A corrida para 2030: energia limpa bate recorde no mundo, mas capacidade precisa mais que dobrar
Relatório da IRENA divulgado durante a Semana do Clima de NY aponta que as renováveis evitaram quase US$ 500 bi em custos; Em discurso, Simon Stiell afirmou que “a transição é irreversível”

A transição energética é irreversível, mas ainda não avança na velocidade exigida pela crise climática.
O alerta foi feito por Simon Stiell, secretário-executivo da ONU para Mudanças Climáticas, em discurso durante a Semana do Clima de Nova York, ao comentar os novos dados da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA).
Divulgado nesta segunda-feira, 21, o relatório dimensiona o desafio: apesar do recorde de energias renováveis no mundo em 2025, a capacidade de geração precisará mais que dobrar até 2030.
A corrida até o final desta década busca alcançar um acordo firmado por quase 200 países na COP28, em Dubai: triplicar a capacidade global de fontes limpas e dobrar o ritmo de melhoria da eficiência energética até 2030.
Para cumprir a primeira meta, o mundo precisa alcançar 11,2 terawatts (TW) de capacidade renovável instalada. Ao fim de 2025, havia chegado a 5,15 TW.
Isso significa que, nos próximos cinco anos, será necessário adicionar mais capacidade do que em todos os anos anteriores somados.
Em 2025, foram instalados 693 gigawatts (GW) de nova capacidade renovável, o maior volume já registrado. Ainda assim, a média anual terá de subir para 1.200 GW entre 2026 e 2030, ou cerca de 73% acima do resultado do último ano.
“Destacar os avanços não é sinal de complacência. É essencial para combater a desinformação e mostrar que esta é uma batalha que podemos vencer”, disse Stiell, no discurso. E complementou: “Este é o momento de ampliar a mobilização e reduzir a distância entre as promessas e as ações concretas.”
Essa é a terceira avaliação sobre o avanço das metas energéticas do acordo da COP28. A menos de dois meses da COP31, em Antália, o documento foi elaborado pela IRENA em parceria com a Presidência turca da conferência e a Global Renewables Alliance.
O pano de fundo é de urgência: a ONU alertou recentemente para uma ultrapassagem temporária do limite de 1,5 °C de aquecimento global, com impactos cada vez mais perigosos para as sociedades e as economias.
“Trazer o aumento da temperatura global de volta a 1,5 °C exigirá, inequivocamente, cortes muito maiores na poluição causada pelos combustíveis fósseis que aquecem o planeta”, afirmou o secretário-executivo.
Stiell também reforçou que o avanço da agenda climática depende de cooperação internacional, com foco na implementação das metas, dos planos e dos compromissos assumidos pelos países.
“Este é o momento de redobrar a aposta no multilateralismo climático, que constitui o alicerce dos avanços alcançados pelo mundo até agora”, disse.
Segundo ele, a atuação das Nações Unidas, somada aos esforços nacionais, já ajudou a reduzir a projeção de aumento da temperatura global de mais de 4 °C para 2,6 °C.
“O Acordo de Paris e as demais COPs também ajudaram a desencadear uma revolução energética”, afirmou.
Stiell ponderou, porém, que essa transformação ainda ocorre de forma desigual e que os países mais vulneráveis precisam de apoio para participar "plenamente do processo".
Quanto as energias renováveis já pouparam
Embora o ritmo ainda seja insuficiente para cumprir a meta de 2030, o avanço das fontes renováveis já produz efeitos econômicos. Segundo o relatório da IRENA, a expansão global das energias renováveis evitou quase US$ 500 bilhões em gastos com combustíveis fósseis.
“Graças às renováveis em todo o mundo, a humanidade evitou quase meio trilhão de dólares em gastos”, reforçou Stiell, ao fazer referência a um “enorme dividendo da descarbonização”, que supera o Produto Interno Bruto (PIB) de mais de três quartos dos países do mundo.
A energia limpa também atraiu mais de US$ 2 trilhões em investimentos no último ano. Em seu discurso, Stiell afirmou que essas fontes já ultrapassaram o carvão e se tornaram a principal de eletricidade.
"As renováveis já são mais baratas em quase todos os lugares. A força bruta do mercado está se impondo", acrescentou.
A IRENA aponta também que as renováveis já foram, em 2025, a alternativa mais competitiva para a instalação de nova capacidade elétrica na maioria dos mercados.
A energia solar lidera esse movimento, com sucessivos recordes de expansão, e [grifar]deve se consolidar como a espinha dorsal da transição energética global.
A expectativa é que a média anual de nova capacidade solar líquida dobre até 2030 em comparação com o patamar de 2025.
Se o avanço projetado se confirmar, fontes variáveis, como a solar e a eólica, deverão superar toda a capacidade instalada baseada em combustíveis fósseis e representar cerca de 62% da capacidade mundial de geração em 2030. Em 2025, essa participação era de 35%.
Para Ben Backwell, presidente da Global Renewables Alliance, as recentes crises geopolíticas recolocaram a segurança energética no centro da discussão e reforçaram o papel econômico das fontes renováveis.
“Os governos precisam mudar de marcha e transformar as renováveis em uma prioridade econômica nacional desde já”, afirmou, em nota. “O prêmio é enorme: economias mais fortes, maior segurança energética e vidas melhores".
Por que o recorde ainda não é suficiente
A instalação de novas usinas é apenas uma parte do desafio. Para Francesco La Camera, diretor-geral da IRENA, a infraestrutura necessária para sustentar a transição não está avançando no mesmo ritmo.
“As energias renováveis ainda podem reduzir a distância em relação à meta de 2030, mas a eficiência energética está ficando para trás, a demanda por eletricidade cresce mais rapidamente do que o esperado e a infraestrutura não conseguiu acompanhar a expansão”, afirmou, também em nota.
Parte desse aumento da demanda vem da expansão da inteligência artificial e dos data centers. Em seu discurso, Stiell afirmou que o setor de tecnologia precisa alinhar seu crescimento aos objetivos climáticos e ampliar o uso de fontes renováveis.
“A IA está elevando a poluição causada pelo carvão, petróleo e gás que aquece o planeta, ao mesmo tempo que aumenta os custos de energia para famílias e empresas”, afirmou.
Para o secretário-executivo, as empresas de tecnologia precisam estabelecer metas climáticas confiáveis, investir em eficiência, divulgar com transparência o consumo de energia e água e abastecer os data centers com eletricidade limpa.
“Os gigantes da tecnologia precisam começar a demonstrar por que os benefícios da IA superam seus custos em rápida escalada. Mas para a maioria, e não apenas para uma minúscula parcela da população”, disse.
O relatório estima que será necessário investir quase US$ 1 trilhão por ano em redes elétricas entre 2026 e 2030, mais que o dobro do nível registrado em 2025.
Também recomenda ampliar o uso de baterias, sistemas de armazenamento e mecanismos de flexibilidade capazes de equilibrar a oferta e a demanda de eletricidade.
Os custos das baterias caíram 30% entre 2024 e 2025 e 95% desde 2010. Com isso, projetos que combinam geração solar e armazenamento no mesmo local estão ganhando espaço.
Em 2025, essas instalações responderam por cerca de um quarto dos projetos solares de grande escala que entraram em operação no mundo.
A combinação entre geração e armazenamento permite fornecer energia renovável com maior regularidade, inclusive nos períodos em que não há sol ou vento. A IRENA defende a expansão dessas soluções para viabilizar uma oferta limpa, firme e disponível 24 horas por dia.
Outro ponto de atenção é a eficiência energética. A intensidade energética global, medida que relaciona o consumo de energia ao desempenho da economia, melhorou cerca de 2% em 2025. O resultado corresponde à metade dos 4% necessários para cumprir a meta estabelecida na COP28.
“Precisamos avançar mais rapidamente, acelerar a eletrificação e construir os sistemas necessários para sustentá-la”, disse La Camera. “A eletrificação baseada em fontes renováveis é um dos instrumentos mais poderosos de política pública para acelerar e impulsionar novas ações.”
Transição energética como questão econômica
Ao defender a aceleração da transição, Stiell afirmou que o clima deixou de ser apenas uma ameaça ambiental e passou a afetar diretamente a economia, a saúde e a segurança dos países.
“A crise climática deveria estar no topo da agenda de todos os governos”, reiterou.
Segundo o secretário-executivo, eventos extremos já reduzem a produtividade agrícola, pressionam os preços dos alimentos e ampliam a inflação. Ondas de calor também afetam o ritmo das economias, enquanto os impactos sobre a saúde aumentam os custos e sobrecarregam os sistemas.
Stiell relacionou ainda a dependência de carvão, petróleo e gás à exposição das famílias e empresas às oscilações dos mercados internacionais de energia.
“Qualquer líder que leve a sério o combate à inflação, a construção de economias fortes e a proteção dos cidadãos precisa levar a sério a redução do uso dos combustíveis fósseis que estão superaquecendo o planeta e impulsionando esta crise, assim como o fortalecimento da resiliência”, complementou.
Para ele, os países que resistirem à transição não estarão necessariamente protegendo setores tradicionais. “Estarão transferindo novas inovações, setores, empregos e salários para economias concorrentes.”
O desafio da COP31 em Antália
A COP31 será realizada sob a presidência da Turquia, país que pretende colocar a eletrificação no centro da agenda climática, mas ainda enfrenta seu próprio desafio de transição. Em 2025, o carvão respondeu por 33,6% da geração de eletricidade turca, seguido pelo gás natural, com 23%, segundo dados do Ministério de Energia e Recursos Naturais do país.
Nesse contexto, os dados da IRENA devem alimentar as discussões da conferência, que terá entre seus principais desafios reduzir a distância entre os compromissos já firmados e sua implementação na economia real.
A Presidência turca pretende colocar a eletrificação no centro da agenda. Além das metas para 2030, discute-se um novo objetivo baseado na ciência: fazer com que a eletricidade responda por 35% do consumo final global de energia até 2035.
A eletrificação é considerada um multiplicador da descarbonização. Quando abastecida por fontes renováveis, a substituição dos combustíveis fósseis em edifícios, transportes e processos industriais pode elevar a eficiência energética e, ao mesmo tempo, reduzir as emissões.
Segundo Murat Kurum, presidente designado da COP31, o cumprimento da nova meta exigirá medidas urgentes nos setores de edificações, transportes e indústria, apoiadas por redes elétricas resilientes e maior acesso a financiamento. Stiell também defendeu que a conferência fortaleça as instituições, acelere a transferência de tecnologia e ajude os países a conduzir transições justas.
A COP31 sucede a COP30, realizada em Belém, na qual, segundo Stiell, os países reafirmaram que o Acordo de Paris está funcionando e que a transição para a energia limpa é irreversível.
Na ocasião, uma coalizão de pelo menos 80 países também defendeu a criação de um roteiro para a transição para longe dos combustíveis fósseis.
“Nenhuma COP, isoladamente, pode resolver esta crise global, mas cada uma delas promove avanços significativos”, concluiu Stiell.
