A economia das secas: falta de água afeta indústria europeia e pode custar 180 bi de euros
Com dezenas de rios e reservatórios registrando seus mais baixos níveis mensais da história, a economia europeia enfrenta dificuldades econômicas diretamente decorrentes do aquecimento global

Uma série de secas de proporções históricas está impondo custos crescentes à economia europeia, afetando desde o transporte de cargas até a produção de energia, a agricultura e a indústria, segundo o Financial Times (FT). Com os rios em níveis excepcionalmente baixos, as empresas já precisam adaptar suas operações para lidar com a escassez de água.
Por exemplo, no porto holandês de Roterdã, um dos maiores e mais movimentados da Europa, embarcações que utilizam o rio Reno navegam com apenas 30% de sua capacidade.
A redução do peso é uma medida necessária para evitar que os navios encalhem em trechos de águas mais rasas. Essa mudança elevou os custos logísticos e afetou a eficiência das operações: operadores passaram a contratar cerca de 100 embarcações de carga adicionais por semana e, mesmo assim, não conseguem transportar todo o volume de mercadorias que movimentavam anteriormente.
Para a autoridade portuária de Roterdã, trata-se de um dos episódios mais significativos enfrentados pelo setor nas últimas décadas. O problema também expõe a vulnerabilidade das cadeias de abastecimento europeias diante de eventos climáticos extremos.
O impacto econômico da seca pode chegar a pelo menos 50 bilhões de euros para toda a Europa no curto prazo, segundo estimativas do FT. O valor pode aumentar consideravelmente caso a falta de água se prolongue, enquanto o impacto combinado da onda de calor pode chegar a 180 bilhões de euros.
Calor e crise
Termômetro de rua registra 44 graus em Sevilha, na Espanha. País é um dos mais afetados pelas ondas de calor que assolaram a Europa este ano (AFP) (AFP/AFP)
Apesar do contexto atual de dificuldades, o continente começou o ano com médias de saturação do solo e de volumes de chuva superiores ao normal em fevereiro. Em abril, a situação começou a se deteriorar e, em maio, se intensificou ainda mais por causa das ondas de calor consecutivas e sem precedentes.
Subsequentemente, com os meses de junho e julho mais quentes já registrados, grandes regiões da Europa agora enfrentam as fortes secas. A previsão de poucas chuvas nas próximas semanas aumenta a preocupação quanto à continuidade do déficit hídrico em rios, reservatórios e solos.
Por todo o continente, dezenas de rios batem novos recordes, atingindo seus níveis mais baixos já registrados em médias mensais: entre eles estão importantes rotas comerciais e fontes de irrigação, como o Reno, o Danúbio, o Pó, na Itália, o Ródano, que atravessa a Suíça e a França, e até o Tâmisa, que corta Londres.
O Reno é um dos principais corredores de transporte do continente e desempenha um papel fundamental para a indústria alemã, mas ainda assim é vulnerável às secas: em 2018, uma seca provocou uma queda estimada de 0,4% no Produto Interno Bruto da Alemanha, o que hoje equivale a cerca de 18 bilhões de euros.
Desta vez, entretanto, os níveis dos rios já estão abaixo dos registrados naquele episódio e a seca começou mais cedo. Estudos citados pelo FT indicam que um mês inteiro de baixa vazão pode reduzir em aproximadamente um quarto o transporte fluvial e cortar em cerca de 1% a produção industrial alemã.
A crise hídrica também atinge o setor energético. Usinas nucleares em países como a França e a Hungria precisaram reduzir as operações pela falta de água para os sistemas de resfriamento, enquanto a geração hidrelétrica também enfrenta dificuldades. Na Romênia, o governo chegou a realizar explosões subaquáticas controladas no leito do rio Danúbio para tentar redirecionar água para a usina nuclear de Cernavodă. A operação não surtiu o efeito esperado e a unidade também passou a reduzir suas atividades.
Na agricultura, os efeitos são igualmente severos. No norte da Itália, uma das principais regiões produtoras de arroz da Europa, agricultores relatam lavouras completamente perdidas após a água de irrigação simplesmente deixar de alcançar algumas áreas.
Na região do Vale do Pó, no norte da Itália, produtores afirmam que algumas propriedades perderam metade ou mais da produção. A recorrência de períodos de estiagem começa a levar agricultores a considerar substituir o arroz por culturas menos dependentes de água ou até mesmo deixar terras sem cultivo.
Outros riscos
Secas expõem muitos setores da economia europeia ao risco (trange Luke/Flickr/Creative Commons) (Strange Luke/Flickr/Creative Commons)
A escassez de água também ameaça setores considerados estratégicos para o crescimento futuro da Europa, como os centros de processamento de dados. Mais de um terço dos cerca de 3.000 data centers do continente está localizado em áreas submetidas a estresse hídrico considerado elevado ou extremo.
Economistas consultados pelo FT alertam ainda para possíveis efeitos sobre a inflação.
Colheitas menores podem elevar os preços dos alimentos, enquanto custos mais altos de energia e de transporte podem pressionar empresas e consumidores e dificultar a recuperação econômica. O cenário reforça a necessidade de adaptação diante de um clima mais quente e seco: empresas já investem em embarcações adaptadas a rios rasos, sistemas de alerta, tecnologias de economia de água e métodos de resfriamento que dependem menos do recurso.
Para especialistas, a seca deixou de ser apenas uma interrupção temporária das atividades e passou a representar um risco estrutural para a economia europeia. A capacidade de adaptar a infraestrutura, a agricultura, a energia e o transporte poderá determinar o tamanho dos prejuízos em futuras estiagens.
