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Sacre Investimentos
Mundo
18/08/2026
5 min

A economia das secas: falta de água afeta indústria europeia e pode custar 180 bi de euros

Com dezenas de rios e reservatórios registrando seus mais baixos níveis mensais da história, a economia europeia enfrenta dificuldades econômicas diretamente decorrentes do aquecimento global

A economia das secas: falta de água afeta indústria europeia e pode custar 180 bi de euros

Uma série de secas de proporções históricas está impondo custos crescentes à economia europeia, afetando desde o transporte de cargas até a produção de energia, a agricultura e a indústria, segundo o Financial Times (FT). Com os rios em níveis excepcionalmente baixos, as empresas já precisam adaptar suas operações para lidar com a escassez de água.

Por exemplo, no porto holandês de Roterdã, um dos maiores e mais movimentados da Europa, embarcações que utilizam o rio Reno navegam com apenas 30% de sua capacidade.

A redução do peso é uma medida necessária para evitar que os navios encalhem em trechos de águas mais rasas. Essa mudança elevou os custos logísticos e afetou a eficiência das operações: operadores passaram a contratar cerca de 100 embarcações de carga adicionais por semana e, mesmo assim, não conseguem transportar todo o volume de mercadorias que movimentavam anteriormente.

Para a autoridade portuária de Roterdã, trata-se de um dos episódios mais significativos enfrentados pelo setor nas últimas décadas. O problema também expõe a vulnerabilidade das cadeias de abastecimento europeias diante de eventos climáticos extremos.

O impacto econômico da seca pode chegar a pelo menos 50 bilhões de euros para toda a Europa no curto prazo, segundo estimativas do FT. O valor pode aumentar consideravelmente caso a falta de água se prolongue, enquanto o impacto combinado da onda de calor pode chegar a 180 bilhões de euros.

Calor e crise

Termômetro de rua mostra 44 graus Celsius durante uma onda de calor em Sevilha em 12 de julho de 2022

Termômetro de rua registra 44 graus em Sevilha, na Espanha. País é um dos mais afetados pelas ondas de calor que assolaram a Europa este ano (AFP) (AFP/AFP)

Apesar do contexto atual de dificuldades, o continente começou o ano com médias de saturação do solo e de volumes de chuva superiores ao normal em fevereiro. Em abril, a situação começou a se deteriorar e, em maio, se intensificou ainda mais por causa das ondas de calor consecutivas e sem precedentes.

Subsequentemente, com os meses de junho e julho mais quentes já registrados, grandes regiões da Europa agora enfrentam as fortes secas. A previsão de poucas chuvas nas próximas semanas aumenta a preocupação quanto à continuidade do déficit hídrico em rios, reservatórios e solos.

Por todo o continente, dezenas de rios batem novos recordes, atingindo seus níveis mais baixos já registrados em médias mensais: entre eles estão importantes rotas comerciais e fontes de irrigação, como o Reno, o Danúbio, o Pó, na Itália, o Ródano, que atravessa a Suíça e a França, e até o Tâmisa, que corta Londres.

O Reno é um dos principais corredores de transporte do continente e desempenha um papel fundamental para a indústria alemã, mas ainda assim é vulnerável às secas: em 2018, uma seca provocou uma queda estimada de 0,4% no Produto Interno Bruto da Alemanha, o que hoje equivale a cerca de 18 bilhões de euros.

Desta vez, entretanto, os níveis dos rios já estão abaixo dos registrados naquele episódio e a seca começou mais cedo. Estudos citados pelo FT indicam que um mês inteiro de baixa vazão pode reduzir em aproximadamente um quarto o transporte fluvial e cortar em cerca de 1% a produção industrial alemã.

A crise hídrica também atinge o setor energético. Usinas nucleares em países como a França e a Hungria precisaram reduzir as operações pela falta de água para os sistemas de resfriamento, enquanto a geração hidrelétrica também enfrenta dificuldades. Na Romênia, o governo chegou a realizar explosões subaquáticas controladas no leito do rio Danúbio para tentar redirecionar água para a usina nuclear de Cernavodă. A operação não surtiu o efeito esperado e a unidade também passou a reduzir suas atividades.

Na agricultura, os efeitos são igualmente severos. No norte da Itália, uma das principais regiões produtoras de arroz da Europa, agricultores relatam lavouras completamente perdidas após a água de irrigação simplesmente deixar de alcançar algumas áreas.

Na região do Vale do Pó, no norte da Itália, produtores afirmam que algumas propriedades perderam metade ou mais da produção. A recorrência de períodos de estiagem começa a levar agricultores a considerar substituir o arroz por culturas menos dependentes de água ou até mesmo deixar terras sem cultivo.

Outros riscos

Bélgica

Secas expõem muitos setores da economia europeia ao risco (trange Luke/Flickr/Creative Commons) (Strange Luke/Flickr/Creative Commons)

A escassez de água também ameaça setores considerados estratégicos para o crescimento futuro da Europa, como os centros de processamento de dados. Mais de um terço dos cerca de 3.000 data centers do continente está localizado em áreas submetidas a estresse hídrico considerado elevado ou extremo.

Economistas consultados pelo FT alertam ainda para possíveis efeitos sobre a inflação.

Colheitas menores podem elevar os preços dos alimentos, enquanto custos mais altos de energia e de transporte podem pressionar empresas e consumidores e dificultar a recuperação econômica. O cenário reforça a necessidade de adaptação diante de um clima mais quente e seco: empresas já investem em embarcações adaptadas a rios rasos, sistemas de alerta, tecnologias de economia de água e métodos de resfriamento que dependem menos do recurso.

Para especialistas, a seca deixou de ser apenas uma interrupção temporária das atividades e passou a representar um risco estrutural para a economia europeia. A capacidade de adaptar a infraestrutura, a agricultura, a energia e o transporte poderá determinar o tamanho dos prejuízos em futuras estiagens.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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