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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
28/07/2026
8 min

A fabricante de sorvetes do interior paulista que desafia gigantes e mira R$ 500 milhões

Grupo Alleanza, dono da marca Perfetto, investiu R$ 51 milhões em fábrica, centros de distribuição, frota e novas linhas de produção

A fabricante de sorvetes do interior paulista que desafia gigantes e mira R$ 500 milhões

Aos 17 anos, o empresário Roque Dalcin deixou a Serra Gaúchapara estudar química e laticínios em Juiz de Fora, em Minas Gerais. Nas décadas seguintes, construiu carreira como executivo de empresas do setor de alimentos, passando por áreas industriais, comerciais e de operações. Em 2003, decidiu trocar a estabilidade corporativa pelo próprio negócio e colocou as economias acumuladas na Perfetto, fabricante de sorvetes instalada em Patrocínio Paulista, cidade próxima a Franca, no interior de São Paulo.

Mais de duas décadas depois, a companhia se prepara para uma nova fase. A Perfetto passou a integrar o Grupo Alleanza, holding criada por Dalcin para reunir seis marcas e organizar sob uma única estrutura atividades que vão da fabricação de sorvetes e chocolates à logística refrigerada.

Em 2025, o grupo faturou R$ 382 milhões e prevê crescer 12% neste ano. Para 2027, a meta é alcançar R$ 500 milhões em receita. A operação tem capacidade para produzir 15 milhões de litros de sorvetes e sobremesas congeladas por ano, atende cerca de 14 mil pontos de venda e emprega 540 pessoas.

“A primeira etapa era constituir uma base que suportasse esse crescimento, e essa base está feita. Temos um desenho industrial preparado para ultrapassar os R$ 500 milhões”, afirma Dalcin. Segundo o empresário, a estrutura construída pela companhia poderia, no longo prazo, sustentar uma operação com faturamento de até R$ 1,5 bilhão.

Como Dalcin foi de executivo a empreendedor

Dalcin começou a carreira na indústriae, ao longo de 25 anos, acumulou experiência em produção, vendas, marketing e gestão de operações. Antes de se dedicar integralmente à Perfetto, também trabalhou em empresas como La Santé, Betânia e Parmalat.

A primeira versão do negócio surgiu em 1997, como uma operação pequena administrada em paralelo pela família. Em 2003, Dalcin deixou a carreira executiva e passou a concentrar os esforços na fabricante de sorvetes. Nos primeiros anos, ainda prestou consultorias para complementar a renda enquanto a empresa ganhava escala.

A passagem por grandes companhias, diz ele, ajudou a profissionalizar a empresa desde o início.

“Como executivo, a gente ganha um legado muito importante de governança e aprende a entender todas as etapas do processo”, afirma. “Eu tive a oportunidade de trabalhar não apenas na indústria, mas também com vendas e marketing. Isso dá uma visão sistêmica do negócio e ajuda muito na tomada de decisão.”

A transição também trouxe uma mudança de perspectiva. Como executivo, Dalcin estava acostumado a administrar estruturas já estabelecidas. Como empreendedor, teve de construir a operação, financiar a expansão e lidar diretamente com riscos que antes pertenciam aos acionistas.

O crescimento ocorreu principalmente de forma orgânica, embora a empresa também tenha feito pequenas aquisições e uma fusão, em 2013, com a PDC Alimentos, distribuidora de Jundiaí que se tornou sócia do negócio. A combinação ajudou a Perfetto a ampliar sua presença nos maiores mercados do estado de São Paulo.

“Foi uma maneira de abrir caminho unindo forças, em vez de tentar fazer tudo sozinho”, afirma Dalcin.

Como a holding vai acelerar as marcas

A criação do Grupo Alleanza representa a tentativa de organizar a expansão em uma estrutura comum. A holding reúne Perfetto Sorvetes, Creme Mel, Compagnia di Gelato Piu Latte, La Mus, Perfetteria e Loggis Tecnologia Refrigerada.

Juntas, as empresas cobrem diferentes etapas da cadeia: desenvolvimento de produtos, produção industrial, distribuição, logística refrigerada e atendimento ao varejo e ao food service.

A Perfetto continua sendo o principal negócio do grupo. Sozinha, faturou R$ 360 milhões em 2025, o equivalente a aproximadamente 94% da receita consolidada. A expectativa é que as demais empresas ganhem participação conforme a holding avance em novas marcas, parcerias e aquisições.

“Hoje temos várias marcas, e a tendência é que possamos capturar outras que tenham valor histórico em determinadas regiões”, diz Dalcin. “Também podemos formar parcerias estratégicas com outros players. Como grupo, conseguimos trabalhar com diferentes desenhos.”

A estratégia acompanha uma avaliação do empresário de que o mercado brasileiro de sorvetes passa por um processo de consolidação. Historicamente pulverizado entre empresas regionais, o setor tende, segundo ele, a concentrar volume nas mãos de um número menor de fabricantes, enquanto os negócios de menor porte devem se especializar em nichos.

“A tendência é o mercado ficar concentrado em menos players. Nós decidimos nos estruturar para sermos um deles”, afirma.

Para onde foram os investimentos do grupo

Entre 2023 e 2025, o grupo investiu R$ 51 milhões na ampliação de sua estrutura. Somente em 2025, foram R$ 19 milhões destinados à construção de uma nova câmara fria, à expansão da fábrica, à instalação de linhas para produção de cones e de novos produtos e à abertura de centros de distribuição em Uberlândia, em Minas Gerais, e Penápolis, no interior paulista.

Também houve investimentos em freezers para novos pontos de venda, caminhões e baús refrigerados equipados com a tecnologia Fast Freezing.

A fábrica possui 14 linhas de produção, além de duas linhas dedicadas a chocolates. A capacidade instalada é de 15 milhões de litros por ano, e a operação logística reúne 13 filiais e 117 caminhões próprios.

A Loggis, criada em 2019, é responsável pela logística refrigerada. Parte das atividades é terceirizada, mas a companhia mantém controle sobre os principais processos de distribuição.

Para Dalcin, essa estrutura é particularmente importante em um negócio fortemente afetado pelo clima. Uma sequência de dias quentes pode fazer os pedidos aumentarem de forma abrupta, sem que a produção consiga ser ampliada na mesma velocidade.

“Quando há uma semana de calor forte, as vendas quase dobram de um dia para o outro. É preciso ter velocidade de resposta, porque a fábrica não pode ser duplicada de uma hora para outra”, afirma.

O plano inclui fortalecer um centro de distribuição central, abastecer os CDs regionais com mais rapidez e reduzir rupturas de estoque. Nos baús refrigerados, a tecnologia do grupo encurta de aproximadamente 14 horas para três horas o tempo necessário para recuperar a temperatura ideal, segundo Dalcin.

“Conseguimos economizar energia, ganhar tempo e garantir uma qualidade superior na entrega”, diz.

Como a empresa disputa com gigantes do setor

O Grupo Alleanza vende apenas no modelo B2B (de empresa para empresa). Seus produtos chegam a supermercados, padarias, minimercados, postos de combustíveis e lojas de conveniência. Embora a empresa já tenha avaliado a abertura de lojas próprias, Dalcin afirma que a prioridade é preservar o foco na indústria e na distribuição.

Ao optar por esse modelo, a companhia disputa espaço nas gôndolas com multinacionais e grandes fabricantes nacionais que possuem mais capital e maior poder de negociação com as redes varejistas.

Dalcin admite a diferença de tamanho, mas afirma que uma empresa menor consegue responder com mais rapidez a mudanças de consumo e lançar produtos em menos tempo.

“Os gigantes certamente têm mais poder financeiro para brigar, mas nós temos mais agilidade. Conseguimos desenvolver um produto e colocá-lo no mercado com mais rapidez. Com as nossas armas, brigamos com eles também.”

A inovação é um dos pilares usados para sustentar essa disputa. Ao longo de sua trajetória, a Perfetto lançou produtos como sorvetes de massa com cobertura em potes transparentes, sorvetes de corte e embalagens multipack para consumo doméstico.

Agora, o grupo também busca crescer em segmentos de maior valor agregado, como gelatos premium, food service e fabricação de marcas próprias para varejistas e redes de franquias.

Outra mudança observada pela empresa é a procura crescente por porções menores. Segundo Dalcin, a tendência pode elevar o valor das vendas mesmo sem avanço proporcional no volume comercializado.

“O mercado vem comprando porções cada vez menores. Isso gera um crescimento de valor em relação ao volume”, afirma.

Qual será o caminho até R$ 500 milhões

Para alcançar a meta de 2027, o Grupo Alleanza aposta em três frentes: ampliar a presença nos pontos de venda, usar a capacidade industrial já instalada e acelerar a distribuição. Aquisições e parcerias podem complementar esse crescimento, embora a companhia não revele negociações em andamento.

A expansão deve ocorrer principalmente no Sudeste, Centro-Oeste e Sul, regiões onde o grupo já está presente. A sazonalidade continuará sendo um dos desafios. A empresa registra o menor nível de atividade em maio e junho e usa esse período para manutenção, férias e organização da operação. A partir de setembro, com a alta das temperaturas, a demanda acelera.

“É um momento de organizar a casa, porque, quando chega setembro, a operação cresce muito rápido”, afirma Dalcin.

Foi justamente a combinação de produção, logística e capacidade de lançar produtos que transformou uma pequena fabricante do interior paulista em um grupo com quase R$ 400 milhões de receita.

Agora, Dalcin tenta provar que a mesma fórmula pode levar o negócio ao próximo patamar — e garantir à empresa um lugar entre os fabricantes que permanecerão relevantes em um setor cada vez mais concentrado.

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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