A empresa bilionária que transformou o hotel mais histórico de Balneário Camboriú em lares de luxo
Fischer Dreams entra na fase final das obras com 119 apartamentos, torres de até 178 metros e áreas comuns que vão preservar registros do antigo Hotel Fischer

Num dos primeiros hotéis de luxo do Brasil, os hóspedes deixavam registros à mão num Livro de Ouro encadernado em capa azul. Havia desenhos, dedicatórias de lua de mel e, numa das páginas, a assinatura de um presidente da República, João Goulart. Ele anotou que o turismo brasileiro seria outro se houvesse mais hotéis como aquele.
O elogio era ao Hotel Fischer, aberto em 1957 na beira-mar de Balneário Camboriú, com um luxo raro para a época: quatro dos vinte quartos tinham banheiro dentro.
Agora, quase setenta anos depois, no mesmo terreno, duas torres de até 178 metros entram na fase final de construção.
A obra é da Procave, incorporadora catarinense com 48 anos de mercado e cerca de 3,6 bilhões de reais em projetos residenciais e comerciais. Batizado de Fischer Dreams, o empreendimento terá 119 apartamentos, plantas de 186 a 491 metros quadrados e unidades que podem chegar a oito suítes após personalização.
A conclusão das obras, a acontecer no mais tardar até outubro, encerra uma transformação iniciada há mais de uma década.
O hotel, inaugurado em 15 de dezembro de 1957, deixou de operar em 2012. No lugar dos quartos, salões e áreas de convivência que ajudaram a formar o turismo de Balneário Camboriú, surgem apartamentos de alto padrão e mais de 7 mil metros quadrados de lazer.
“O Hotel Fischer teve papel importante na formação de Balneário Camboriú como destino turístico e imobiliário. O Fischer Dreams nasce nesse mesmo endereço com a responsabilidade de preservar essa história e entregar um projeto alinhado ao atual momento da cidade”, afirma Clóvis de Albuquerque Filho, diretor comercial da Procave.
A próxima etapa será concluir a entrega das unidades e vender o estoque que permanecerá com a incorporadora. A Procave pretende chegar à entrega com cerca de um terço dos apartamentos ainda sob seu controle e oferecer parte deles já mobiliados, numa estratégia voltada a compradores que vivem fora de Santa Catarina.
Qual é a história do Hotel Fischer
O Hotel Fischer foi inaugurado quando Balneário Camboriú ainda fazia parte do município de Camboriú. Na época, a região tinha pouca infraestrutura, e o terreno ficava longe do núcleo mais movimentado da cidade.
O primeiro prédio tinha cerca de 20 quartos. Quatro deles contavam com banheiro dentro do quarto, uma estrutura incomum para o padrão hoteleiro da década de 1950.
O hotel recebeu hóspedes como Juscelino Kubitschek e João Goulart. Em registros deixados no Livro de Ouro, o livro usado por visitantes para escrever impressões sobre a estadia, hóspedes relatavam luas de mel, férias em família e temporadas que podiam durar até um mês.
Hotel Fischer: um dos primeiros hotéis de luxo do Brasil. (Divulgação/Divulgação)
Antes da popularização dos apartamentos de veraneio, hotéis como o Fischer funcionavam como porta de entrada para famílias do interior de Santa Catarina, do Paraná e do Rio Grande do Sul.
“Era um hotel que tinha uma bagagem de história e de conexão com muitas histórias de família”, afirma Albuquerque Filho.
Essa relação se repetia por gerações. Casais passavam a lua de mel no hotel, retornavam anos depois com os filhos e acompanhavam o crescimento da cidade.
O negócio ganhou escala nas décadas seguintes. O hotel foi ampliado com uma torre de 12 andares, uma das construções mais altas de Balneário Camboriú naquele período.
A partir da década de 1990, porém, o avanço de hotéis mais novos e do mercado de apartamentos reduziu as margens da operação. Parte dos hóspedes recorrentes deixou de se hospedar no Fischer depois de comprar imóveis próprios na cidade.
O hotel permaneceu em atividade até 2012.
Como foi a compra do Hotel Fischer
A Procave iniciou as conversas para adquirir o empreendimento entre 2008 e 2009. A família Fischer continuou como sócia minoritária do projeto após a incorporadora assumir o controle do ativo.
A ideia de construir um residencial no terreno surgiu logo depois da aquisição, mas a obra levou anos para sair do papel. A empresa precisou avançar em aprovações, aquisição de potencial construtivo e definição do projeto.
O plantão de vendas começou a funcionar entre 2014 e 2015. A obra, no entanto, teve início apenas em 2020.
Nesse intervalo, antigos hóspedes visitaram o terreno para contar histórias sobre o hotel.
“Recebemos pessoas que diziam: ‘Meu pai passou a lua de mel aqui com a minha mãe’, ‘eu frequentei esse hotel’ ou ‘foi aqui que conheci minha primeira namorada’”, afirma Albuquerque Filho.
A incorporadora decidiu manter o sobrenome Fischer no nome do empreendimento. Também instalou um painel de 28 metros de largura por 6 metros de altura para contar parte da trajetória do hotel durante o período em que o terreno ainda aguardava o início da construção.
O material reunia fotos da família, páginas dos livros de hóspedes e imagens de antigos visitantes.
Como a Procave pretende preservar a história
A empresa chegou a discutir a criação de uma espécie de museu dentro do condomínio. A ideia perdeu força porque o espaço poderia ser pouco usado depois das primeiras visitas dos moradores.
A alternativa em estudo é distribuir fotografias, registros e objetos do antigo hotel pelas áreas comuns. O objetivo é incorporar a memória do endereço à decoração do residencial.
Entre os materiais disponíveis estão livros de hóspedes, imagens da família Fischer e registros das primeiras décadas de operação.
Uma das referências visuais do projeto é uma vela de barco. O desenho foi baseado em uma fotografia de uma embarcação usada por Cláudio Fischer, filho da família fundadora do hotel. O barco havia sido construído pelo pai de Cláudio. As velas eram feitas com lençóis antigos do próprio hotel.
A Procave também avalia convidar antigos casais que passaram a lua de mel no Fischer para a entrega do novo empreendimento. Um dos apartamentos ficará com Cláudio Fischer, que nasceu em um dos quartos do hotel.
Como será o Fischer Dreams
O projeto reúne duas torres residenciais de até 178 metros de altura. Originalmente, o empreendimento tinha 131 unidades, mas alguns compradores adquiriram apartamentos vizinhos e solicitaram a unificação das plantas.
Com essas mudanças, o condomínio deve terminar com 119 apartamentos.
As unidades terão entre 186 e 491 metros quadrados. Em casos de personalização, podem chegar a oito suítes.

O complexo terá 70 mil metros quadrados de área construída. Mais de 7 mil metros quadrados serão destinados ao lazer, distribuído entre o térreo e o sexto pavimento.
A estrutura inclui piscina com borda infinita, piscina aquecida, bar, restaurante, três salões de festas, espaço gourmet, sala de jogos, brinquedoteca, academia, sala de ioga, estúdio de pilates, quadra de padel e quadra poliesportiva. O projeto também prevê salas de massagem, saunas, espaços de estética e áreas de convivência.
Por que a Procave não quer vender tudo antes da entrega
Ao contrário de incorporadoras que tentam comercializar todas as unidades durante o lançamento, a Procave pretende manter parte do estoque até a fase final. A empresa calcula que poderá chegar à entrega com ao menos um terço dos apartamentos ainda disponíveis.
A estratégia busca capturar a valorização do empreendimento durante a construção e permitir que o comprador visite uma unidade pronta antes da decisão. A Procave também pretende mobiliar e decorar parte dos imóveis restantes.
O serviço mira compradores do interior de São Paulo, do Paraná e do Rio Grande do Sul, que podem ter dificuldade para acompanhar uma obra de decoração em outra cidade. A aposta acompanha um movimento de expansão do alto padrão no litoral catarinense, que tem atraído investidores de fora do estado.
“Esse serviço é um acelerador de vendas. Para quem não está na cidade de origem, envolver-se com arquiteto e decoração pode virar um perrengue”, afirma Albuquerque Filho.
Uma incorporadora com 3,6 bilhões de reais em projetos
A Procave foi fundada em Blumenau em 1978 por Nivaldo Pinheiro, então com 20 anos. A empresa começou como imobiliária e passou os primeiros anos intermediando a compra e a venda de imóveis.
Depois de acumular capital, Pinheiro comprou um terreno e construiu uma casa. A venda financiou outras duas unidades, em um modelo de crescimento orgânico.
A empresa concentrou a atuação em Blumenau até o fim da década de 1990, quando recebeu um terreno em Balneário Camboriú como parte de pagamento. O desempenho do primeiro projeto na cidade levou a companhia a ampliar a operação no litoral. Em 2001, a sede foi transferida para Balneário Camboriú, hoje a cidade com o metro quadrado mais valorizado do país.
Hoje, a Procave atua em projetos residenciais, comerciais, hoteleiros e corporativos. Entre os empreendimentos estão o Brava Home Resort e o BravaMall, em Itajaí, o Costão da Barra e o Ibiza Towers, em Balneário Camboriú, e o Absolute Business, complexo corporativo no centro de Itajaí.
A empresa também tem participação no Hotel Marambaia e constrói projetos em Florianópolis, Ilhota e São Joaquim. Se todos os ativos comercializáveis estivessem à venda, o portfólio somaria entre 3,5 bilhões de reais e 3,6 bilhões de reais, segundo Albuquerque Filho. A companhia se insere num dos mercados mais aquecidos do país: Balneário Camboriú e região somaram R$ 13,4 bilhões em vendas em 2025.
Parte dos novos empreendimentos, porém, ficará sob controle da companhia para geração de renda com aluguel e operação hoteleira.
A Procave afirma financiar as obras com recursos próprios, sem bancos ou sócios financeiros. “Nosso resultado é orgânico. É fruto daquele sujeito que, aos 20 anos, criou a empresa com controle e zelo econômico para poder bancar hoje esses investimentos”, afirma Albuquerque Filho.
