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Sacre Investimentos
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19/09/2026
10 min

A fábrica que mais produz Coca-Cola no mundo fica no Brasil e vai crescer mais com R$ 360 milhões

Unidade produz mais de 2 bilhões de litros por ano e recebe nova linha de retornáveis. Para atender à demanda de fim de ano, companhia abre novas vagas de trabalho

A fábrica que mais produz Coca-Cola no mundo fica no Brasil e vai crescer mais com R$ 360 milhões

É no Brasil que fica a maior fábrica da Coca-Cola no mundo em volume produzido. Localizada em Jundiaí, no interior de São Paulo, a unidade produz mais de 2 bilhões de litros de bebidas por ano, e está se preparando para produzir ainda mais.

A Coca-Cola FEMSA Brasil está investindo mais de R$ 360 milhões na unidade para ampliar a capacidade produtiva e modernizar a operação com metas de sustentabilidade.

O aporte, realizado entre 2024 e 2026, tem dois protagonistas: garrafas retornáveis e água. Cerca de R$ 191 milhões foram destinados à instalação de uma nova linha de retornáveis e a processos relacionados a essas embalagens, enquanto outros R$ 97,5 milhões foram direcionados aos sistemas de tratamento de água.

“A demanda está pedindo, e aí investimos”, afirma Mario Schafascheck, diretor de Supply Chain da Coca-Cola Femsa Brasil. “Foi uma oportunidade que a gente teve de aumentar a capacidade e renovar a tecnologia.”

Inaugurada em 1993, a fábrica de Jundiaí responde hoje por cerca de 31% da produção da Coca-Cola FEMSA no Brasil, e conta com 17 linhas de envase e aproximadamente 1.300 funcionários. A produção abastece 14 centros de distribuição e cerca de 90% do volume que sai da fábrica permanece no estado de São Paulo.

“Com a nova linha a capacidade de envase de garrafas retornáveis passou de cerca de 24 mil para 50 mil unidades por hora”, diz Schafascheck.

O desafio agora é crescer sem aumentar na mesma proporção a pressão sobre recursos naturais, especialmente a água, principal insumo da indústria de bebidas.

Mario Schafascheck, diretor de Supply Chain da Coca-Cola FEMSA Brasil: “Com a nova linha a capacidade de envase de garrafas retornáveis passou de cerca de 24 mil para 50 mil unidades por hora" (Coca-Cola Femsa/Divulgação)

O retorno das retornáveis

Além do ganho de capacidade, a Femsa busca aumentar a eficiência da produção de uma forma mais sustentável.

“Eu vou produzir mais nessa linha nova de retornável, mas vou gastar menos água. Eu aumento a capacidade, melhor a eficiência e não estresso a fonte”, afirma.

A unidade além de ser referência em volume, também possui certificações relacionadas à gestão de resíduos e de recursos hídricos, afirma Fabiana Meira de Oliveira, vice-presidente Jurídica e de Assuntos Corporativos da Coca-Cola Femsa Brasil.

“Nosso principal insumo hoje é água. Sem água, eu não fabrico refrigerante”, afirma.

A embalagem retornável também funciona como uma alternativa de preço mais acessível ao consumidor e dentro de um sistema de economia circular.

Depois do consumo, as garrafas retornam à fábrica, são separadas, higienizadas, inspecionadas e voltam para a linha. Quando deixam de ter condições de uso, são retiradas do processo e encaminhadas para reciclagem.

Outra ação da companhia relacionada ao meio ambiente tem relação com o destino de recursos hídricos, que contou com a modernização dos sistemas de tratamento de água e efluentes da fábrica.

"A lógica é reaproveitar água utilizada no processo industrial em atividades que não exigem água potável, como refrigeração, limpeza e etapas da lavagem das embalagens", diz Schafascheck.

Com as mudanças, a empresa estima economizar 30 mil litros de água por dia na unidade. A redução, segundo o diretor, começou a aparecer na operação em agosto deste ano.

O investimento de aproximadamente R$ 97 milhões na infraestrutura relacionada à água, segundo Schafascheck, não foi aprovado porque traria um retorno rápido.

“Eu vou falar a verdade: o payback disso é longo, mas a gente acaba protegendo a fonte”, diz o executivo. Segundo ele, trata-se de um projeto com retorno superior a 10 anos.

Para Fabiana, a estratégia mostra como a sustentabilidade deixou de ser uma agenda paralela e passou a entrar na própria decisão de investimento.

“Queremos um negócio que vá realmente ter uma longevidade”, afirma.

Fabiana Meira de Oliveira, vice-presidente Jurídica e de Assuntos Corporativos da Coca-Cola FEMSA Brasil: “Nosso principal insumo hoje é água. Sem água, eu não fabrico refrigerante” (Coca-Cola Femsa/Divulgação)

Uma fábrica de 1993 que virou vitrine

A aposta em eficiência hídrica ganha peso justamente porque Jundiaí não é uma planta recém-construída, mas desde sua inauguração, em 1993, o volume de água utilizado por litro de bebida produzido já caiu cerca de 80%.

Para a companhia, isso transforma Jundiaí em uma espécie de laboratório para mostrar que grandes operações industriais existentes também podem ganhar eficiência.

“Ela é um pouco um espelho de como o Sistema Coca-Cola tem que olhar as suas fábricas”, afirma a VP Oliveira.

Além das novas estruturas de produção e tratamento de água, R$ 74 milhões foram direcionados a melhorias de infraestrutura interna, incluindo fluxo de veículos, estacionamento e circulação de caminhões. A preocupação, segundo os executivos, é evitar que o crescimento da produção transforme a fábrica em um problema para a região.

“A gente quer que os vizinhos contem com a gente, mas a gente não quer ser aquele vizinho que incomoda”, afirma Fabiana.

Fabrica da Coca Cola FEMSA em Jundiai SP: a maior do mundo em volume da marca (Leandro Fonseca /Exame)

Da Coca-Cola ao chá: uma produção que chega a 128 mil latas por hora

A fábrica possui 16 linhas de produção e um portfólio que vai muito além da Coca-Cola tradicional.

Em Jundiaí são produzidas bebidas em lata, PET e vidro, além de chás, sucos, Powerade e produtos destinados a restaurantes e redes de alimentação. É dali também que saem os chamados bag in box, embalagens com concentrado utilizadas nas máquinas de refrigerante de redes como McDonald's e Burger King.

Uma única linha pode produzir diferentes tamanhos, marcas e sabores.

“Uma das linhas de latas, por exemplo, tem capacidade para produzir 90 mil unidades por hora. Outra, instalada mais recentemente, chega a 128 mil latas por hora, capacidade máxima oferecida pelo fabricante do equipamento”, diz Vinicius Micau, diretor da fábrica da Coca-Cola FEMSA em Jundiaí.

Um sistema que roda com a IA

A unidade de Jundiaí tem mais de três décadas e foi modernizada ao longo dos anos.

Em uma lavadora de garrafas mais antiga, por exemplo, era necessário utilizar mais água para processar a mesma quantidade de embalagens. Nas máquinas atuais, sensores, automação e inteligência artificial acompanham variáveis como temperatura, concentração do detergente e quantidade de água utilizada.

“Conforme está a situação do envase, se está mais sujo ou menos sujo, ela se ajusta para gastar menos água”, afirma Micau.

O monitoramento também deixou de depender da inspeção individual de cada equipamento. Os indicadores da linha ficam concentrados em telas e o próprio sistema sinaliza desvios, como aumento no consumo de energia ou vazamentos.

A automação não termina quando a garrafa sai da linha. Nos meses de verão, quando o consumo aumenta, a fábrica chega a carregar entre 12 e 13 caminhões por hora. Para evitar filas na entrada da unidade, um sistema acompanha a aproximação dos veículos e identifica antecipadamente qual carga cada caminhão deverá levar.

A informação é enviada ao armazém vertical automatizado da fábrica, que possui cerca de 30 mil posições.

“Antes mesmo de o veículo chegar à doca, o sistema começa a separar os paletes correspondentes ao pedido. Quando o caminhão finalmente estaciona, boa parte da carga já está pronta”, afirma Micau.

O objetivo, segundo Micai, é fazer com que cada veículo permaneça por menos de uma hora dentro da unidade.

Em outra etapa, a presença humana é ainda menor. Na saída de algumas linhas, empilhadeiras robóticas retiram os produtos e os transportam automaticamente até o armazém.

“Sem pessoas. Tudo automatizado”, diz Micau. Segundo ele, apenas duas fábricas da companhia no Brasil contam com esse nível de automação nessa etapa: Jundiaí e Itabirito, em Minas Gerais.

Vinicius Micai, diretor da Fabrica da Coca Cola FEMSA em Jundiaí, São Paulo: "Uma das linhas chega a 128 mil latas por hora, capacidade máxima oferecida pelo fabricante do equipamento" (Leandro Fonseca /Exame)

Coca-Cola FEMSA representa 52% do volume no Brasil

Jundiaí faz parte de uma estrutura que dá à Coca-Cola FEMSA uma posição relevante dentro do Sistema Coca-Cola no país. Só essa unidade responde por aproximadamente 52% do volume de bebidas Coca-Cola comercializado no Brasil. A operação conta com 12 fábricas e cerca de 50 centros de distribuição em seus territórios.

"A fábrica de Jundiaí produziu mais de 2 bilhões de litros de bebidas em 2025, o maior volume anual de sua história. Isso significa que foram cerca de 350 milhões de caixas produzidas no período", diz Micai.

Dentro da Coca-Cola FEMSA, o Brasil é o segundo principal mercado, atrás do México.

A empresa também ampliou sua estrutura de distribuição neste ano, com a abertura de três centros de distribuição, em Mogi das Cruzes, Bauru e Embu das Artes.

Na produção, a companhia diz enfrentar um desafio que contrasta com o temor de que a automação reduza vagas industriais: encontrar trabalhadores.

“Hoje nós estamos com dificuldade de contratação na produção”, afirma Schafascheck.

Para atender ao aumento sazonal da demanda no verão, a empresa prevê contratar cerca de 2 mil trabalhadores temporários neste fim de ano. Parte desses profissionais costuma ser posteriormente absorvida pela operação.

“Supply é feito por pessoas. Não adianta dizer que eu vou ter uma entrega virtual. Eu não consigo entregar uma Coca-Cola virtual sem uma boa equipe”, diz o executivo.

E vem mais investimento

Os R$ 360 milhões de Jundiaí não encerram a rodada de aportes da companhia no Brasil.

A Coca-Cola FEMSA já começou a preparar seu próximo plano de investimentos, de 2027 a 2032. A companhia revisa anualmente capacidade produtiva, projeções de demanda e necessidades das fábricas para construir um planejamento de cinco anos. O valor do novo ciclo, no entando, ainda não foi definido.

“Estamos justamente nesse momento agora de fazer o long-range plan, que a gente chama de planejamento de longo prazo de cinco anos”, afirma o diretor Schafascheck.

A companhia vem de outro investimento pesado no país. Após as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, a fábrica de Porto Alegre permaneceu meses inativa, segundo Schafascheck.

"A operação recebeu aproximadamente R$ 800 milhões para sua recuperação", conta o diretor.

Micai também participou da operação no estado gaúcho e lembra o quão impactante foi a enchente para a empresa e funcionários.

"A água chegou a cerca de três metros de altura e aproximadamente 80% da operação foi perdido", diz. “A primeira linha de produção a gente voltou com seis meses. Foi um tempo recorde. E a fábrica completa em onze meses”, afirma.

Agora, enquanto Jundiaí ganha capacidade e eficiência, outras fábricas podem entrar na próxima rodada.

O desafio, segundo Schafascheck, será repetir a equação perseguida na maior unidade da companhia: produzir mais sem aumentar na mesma proporção a pressão sobre os recursos naturais.

“Vou aumentar a capacidade, mas tenho que ser muito eficiente com os meus recursos. Não estressar as fontes, não prejudicar os vizinhos e ser bom para as pessoas também.”

No final, os executivos seguem com a meta de fazer a companhia avançar de forma sustentável – em todos os sentidos.

Como funciona a relação da The Coca-Cola Company com as engarrafadoras

Por trás de uma garrafa de Coca-Cola existe uma divisão de tarefas que ajuda a explicar a escala global da companhia.

  • A The Coca-Cola Company é responsável, principalmente, pela criação e produção dos concentrados e xaropes que dão origem às bebidas, além do desenvolvimento das marcas e das estratégias de marketing.
  • A etapa seguinte fica nas mãos dos parceiros engarrafadores (como a Femsa). São essas empresas que recebem os concentrados, fazem a mistura com os demais ingredientes, produzem as bebidas e cuidam do envase e da embalagem.
  • Os engarrafadores também são responsáveis pela distribuição dos produtos em seus respectivos mercados, fazendo com que as bebidas cheguem a supermercados, restaurantes, bares e outros pontos de venda.

No Brasil, essa engrenagem envolve 7 grupos engarrafadores: Andina, Bandeirantes, Brasal, FEMSA, Solar, Sorocaba e Uberlândia. O Sistema Coca-Cola Brasil também inclui a Leão Alimentos e Bebidas e o Instituto Coca-Cola Brasil.

No caso da Femsa Brasil, a operação atende os consumidores da região Sudeste, Sul e parte do Centro-Oeste, além de 10 países da América Latina.

AutorLayane Serrano
FonteExame
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