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Sacre Investimentos
NegóciosMPOLCMDT
05/09/2026
7 min

A granja gaúcha que vende frango só no Brasil, fatura R$ 800 milhões e agora mira o primeiro bilhão

Empresa acaba de comprar uma nova operação, espera crescer 10% este ano e tem uma estratégia de crescimento baseada em proximidade

A granja gaúcha que vende frango só no Brasil, fatura R$ 800 milhões e agora mira o primeiro bilhão

No interior do Rio Grande do Sul, a rotina começa cedo. Caminhões menores saem de madrugada para abastecer restaurantes, mercados e galeterias com frango resfriado.

Um pedido feito até as 19h pode estar na porta do cliente no dia seguinte. É uma operação montada para percorrer distâncias curtas e entregar rápido.

Por trás dela está a Granja Pinheiros, empresa familiar fundada há 45 anos em Nova Petrópolis, na Serra Gaúcha, e dona da marca Ave Serra.

Hoje, a companhia abate 120 mil frangos por dia no Rio Grande do Sul e outros 60 mil em Santa Catarina. E ao contrário de boa parte das grandes empresas do setor, toda a produção fica no mercado brasileiro.

Esse modelo agora entra em uma nova fase. Depois de faturar cerca de 800 milhões de reais em 2025, a Granja Pinheiros projeta crescer cerca de 10% neste ano e prepara a operação para chegar ao primeiro bilhão de reais em faturamento em 2027.

Para sustentar esse avanço, colocou dinheiro em diferentes pontos da cadeia: comprou uma granja por 30 milhões de reais, inaugurou um novo incubatório e está ampliando o frigorífico de Santa Catarina.

“Um grande player não vai conseguir fazer o que nós fazemos: entregar praticamente em 12 horas um produto resfriado na porta do cliente”, diz Roberto Luiz Kehl, diretor administrativo da Granja Pinheiros.

Para ele, competir com empresas maiores passa menos pelo tamanho da fábrica e mais pela velocidade da entrega, variedade dos cortes e proximidade com quem compra.

O próximo passo será aumentar a produção. A nova unidade de recria, em São Francisco de Paula, elevará o plantel de 375 mil para 550 mil aves por ano. A empresa projeta ampliar em 40% a produção de ovos férteis e também prepara o frigorífico catarinense para passar de 60 mil para 90 mil abates por dia.

O que significa a aquisição

A compra da unidade de recria em São Francisco de Paula, no Rio Grande do Sul, resolve um gargalo no início da cadeia produtiva da companhia.

É nessa etapa que as aves reprodutoras são preparadas antes de começarem a produzir os ovos férteis que darão origem aos pintinhos. Com o investimento de 30 milhões de reais, a Granja Pinheiros amplia a capacidade justamente em um ponto que, segundo Kehl, estava abaixo do necessário para acompanhar a expansão.

A unidade ocupa cerca de 2 milhões de metros quadrados e tem 11 galpões, com capacidade para alojar aproximadamente 130 mil aves ao mesmo tempo.

Com a aquisição, o plantel da companhia deve passar de 375 mil para 550 mil aves por ano. A expectativa é elevar em 40% a produção de ovos férteis e, na sequência, aumentar também a oferta de frango.

“Esse elo da cadeia ainda estava deficiente”, diz Kehl. “Com mais aves recriadas, conseguimos ter mais produção de ovos férteis, depois mais pintinhos e, posteriormente, mais frango.”

O investimento se soma a outro desembolso feito neste ano. Em abril, a empresa colocou em operação um novo incubatório em Nova Petrópolis.

Segundo Kehl, foram investidos cerca de 70 milhões de reais na estrutura, parte com recursos da Finep, empresa pública de financiamento à inovação.

O incubatório faz a seleção dos ovos no 18º dia de desenvolvimento do embrião. Uma máquina identifica quais têm embriões vivos e retira do processo aqueles que não devem eclodir. Na prática, isso reduz o uso de vacinas e também o risco de contaminação na fase final da incubação.

“É quase uma ecografia dos ovos férteis”, diz Kehl. “Só continuam no processo aqueles que efetivamente vão nascer.”

Como uma empresa regional tenta competir com gigantes

A expansão acontece em um mercado concentrado e dominado por companhias com escala maior, acesso ao mercado externo e mais recursos para investir em marca.

A Granja Pinheiros escolheu outro caminho.

A empresa não exporta. Sua produção é destinada principalmente ao Rio Grande do Sul e a Santa Catarina, onde atende desde grandes redes até pequenos mercados, restaurantes e galeterias.

Kehl afirma que essa concentração regional permite que a companhia trabalhe com prazos e produtos que seriam mais difíceis de encaixar na operação de grandes frigoríficos. Um dos exemplos é a entrega de produtos resfriados. Segundo ele, pedidos feitos até as 19h podem chegar ao cliente no dia seguinte.

Há restaurantes que trabalham praticamente sem estoque e recebem os produtos pela manhã para usar nas refeições daquele mesmo dia.

“Um grande player não vai conseguir fazer o que nós fazemos: entregar praticamente em 12 horas um produto resfriado na porta do cliente”, diz Kehl.

A empresa também trabalha com cortes e pesos específicos para determinados clientes.

Uma galeteria pode pedir aves dentro de uma faixa determinada de peso. Um restaurante pode solicitar coxa e sobrecoxa sem determinadas partes. Outros compram filé de peito já cortado em cubos.

Essa flexibilidade virou uma das apostas da companhia para competir em um setor em que, segundo Kehl, o acesso à tecnologia de produção ficou mais parecido entre empresas de diferentes tamanhos.

“A genética é a mesma. A alimentação tem o mesmo nível de tecnologia e a informação está disponível para todos”, diz. “O grande diferencial passa a ser realmente o serviço.”

Como eles crescem junto com os clientes

Essa especialização em produtos sob medida também criou relações de longo prazo com redes de alimentação.

Um dos exemplos citados por Kehl é o Galeto Di Paolo, rede de restaurantes de origem gaúcha que hoje possui operações em diferentes estados.

A Granja Pinheiros fornece o galeto usado pela rede e precisa trabalhar dentro de faixas específicas de peso, porque o tamanho da ave interfere diretamente na padronização dos pratos. “Eles são muito exigentes. Para eles, é muito importante que o galeto tenha um peso específico”, diz Kehl.

A expansão dos restaurantes também cria um desafio logístico. Quanto maior a distância do Rio Grande do Sul, mais difícil fica transportar um produto resfriado dentro do prazo necessário.

Segundo Kehl, em algumas rotas a empresa precisa avaliar inclusive o transporte aéreo para manter a característica do produto.

É um exemplo de como o modelo que ajudou a companhia a crescer regionalmente também pode impor limites à expansão geográfica.

E o futuro?

A próxima frente de investimento está no frigorífico de Grão-Pará, em Santa Catarina.

A unidade abate atualmente cerca de 60 mil frangos por dia, e a meta da companhia é chegar a 90 mil.

Kehl estima investimentos de 15 milhões a 20 milhões de reais na planta, incluindo um túnel contínuo de congelamento.

A estrutura deve reduzir o contato dos funcionários com ambientes de temperatura muito baixa e aumentar a capacidade de congelamento.

Ao mesmo tempo, a empresa começou a ampliar o portfólio de produtos que exigem menos preparo em casa. Entre eles estão empanados, produtos temperados e uma linha voltada para air fryer, aparelho que prepara alimentos por circulação de ar quente.

“Estamos tentando acompanhar a mudança do consumo”, diz Kehl. “Já temos uma linha de air fryer com boa venda. O consumidor abre o pacote, coloca o produto e, em alguns minutos, ele está pronto.”

A aposta reflete uma mudança que a empresa diz perceber no comportamento dos consumidores: a busca por refeições que exijam menos tempo de preparo.

Para uma companhia que cresceu vendendo frango resfriado e cortes personalizados, o desafio agora é adicionar conveniência sem perder a operação que sustenta sua presença regional.

Qual é a história da Granja Pinheiros

A Granja Pinheiros foi fundada em 1981 por Armando e Vera Kehl, pais de Roberto.

A empresa começou com a produção de pintinhos de um dia e depois avançou para o abate de frangos. Hoje, controla diferentes etapas da cadeia, da recria das matrizes à incubação, produção de ração, abate, processamento e distribuição.

A companhia está na segunda geração da família, com integrantes da terceira já trabalhando no negócio.

Kehl afirma que a quarta geração também começa a acompanhar a operação, enquanto a empresa reforça processos de governança para preparar a sucessão.

O tamanho da operação também mudou. “Ano que vem”, diz Kehl, ao ser perguntado quando a companhia pretende alcançar o primeiro bilhão de reais em faturamento.

O caminho até lá passa por mais aves, mais capacidade de abate e novos produtos.

Mas também depende de preservar justamente o que a Granja Pinheiros usa para tentar se diferenciar das maiores empresas do setor: vender perto, adaptar o produto e entregar rápido.

AutorDaniel Giussani
FonteExame
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