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NegóciosMPOL
30/06/2026
9 min

A empresa mais antiga do Brasil tem escala 4x3 e já vê resultado: ‘Somos uma startup de 192 anos’

A empresa mais antiga do Brasil tem escala 4x3 e já vê resultado: ‘Somos uma startup de 192 anos’

A extração de ouro faz parte da história do Brasil desde o período colonial. Foi o metal precioso que impulsionou o desenvolvimento de cidades, movimentou a economia durante o ciclo do ouro e ajudou a moldar a formação do país. Quase dois séculos depois, a atividade continua estratégica, é a moeda universal em tempos de crise e hoje mais do que nunca avança com a tecnologia, automação e gestão de pessoas.

É essa transformação que a AngloGold Ashanti, considerada a indústria em operação contínua mais antiga do Brasil, tenta representar. Fundada no país em 1834, durante o Império, a mineradora aposta em inteligência artificial, equipamentos operados remotamente e até em uma escala de trabalho 4x3 para aumentar a produtividade.

"Quando você pega uma empresa de mineração com 192 anos e pensa em uma escala 4x3 ou 4x4, isso é totalmente fora da caixa. Somos uma startup de 192 anos", afirma Luiz Otávio de Lima, CEO da AngloGold Ashanti Latam, em entrevista exclusiva ao podcast De Frente com CEO, da EXAME.

A mudança da extração de ouro

A extração do ouro mudou e muito em quase dois séculos de história. Para chegar ao ponto mais profundo da mina Cuiabá, em Minas Gerais, não basta pegar um elevador. O trajeto começa com uma descida de cerca de quatro minutos até o nível 11, a 900 metros de profundidade. De lá, são mais 25 minutos de carro ou van até os níveis mais profundos da mina.

O elevador, de dois andares, transporta até 50 pessoas por viagem para uma operação que hoje chega a 1.600 metros de profundidade (o equivalente a 2 Burj Khalifa, o prédio mais alto do mundo, com 828 metros de altura cada, em Dubai).

"Sem inovação, a gente não estaria aqui hoje. A mina Cuiabá está entre as cinco minas subterrâneas mais tecnológicas do mundo”, diz Lima.

Os números ajudam a dimensionar a complexidade do negócio. Cerca de mil pessoas trabalham diariamente na mina, distribuídas em diferentes turnos. Para produzir apenas 6 gramas de ouro, é preciso desmontar uma tonelada de rochas.

"O nosso primeiro valor é a segurança. A tecnologia existe para tirar as pessoas das áreas de maior risco operacional”, afirma o CEO.

A origem da indústria mais antiga em operação no Brasil

A história da AngloGold Ashanti no Brasil começou em 1834, quando uma companhia inglesa desembarcou em Minas Gerais para explorar o chamado segundo ciclo do ouro, marcado pela mecanização da atividade mineradora.

“A nossa história começou com uma empresa inglesa que veio para o Brasil no segundo ciclo do ouro, o ciclo do ouro mecanizado”, afirma Lima.

A empresa iniciou as operações em São João del-Rei e, anos depois, transferiu suas atividades para Nova Lima, onde adquiriu a Mina Velha e passou a operar como São João del Rey Mining Company. Depois, ela migrou para Nova Lima, adquiriu a Mina Velha e começou as operações como São João del Rey Mining Company.

Ao longo de quase dois séculos, a companhia mudou de nome e de controle acionário, mas manteve sua presença no país. Depois do período britânico, passou a operar como Morro Velho, na década de 1960. No fim dos anos 1990, foi incorporada pela AngloGold Ashanti, grupo global que hoje reúne operações na África, Austrália e América Latina.

“Estamos falando de uma história bicentenária, que passou por todas as transições da indústria que você imaginar, como Proclamação da República, duas guerras mundiais, diferentes ciclos econômicos brasileiros, períodos de hiperinflação, mudanças de moeda e pandemia”, afirma Lima.

Hoje, a operação brasileira está concentrada em Minas Gerais e reúne duas minas subterrâneas, Cuiabá e Lamego. O Brasil também é a única operação global da companhia com processo 100% verticalizado, da pesquisa mineral até o refino da barra de ouro pronta para venda. “Isso é uma grande vantagem para o nosso negócio”, diz o CEO.

O fim da escala 6x1 e a aposta da escala 4x3 com dois dias de home office

No escritório corporativo, em Nova Lima, os funcionários trabalham de segunda a quinta-feira desde 2024. Nas minas, a escala antiga de seis dias trabalhados para um de descanso foi substituída por um modelo de quatro dias de trabalho por quatro dias de folga.

Segundo o CEO, a mudança nasceu após pesquisas internas, pilotos e escuta dos funcionários. O resultado, diz ele, apareceu nos indicadores de segurança.

“Os nossos indicadores de segurança melhoraram exponencialmente. Uma pessoa que está saudável, física e mentalmente, consegue entregar muito mais”, afirma o CEO que hoje consegue levar os filhos para a escola com a escala de trabalho mais flexível. 

A redução ocorreu principalmente em acidentes de alta frequência e baixo impacto, como torções, prensamentos de dedos e incidentes associados ao cansaço e à falta de atenção.

A tecnologia que vale vidas

A transformação cultural veio acompanhada de tecnologia. A mina Cuiabá é 100% conectada por Wi-Fi, com mais de 400 roteadores no subsolo. Com isso, a empresa monitora em tempo real a localização dos trabalhadores por meio de um sistema chamado People Tracking.

"Hoje eu sei exatamente onde cada funcionário está na mina. Se acontece qualquer evento, a nossa velocidade de resposta é muito rápida", diz Lima. "O nosso primeiro valor é a segurança".

A tecnologia também ajuda a reduzir custos, afirma o CEO.

"Como eu sei a quantidade de pessoas em cada frente de serviço, consigo alterar ou desligar a rotação dos ventiladores. Com isso, temos uma economia de quase 25% da energia."

Outro avanço é o uso de carregadeiras operadas remotamente. Os equipamentos, capazes de movimentar até 130 toneladas de material por hora, são controlados da superfície por operadores com joysticks, como em um videogame. A ideia é retirar pessoas das áreas de maior risco.

A operação global e a expectativa da empresa que vale ouro

Embora seja a empresa mais antiga em operação no Brasil, a AngloGold Ashanti faz parte hoje de um dos maiores grupos de mineração de ouro do mundo.

A companhia mantém 11 operações distribuídas entre África, Austrália e América Latina, divididas em três grandes regiões de negócios. A África concentra o maior peso da produção global, respondendo por cerca de 60% a 65% do ouro extraído pelo grupo. A Austrália representa aproximadamente 19%, enquanto a América Latina (formada pelas operações no Brasil e na Argentina, que responde por cerca de 16% da produção mundial).

Apesar da menor participação em volume, a operação latino-americana é uma das mais rentáveis da companhia. Segundo Lima, ela foi responsável por 26% do fluxo de caixa livre gerado pelo grupo no último ano.

"Isso evidencia que a nossa região é austera nos custos, tem disciplina operacional e segurança, o que garante a estabilidade das nossas operações", afirma o CEO.

Ao todo, a operação da América Latina reúne cerca de 10 mil funcionários diretos e indiretos. No Brasil, a empresa concentra todas as atividades em Minas Gerais, onde opera as minas subterrâneas de Cuiabá e Lamego e a planta metalúrgica de Nova Lima. Na Argentina, o grupo controla a mina Cerro Vanguardia, conhecida por produzir prata em volumes expressivos além do ouro.

"Muita gente não sabe, mas a operação da Argentina produz tanto ouro quanto prata. É uma característica diferente da nossa mina brasileira", afirma o CEO.

No radar da companhia também está a expansão internacional. Além das operações atuais, a AngloGold Ashanti desenvolve um projeto em Nevada, nos Estados Unidos, que ainda aguarda aprovações para entrar em produção.

Luiz Otávio de Lima, CEO da AngloGold Ashanti Latam: "Até o momento, por causa da guerra no Oriente Médio, não tivemos impacto em produção ou logística, mas tivemos impacto de custo, principalmente pelo preço do diesel e de algumas commodities" (Matheus Jammal / EXAME/Divulgação)

A crise que valoriza o ouro

Guerras, inflação, eleições e instabilidade econômica costumam aumentar a procura por um dos ativos mais tradicionais do mercado financeiro: o ouro. Conhecido como um ativo de proteção (safe haven), o metal costuma se valorizar em momentos de incerteza, quando investidores buscam preservar patrimônio diante da volatilidade de moedas e bolsas de valores.

Nos últimos anos, esse movimento ganhou força com conflitos geopolíticos, como a guerra entre Rússia e Ucrânia e as tensões no Oriente Médio, além da persistência da inflação global e das incertezas sobre os rumos da economia americana. O resultado foi uma forte valorização do ouro, que atingiu níveis recordes no mercado internacional.

Para a AngloGold Ashanti, no entanto, esse cenário não muda a estratégia do negócio.

"A premissa da AngloGold Ashanti é sempre não focar no preço do ouro. Os nossos planos são de longo prazo. O ouro tem uma flutuação de preço e a gente não pode depender disso. A gente tem que depender da eficiência operacional, da disciplina de custos e da produtividade", afirma o CEO.

Segundo o executivo, mesmo com o aumento das tensões internacionais, a companhia não registrou impactos na produção ou na logística das operações. O principal efeito foi o aumento dos custos, impulsionado pela alta do diesel e de outras commodities utilizadas na mineração.

"Até o momento, por causa da guerra no Oriente Médio, não tivemos impacto em produção ou logística, mas tivemos impacto de custo, principalmente pelo preço do diesel e de algumas commodities", diz.

Apesar da volatilidade do mercado, a companhia mantém o planejamento de longo prazo. A expectativa para este ano é produzir 290 mil onças de ouro nas operações de Minas Gerais, acima das 273 mil onças registradas em 2025, mantendo a estratégia de entregar exatamente o volume prometido aos investidores.

Globalmente, a AngloGold Ashanti encerrou 2025 com US$ 9,9 bilhões em receita. No primeiro trimestre de 2026, o fluxo de caixa livre atingiu US$ 1,2 bilhão, alta de 190% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Para Lima, o diferencial da companhia não está em prever o próximo movimento do mercado, mas em manter a disciplina operacional independentemente do cenário.

"O grande diferencial da AngloGold Ashanti é entregar exatamente o que promete. Isso mostra que temos uma operação estável, bons controles, conhecimento geológico do ativo e um planejamento de longo prazo. É essa credibilidade que sustenta o nosso negócio há quase dois séculos."

AutorLayane Serrano
FonteExame
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