A era John Ternus: o que muda na Apple com a saída de Tim Cook
Analistas apostam em mais apetite a risco, aquisições maiores e avanço em categorias como óculos de IA e robótica sob o novo CEO

John Ternus é conhecido dentro e fora da Apple como "o arquiteto do iPhone" — apelido que resume 25 anos passados desenhando o hardware da empresa, do iPad ao Mac, dos AirPods ao próprio iPhone.
Nesta terça-feira, 1º de setembro, ele assume o cargo de CEO, em meio a uma pergunta que o mercado já vinha fazendo havia meses: ele vai apenas manter o legado de Tim Cook, ou vai levar a Apple a assumir mais riscos?
A resposta, segundo boa parte dos analistas que acompanham a empresa, aponta para a segunda opção.
Um CEO com "apetite por risco" maior
Wamsi Mohan, analista do Bank of America, reiterou recomendação de "compra forte" para as ações da Apple citando justamente a expectativa de que Ternus preserve o legado de Cook — mas com "maior apetite por risco".
Segundo o banco, o afastamento recente da Apple de sua meta histórica de manter caixa líquido neutro já é um sinal antecipado de que a gestão pode estar mais disposta a usar capital de forma mais agressiva, com mais investimento em pesquisa e desenvolvimento, mais gasto de capital (capex) e possivelmente aquisições maiores — áreas que não foram características centrais da estratégia de Cook.
Segundo o Bank of America, sob Ternus a Apple pode avançar com mais rapidez em categorias ainda emergentes para a empresa, como óculos com inteligência artificial (IA), AirPods equipados com câmera, anéis inteligentes, automação residencial, assistentes pessoais e robótica — áreas que exigem que a empresa aceite mais incerteza do que costumava tolerar sob a gestão anterior.
A pressão da IA, área em que a Apple ficou para trás
Ternus assume a companhia justamente no momento em que ela tenta recuperar terreno perdido na corrida por IA generativa — disputa que rivais como Google e Samsung já disputam com mais avanço em ferramentas de IA embarcadas em smartphones.
A Apple deve lançar oficialmente neste ano uma versão beta de uma nova Siri, batizada de "Siri AI", com tecnologia de modelos de linguagem de grande porte (LLM) para permitir que o assistente use aplicativos como mensagens e calendário — recurso inicialmente anunciado ainda em 2024, sob Cook, mas que sofreu sucessivos atrasos.
Segundo analistas, parte da confiança do conselho da Apple em Ternus vem justamente da crença de que seu perfil técnico, vindo da engenharia de hardware, pode ajudar a guiar a empresa de forma mais consistente para essa nova fase voltada à IA — um terreno em que a Apple corre atrás desde o lançamento do ChatGPT, em 2022.
Um evento para testar a nova era
O primeiro grande teste público de Ternus como CEO acontece já em 9 de setembro, data marcada para o evento anual de lançamento de iPhones da Apple — que deve trazer, pela primeira vez, um iPhone dobrável, concorrendo diretamente com os modelos já consolidados da Samsung nesse formato.
Segundo analistas ouvidos pela CNN, o momento também deve servir para Ternus apresentar, ao menos em linhas gerais, sua própria visão para o futuro da empresa — algo que ele evitou fazer de forma detalhada até agora, mantendo a tradicional cultura de sigilo da Apple sobre planos futuros de produto.
O evento também deve trazer novos modelos de Apple Watch, além dos novos Mac Mini e Mac Studio, já anunciados e com data de embarque marcada para 22 de setembro.
Continuidade também é uma aposta deliberada
Nem todo o mercado espera uma ruptura brusca de estilo.
Ternus entrou na Apple em 2001, como membro da equipe de design de produto, foi promovido a vice-presidente de engenharia de hardware em 2013 e assumiu a vice-presidência sênior da mesma área em 2021 — passando por praticamente todos os principais lançamentos de hardware da empresa nas últimas duas décadas, do iPhone ao MacBook Neo.
Aos 51 anos, é mais jovem que boa parte dos executivos seniores da Apple, o que analistas apontam como fator que pode garantir estabilidade de liderança por muitos anos.
Diferentemente de Cook, cuja especialidade sempre foi operações e cadeia de suprimentos, Ternus tem formação e reputação construídas dentro da engenharia de produto — o que alimenta a expectativa de que ele reforce a cultura de design e inovação da empresa, combinando capacidades de IA com hardware sofisticado, em vez de tentar competir diretamente em recursos de software com rivais que já dominam essa frente.
O que muda — e o que não deve mudar
Segundo analistas, Ternus não deve promover mudanças bruscas logo de início — a expectativa é de que suas prioridades fiquem mais claras ao longo dos próximos meses, à medida que a Apple define novos planos de investimento, roteiros de produto e estratégias de aquisição.
O que já parece consenso é que ele não será cobrado para repetir exatamente o caminho de Cook, mas sim para proteger e dar continuidade à máquina que o antecessor construiu — ao mesmo tempo em que assume a responsabilidade de resolver o que Cook não conseguiu: colocar a Apple de volta no centro da conversa sobre inteligência artificial.
