência econômica, pressão ambiental e injustiça social.
Os argumentos já estão postos.
O próximo passo é ampliar o número de empresas dispostas a medir, reduzir e prevenir perdas em escala compatível com o tamanho do problema.
*Daniela Teston é diretora de Relações Corporativas do WWF-Brasil e Luiza Soares é líder do programa Brasil Sem Desperdício pelo WWF-Brasil.
