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TecnologiaBDR
16/06/2026
4 min

A crise do Xbox: como a maior aquisição da história dos games não salvou a divisão

A crise do Xbox: como a maior aquisição da história dos games não salvou a divisão

Asha Sharma assumiu o comando do Xbox em fevereiro deste ano e, em menos de quatro meses, publicou um memorando interno que resume o tamanho do problema que herdou.

A receita da divisão de games da Microsoft caiu quase US$ 500 milhões ao longo de cinco anos. A margem de lucro atual é de apenas 3%. Os custos de componentes de hardware quadruplicaram desde o outono de 2025. O sistema de estúdios está, nas próprias palavras de Sharma, "superestendido". E demissões em massa estão confirmadas para julho.

O documento, coassinado por Sharma e pelo diretor de conteúdo Matt Booty, foi publicado no blog oficial do Xbox em 10 de junho. A Bloomberg confirmou que os cortes acontecerão logo após o encerramento do ano fiscal da Microsoft em 30 de junho. O Xbox também planeja cortar significativamente os orçamentos de marketing e outras áreas da empresa.

Os números que explicam a crise

O memorando de Sharma é incomumente honesto para um documento corporativo. A divisão perdeu quase US$ 500 milhões em receita anual ao longo de cinco anos, período em que a Microsoft gastou mais de US$ 20 bilhões em aquisições e expansão de estúdios, excluindo a compra da Activision Blizzard.

A margem de lucro de 3% é considerada insustentável pela própria CEO. Os custos de componentes de armazenamento já eram mais que o dobro quando Sharma chegou em fevereiro e dobraram novamente desde então, chegando a aproximadamente quatro vezes o patamar do outono de 2025, segundo o memorando citado pelo Game Developer.

O CSO Matthew Ball alertou que a crise de componentes deve durar entre dois e dois anos e meio.

Os resultados financeiros mais recentes confirmam a gravidade. No trimestre encerrado em março, a receita de games caiu 7%, para US$ 5,3 bilhões. As vendas de hardware despencaram 33%, segundo trimestre consecutivo de queda acima de 30%, e a receita de conteúdo e serviços caiu 5%.

O "Xbox Reset"

Sharma chamou sua estratégia de "Xbox Reset", um plano de 100 dias para reformular a divisão. As prioridades são claras: financiar de forma mais agressiva as maiores franquias do portfólio — Call of Duty, Halo, Gears of War e Forza —, reconstruir a infraestrutura da plataforma e explorar novos modelos de hardware mais acessíveis.

Sharma já havia reconhecido em abril que o Game Pass "ficou caro demais para jogadores". No Brasil, a assinatura mais cara passou de R$ 59,99 para R$ 119,90 ao mês. O serviço perdeu "milhões" de assinantes e acumulou mais de oito meses de queda antes de a equipe começar a corrigir o rumo, segundo o próprio memorando. Sharma cortou os preços após assumir, mas eles permanecem acima do patamar de um ano atrás.

Os estúdios em risco

A Compulsion Games, de Montreal, a Double Fine, de San Francisco, e a Ninja Theory, de Cambridge, estão em negociações para se separar do Xbox antes de serem fechadas, segundo a Bloomberg. Os três fizeram jogos premiados que não foram sucessos comerciais — South of Midnight, a série Psychonauts e Hellblade, respectivamente.

A possibilidade em discussão é que os estúdios comprem de volta suas próprias operações. Mesmo assim, demissões são consideradas inevitáveis na maioria dos cenários. Craig Duncan, chefe dos Xbox Game Studios, deixou o cargo na semana passada antes dos anúncios de demissões.

No memorando, Sharma e Booty admitiram que a expansão foi um erro estratégico. "Expandimos nosso sistema de estúdios quando precisávamos de um pipeline de conteúdo para atender a múltiplas estratégias de assinatura, streaming e dispositivos", escreveram. "No processo, nos encontramos superestendidos."

O paradoxo da Activision

A crise chega num momento paradoxal. O Xbox enfrenta todas essas dificuldades apesar de ter concluído em 2023 a maior aquisição da história dos videogames: a compra da Activision Blizzard por US$ 68,7 bilhões. O negócio trouxe franquias como Call of Duty, World of Warcraft e Candy Crush, mas não impediu a queda de receita que levou Sharma a decretar o reset.

A The Information reportou em 12 de junho que a Microsoft está considerando transformar o Xbox numa joint venture, spin-off independente ou subsidiária reestruturada, o que ampliaria o escopo da crise muito além das demissões. Nenhuma reestruturação é iminente, mas todas as opções estão sob avaliação ativa, segundo o MLQ News.

Seamus Blackley, cofundador do Xbox, disse em fevereiro que o console pode estar sendo descontinuado gradualmente pela Microsoft,afirmação que a empresa nega.

A pergunta que a indústria está fazendo agora não é mais se o Xbox vai mudar. É se a Microsoft ainda sabe que tipo de empresa de games quer que o Xbox seja.

AutorTamires Vitorio
FonteExame
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