A estratégia da Fórmula 1 por trás das parcerias com Disney, Lego e Barbie
Modalidade faz parcerias com grandes empresas e mira público jovem

A Fórmula 1 e Disney anunciaram nos últimos dias a renovação do projeto conjunto “Fuel the Magic” por mais três temporadas. A grande novidade desta extensão contratual é a inclusão da franquia "Carros", da Pixar, que se junta ao universo de Mickey Mouse nas ações de marketing e licenciamento da marca. O anúncio oficial marca uma nova fase na estratégia das duas companhias para rejuvenescer a base de adeptos e expandir o alcance global da modalidade com produtos oficiais.
O plano de lançamento aconteceu neste 27 de agosto, coincidindo com as atividades do Grande Prémio de Itália, no histórico circuito de Monza. O evento europeu foi o palco principal das ativações físicas com o personagem Relâmpago McQueen, além de marcar a chegada ao mercado de linhas exclusivas de vestuário e de miniaturas produzidas pela Mattel. Com este movimento, as empresas reforçam a aposta na fusão entre o desporto de elite e a cultura pop para consolidar a presença junto do público jovem.
O projeto “Fuel the Magic” teve o seu ponto de partida no Grande Prêmio de Las Vegas de 2025. Desde o lançamento, a cooperação entre as duas marcas expandiu-se com campanhas de grande impacto na China e uma entrada direta naF1 Academy durante a ronda disputada no Canadá. Estas ações anteriores serviram para testar a receção do público à criação de conteúdos e produtos originais que aproximam os jovens circuitos do ecossistema de entretenimento da Disney.
"No entretenimento, o esporte traz algo único, que é a imprevisibilidade, combinada com a competição, com a definição de um vitorioso. Na música, não temos torneios, apenas entretenimento. No cinema, temos imprevisibilidade, mas uma única vez, e sem competição. O esporte tem componentes únicos de atração, que despertam sentimentos diversos nas pessoas, que outras atividades e marcas não conseguem oferecer", diz Thiago Freitas, COO da Roc Nation Sports, empresa de entretenimento norte-americana, comandada pelo cantor Jay-Z.
"É potencialmente o collab do século nas indústrias do esporte e entretenimento. Duas marcas icônicas, muito bem trabalhadas, que dão aula de como entender e entreter seus fãs. Certamente essa parceria vai render muita coisa legal para ambos os públicos curtirem e o mercado estudar atentamente", analisa Alexandre Vasconcellos, gerente regional da Flashscore no Brasil.
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"Grandes marcas podem ser associadas ao esporte numa estratégia não só para atrair novos públicos, como também se posicionar como junto a esses públicos com forte apelo emocional de maneira bastante positiva. A junção de fãs distintos beneficia ambas as partes e diversificando bases de consumidores", aponta Thales Rangel Mafia, gerente de marketing da Multimarcas Consórcios.
Outras parcerias da F1
Não é a primeira vez que a F1 se aproxima de grandes marcas. Em meados de 2025, o McDonald's, patrocinador oficial da Fórmula 1 na América Latina, lançou o McMenu "F1 - O Filme", um combo com lanche e uma edição limitada que traz como brinde uma miniatura com dois modelos de carros disponíveis, justamente para promover o lançamento do filme nos países desses continentes. Um deles trazia uma pintura estilizada inspirada nas cores do McDonald’s, e o outro homenageava o próprio filme. As vendas foram um sucesso, fazendo com que os objetos se esgotassem em menos de uma semana.
"A F1 se modernizou, e ficou claro que os conteúdos, da forma como eles são mostrados, especialmente com bastidores e novas experiências com público, são fundamentais para essa escalada de audiências e novas receitas", observa Joaquim Lo Prete, general manager da Absolut Sport no Brasil, agência de experiências esportivas.
Na última temporada, pode ter parecido apenas uma ação de marketing, mas o tradicional desfile que antecedeu o Grande Prêmio de Miami de Fórmula 1, com os pilotos dirigindo carros construídos com peças da Lego, funcionais e personalizados com as cores de suas equipes, não aconteceu por acaso.
A entrada da maior fabricante de brinquedos em blocos de montar do mundo no segmento esportivo é estratégica e tem a ver com o crescimento de produtos deste tipo interligados ao esporte, atrelado ao interesse dos pais enxergarem as atividades físicas como uma das premissas para as crianças.
"A aproximação de grandes marcas ao universo esportivo é uma decisão estratégica provavelmente baseada em comportamento de consumo. O esporte oferece uma plataforma única de engajamento emocional, que conecta marcas a públicos altamente apaixonados. Além disso, há um aumento de busca por experiências que transcendam o produto físico — o esporte entrega narrativa, comunidade e propósito. Para empresas que tradicionalmente atuam no mercado infantil ou de entretenimento, o esporte representa uma ponte direta para dialogar com as novas gerações e também com os pais", analisa Bruno Brum, CMO da Agência End to End, hub de soluções e engajamento para o mercado esportivo.
Conversas com o público jovem
A iniciativa da Fórmula 1 segue a filosofia implementada pela modalidade nos últimos anos, de conversar com um público mais jovem. Esses movimentos já aconteceram por meio do lançamento da série Drive To Survive, pelo Netflix e considerado um sucesso de audiência, e de parcerias recentes que conversam com esse tipo de público, caso principalmente do Tik Tok.
Especialistas entendem que além de mudar o formato de seu conteúdo, o surgimento da série Drive to Survive, da Netflix, em 2019, foi o divisor de águas para esse mudança de comportamento de seus usuários, e o consequente rejuvenescimento dos fãs em termos de audiência e presença de público.
De acordo com dados da Liberty Media, 4 milhões de fãs que acompanham a F1 tem idade entre 8 e 12 anos na Europa e nos EUA, e cerca de 40% dos seguidores do esporte no Instagram têm menos de 25 anos.
Ainda de acordo com números divulgados pela Liberty Media, a média de idade de quem acompanha a modalidade caiu de 36 anos para 32 anos. Já aqueles que acompanham presencialmente às corridas também ficaram mais jovens, com crescimento de 21% dos fãs de até 25 anos, nos anos de 2021 e 2022. Levando em contas as transmissões esportivas, a audiência teve um crescimento de 44% entre os torcedores de até 35 anos, levando em conta os últimos cinco anos (2018 a 2022).
"Além da já conhecida conquista do mercado americano atribuída em grande medida ao sucesso de Drive to Survive naquele país, a Liberty segue investindo na conquista de novas audiências através de diversas plataformas de social media com conteúdo formatado sob medida para cada uma”, pontua Ivan Martinho, professor de marketing esportivo pela ESPM.
