A era do populismo? Novo fenômeno político define eleições em todo o mundo
Especialistas e estudos apontam o populismo como a nova realidade política do mundo - mas é uma realidade perigosa: entenda o que é o populismo, suas forças e seus limites

A ascensão de governos populistas de direita em países de peso regional está transformando a política externa e acrescentando novas tensões à ordem internacional. Alguns analistas acreditam, inclusive, que o mundo entra agora numa "era populista permanente", na qual novos mecanismos, até então inexistentes na história, corroem o poder da elite e das instituições, favorecendo esses candidatos.
Em entrevista à EXAME em julho, Steven Levitsky, professor de Harvard, diretor do David Rockefeller Center for Latin American Studies e coautor do best-seller Como as Democracias Morrem, defendeu o ponto de vista:
"Com a estratégia certa, hoje qualquer um pode ser presidente."
O movimento populista oferece soluções simples para velhos problemas e ultrapassa as fronteiras, formando uma rede transnacional de partidos, governos e grupos políticos.
Da Argentina à França, passando pela Turquia, pela Hungria e, especialmente, pela América Latina, líderes populistas têm adaptado suas políticas externas para ecoar a agenda especialmente do líder americano, Donald Trump, e, ao mesmo tempo, estabelecer relações mais próximas com seus pares estrangeiros.
"Ainda não se sabe se as pessoas se cansarão de ser governadas por amadores raivosos e meio malucos. Se esses caras governarem mal, talvez as sociedades voltem a eleger pessoas mais experientes. [Jair] Bolsonaro governou mal, assim como [Donald] Trump em seu primeiro mandato. [O presidente da Argentina, Javier] Milei tem sucesso moderado, e [o presidente de El Salvador, Nayib] Bukele, enorme sucesso", disse Levitsky.
"À medida que forem percebidos como bem-sucedidos, isso prolongará essa era populista. Até agora, não vejo nenhuma evidência de que ela esteja chegando ao fim."
O que é o populismo, afinal?
Segundo um estudo do Carnegie Endowment for International Peace, o liberalismo internacional foi a principal ideologia organizadora da política mundial desde o fim da União Soviética, em 1991.Na última década, porém, os pesquisadores apontam que esse modelo passou a enfrentar a concorrência de uma alternativa populista, que rejeita parte das regras do sistema liberal e defende que os Estados devem agir de acordo com seus próprios interesses e sem se submeter excessivamente a instituições internacionais.
Trump desempenha um papel central nesse processo, mas o Carnegie avalia que as chamadas potências médias populistas constituem a principal base do movimento.
Trump sinaliza 2028, mas Constituição impede novo mandato. (Reprodução/Redes Sociais)
Esses países não têm o peso militar ou econômico das grandes potências, mas possuem capacidade regional suficiente para influenciar disputas locais e afetar as decisões de atores maiores, tornando-se peças importantes na transformação do sistema internacional.
Uma das principais características dessa diplomacia populista, segundo o Carnegie, é a concentração de poder no líder.
O estudo aponta que governos dessa corrente tendem a marginalizar diplomatas e outros integrantes tradicionais da formulação de política externa, sob a justificativa de que essas elites não representam mais a vontade popular.
O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, em Bruxelas, em 2024 (AFP/AFP)
O resultado pode ser uma política externa mais personalizada e politizada, com riscos à competência institucional e até ao surgimento de nepotismo e corrupção, segundo o Carnegie Endowment for International Peace.
Na Hungria, por exemplo, Viktor Orbán e seu governo substituíram cerca de 70% dos funcionários profissionais do Ministério das Relações Exteriores por aliados, segundo o estudo, reforçando a influência política sobre a diplomacia.
O impacto dessas mudanças, entretanto, depende do grau de institucionalização de cada movimento. O populismo de Rodrigo Duterte nas Filipinas produziu uma guinada brusca em relação aos Estados Unidos e uma aproximação à China e à Rússia, mas essa mudança não sobreviveu à sua saída do poder.
Já os projetos de Orbán, enraizados em partidos estabelecidos como o Fidesz, têm maior capacidade de manter as transformações mesmo quando seus líderes deixam o governo.
Outro elemento recorrente é a maior abertura a potências consideradas revisionistas ou autoritárias, especialmente à Rússia e à China.
Para esses líderes, as relações com governos não liberais podem ser apresentadas como pragmatismo econômico e defesa da soberania, em oposição ao multilateralismo, que enxergam como uma limitação à liberdade de ação dos Estados.
A dependência de energia, de comércio e de financiamento externo reforça essa tendência entre as potências médias.
A Hungria de Orbán volta a ser um dos principais exemplos. Sob a política, inicialmente conhecida como “Abertura Oriental”, Budapeste aprofundou sua dependência de combustíveis nucleares e de gás russos, enquanto a China se tornou a principal fonte de investimento direto estrangeiro no país.
Projetos de infraestrutura financiados por Pequim, incluindo a ferrovia entre Budapeste e Belgrado, ajudaram a aproximar ainda mais os dois países.
Limites do populismo
Protesto pela democracia em São Paulo. Líderes populistas são frequentemente acusados de governos antidemocráticos (CASIMIRO/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO/Estadão Conteúdo)
Todavia, o estudo aponta algumas falhas fundamentais do populismo que podem minar seus governos. Por exemplo, a política externa populista também tende a ser mais volátil e confrontadora: governos populistas têm maior disposição para escalar tensões com rivais, rompendo precedentes de cooperação e recorrendo a conflitos fronteiriços ou à violência política, o que, por sua vez, pode ferir a legitimidade do governo.
O estudo relaciona esse comportamento à concentração das decisões em um pequeno círculo de assessores e à mobilização do nacionalismo doméstico contra o rival.
Outro limite decorre da própria dependência das potências médias em relação ao multilateralismo. Embora líderes populistas frequentemente defendam a soberania e rejeitem restrições externas, países de porte intermediário não têm a mesma capacidade de agir isoladamente que os Estados Unidos, a China ou outras grandes potências.
Por isso, governos como os de Modi na Índia e o de Erdoganna Turquia procuram reformar instituições internacionais e aumentar sua influência nelas, em vez de simplesmente abandoná-las, aponta o Carnegie.
Para o think tank, a consequência é menos a criação de uma nova ordem internacional plenamente estruturada e mais o aumento da disputa na ordem existente.
Os populistas têm demonstrado capacidade de explorar descontentamentos, formar alianças e pressionar instituições, mas ainda não conseguiram criar uma visão comum de longo prazo capaz de substituir o sistema liberal. A tendência é, portanto, de maior contestação, fragmentação e instabilidade.
O estudo conclui que o principal obstáculo à consolidação de uma frente populista global pode estar no próprio populismo. Como cada movimento é moldado por conflitos e demandas domésticas específicos, a prioridade permanece sendo a soberania e a base eleitoral nacional.
A derrota de Orbán nas eleições húngaras de 2026, segundo o Carnegie, também mostra que governos populistas não estão imunes ao desgaste político e podem perder força quando deixam de ser vistos como forças de ruptura e passam a integrar o establishment.
