A fórmula da inovação: o que 10 estudantes brasileiros aprenderam na China
Dez estudantes do Colégio Bandeirantes passaram 20 dias entre Xangai, Pequim e Frankfurt, visitando Alibaba, Baidu e Siemens — e voltaram com uma conclusão sobre a China que vai além da tecnologia

RESUMO +
Dez estudantes brasileiros do Colégio Bandeirantes participaram, entre 8 e 29 de julho, de uma imersão educacional na China e na Alemanha. O grupo visitou empresas e universidades para conhecer aplicações de inteligência artificial, robótica e veículos autônomos. Segundo Ricardo Aguirre, a principal conclusão foi que a transformação chinesa resulta do investimento de longo prazo na formação de pessoas.
"Uma inteligência artificial que responde perguntas trabalha em um mundo onde existe resposta certa. Já o mundo físico não tem gabarito": foi essa frase que resumiu, para dez adolescentes brasileiros, o que ficou de uma imersão de 20 dias na China. A distinção veio de um professor de robótica durante uma aula na East China University of Science and Technology, em Xangai, e virou a chave de leitura de toda a viagem.
Entre 8 e 29 de julho, dez alunos do Ensino Médio do Colégio Bandeirantes passaram 20 dias em Xangai, Pequim e Frankfurt, na primeira edição do NextGen Global Leaders | China, programa criado pela SD Student Travel com o colégio como embaixador. O roteiro passou por Alibaba Group, Baidu, Siemens, Boke Technology e cinco universidades — mas a conclusão que o grupo trouxe de volta não está em nenhum robô que viram pelo caminho.
"O que explica a transformação chinesa das últimas décadas não é o robô que eles construíram. É a decisão, tomada muito antes, de tratar a formação de pessoas como infraestrutura de longo prazo", diz Ricardo Aguirre, head de marketing do Colégio Bandeirantes, que acompanhou o grupo durante toda a viagem, com exclusividade à EXAME. "Os robotáxis são consequência disso, não causa."
A universidade que forma quem ensina
A afirmação de Aguirre nasce de uma visita específica. Em Xangai, o grupo esteve na East China Normal University, uma das principais referências chinesas em formação de professores. O nome da instituição carrega a própria explicação — "Normal" vem de école normale, expressão francesa do século XIX usada para escolas dedicadas a desenvolver métodos de ensino e formar quem dá aula.
O país que hoje exporta veículos elétricos e modelos de linguagem construiu, décadas antes, uma rede de instituições assim.
Os resultados aparecem nos números: Pequim, Xangai, Jiangsu e Zhejiang lideraram o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), em ciências, com 597 pontos, e em matemática, com 612 — as maiores pontuações entre todos os sistemas avaliados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), à frente até de Singapura. E aparecem de forma planejada, via Planos Quinquenais, ciclos de cinco anos que alinham governo, escolas, universidades, pesquisa e setor produtivo.
"A pergunta sobre quais competências serão decisivas daqui a dez anos é feita antes, e o investimento em professores e currículo vem em seguida", afirma Aguirre.
A persistência da cultura de estudo, mesmo entre famílias que já conquistaram estabilidade financeira, também chamou a atenção do grupo. "Prosperidade não substitui formação, e sucesso não encerra a necessidade de estudar", diz.
Da IA generativa aos carros sem motorista
No Alibaba, os alunos passaram por uma oficina prática com ferramentas de IA generativa e viram aplicações que conectam tecnologia a impacto social, como sistemas usados para localizar crianças desaparecidas — o que puxou uma discussão que já chega às salas de aula brasileiras.
"Na era da IA, saber formular boas perguntas será tão importante quanto saber escrever. Não basta ter acesso à ferramenta. É preciso explicar o problema, definir o objetivo, orientar o processo e avaliar criticamente o resultado", afirma Aguirre.
No Baidu Apollo Park, em Pequim, os alunos entraram em um robotáxi e circularam pelas ruas sem motorista, viram um espelho inteligente capaz de corrigir a execução de exercícios físicos, e uma minivan autônoma transformada em loja móvel.
Na Siemens, visitaram um centro de manufatura inteligente com um braço robótico operando a partir de um gêmeo digital. Já na Boke Technology, empresa de games com mais de 40 milhões de downloads no Brasil, conheceram laboratórios de formação mantidos em parceria com escolas e universidades — e, mais contraditório do que qualquer tecnologia de ponta, não queriam largar o Skill Master, um jogo de tabuleiro sem telas desenvolvido pela própria empresa.
Por que a Alemanha entrou no roteiro?
A passagem pela Alemanha funcionou como o contraponto necessário para transformar a viagem em uma experiência de análise, e não apenas de encantamento.
Depois de Xangai e Pequim, cidades que representam a escala e a velocidade da transformação chinesa, o grupo seguiu para Frankfurt para observar outro modelo de desenvolvimento: uma economia madura, marcada por mercados financeiros estruturados, instituições consolidadas e um ambiente regulatório diferente.
Na Bolsa de Frankfurt, no Money Museum do Deutsche Bundesbank e na Universidade Goethe, os alunos entraram em contato com mecanismos que explicam como empresas surgem, captam recursos e se desenvolvem em contextos econômicos distintos, segundo Aguirre. A comparação entre os dois países, para o executivo, permitiu olhar para a inovação por ângulos diferentes: de um lado, a aceleração tecnológica chinesa; de outro, a construção gradual de uma economia baseada em instituições e conhecimento acumulado.
"Colocar lado a lado uma economia asiática que avança em altíssima velocidade e uma Europa mais consolidada e mais regulada permite que o aluno compare em vez de apenas admirar", afirma Aguirre.
A conexão entre os destinos também apareceu nos momentos históricos do roteiro. DaGrande Muralha, em Mutianyu, à Goethe-Haus, em Frankfurt, a viagem mostrou como sociedades diferentes transformam conhecimento e recursos em legado. Para Aguirre, a China ajuda a entender que inovação não é apenas uma característica do presente.
"A China é tradicionalmente inovadora. Aquele futuro era feito de pedra, fogo e fumaça. O de hoje é feito de dados e inteligência artificial. O mecanismo mental por trás dos dois é o mesmo", diz.
