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MundoCMDT
04/08/2026
6 min

A guerra invisível do Irã: petróleo, comércio e pressão sobre o Ocidente

Enfrentando um inimigo militarmente muito mais poderoso, Teerã se aproveita de suas vantagens ao máximo, levando o mundo todo como refém

A guerra invisível do Irã: petróleo, comércio e pressão sobre o Ocidente

O Irã aposta que pode resistir por mais tempo do que os Estados Unidos ao transformar rotas comerciais, corredores marítimos e infraestrutura energética do Oriente Médio em instrumentos de pressão contra o mundo inteiro.

Em vez de buscar uma vitória militar decisiva no campo de batalha, Teerã está adotando uma estratégia de escalada calibrada.

O objetivo é ampliar gradualmente o conflito sem provocar uma guerra em larga escala. Segundo analistas ouvidos pela Reuters, a liderança iraniana tenta convencer Washington e seus aliados de que conter a crisecustará mais caro do que aceitar as exigências de Teerã sobre o Estreito de Ormuz.

A disputa, que originalmente estourou por imbróglios diplomáticos, atualmente tem como cerne o controle político e administrativo da principal via energética da região, o que leva economias pelo mundo todo como reféns: cerca de 80% do petróleo transportado por Ormuz tinha como destino a Ásia, o que desencadeou uma séria crise energética em muitos países da região.

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Vista de satélite do Estreito de Ormuz com linhas gráficas brancas representando rotas marítimas globais e tráfego marítimo entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã. Conceito estratégico de transporte de petróleo

Estreito de Ormuz: passagem marítima vital segue com futuro incerto, alongando o conflito no Irã e gerando crises energéticas por todo o mundo (GettyImages) (GettyImages)

A mensagem transmitida pelo Irã é que, sem um novo arranjo que lhe conceda maior influência sobre Ormuz, o conflito poderá ultrapassar os limites do Golfo. Ao colocar em risco diferentes pontos de estrangulamento marítimo e ativos energéticos — de importância vital para o mundo todo —  Teerã busca fortalecer sua posição em futuras negociações.

Michael Knights, do think tank Washington Institute, afirmou à Reuters que o Irã tenta “superar a escalada” americana ao manter sempre uma nova opção de pressão disponível. Isso incluiria novas áreas geográficas, novos tipos de armas e novos alvos.

Para o analista, a principal vantagem iraniana não é causar danos diretos aos Estados Unidos nem a Israel. O impacto mais relevante estaria na capacidade de afetar os países da região e a economia global.

Após demonstrar capacidade de interromper o tráfego em Ormuz — por onde passava cerca de um quinto do consumo mundial de petróleo antes da guerra —, o Irã sinalizou que o conflito pode desestabilizar toda a economia global.

As ameaças passaram a incluir o Mar Vermelho e a infraestrutura energética saudita, senão pela força bélica iraniana, por meio de seus proxies na região, como os Houthis no Iêmen e o Hezbollah no Líbano, grupos armados patrocinados por Teerã que lutam pelos interesses do Irã.

Uma fonte do Golfo afirmou à Reuters que comandantes da Guarda Revolucionária acreditam que ainda podem obter mais concessões dessa forma. Essa percepção estaria ligada à avaliação de que Donald Trump evita se envolver profundamente em outro conflito no Oriente Médio antes das eleições legislativas de novembro.

Na visão iraniana, ampliar a guerra e aumentar a pressão acabariam por forçar Washington a ceder. A mesma fonte disse à Reuters que Teerã considera improvável que os iranianos se dobrem diante de ataques mais duros dos Estados Unidos.

Diplomacia

Um cartaz anunciando as negociações de paz entre os EUA e o Irã, mediadas pelo Paquistão, na capital paquistanesa de Islamabad (Farooq NAEEM/AFP) (Farooq NAEEM/AFP)

Essa lógica também sustenta a estratégia de negociação do Irã. Trump afirmou que conversas com Teerã ocorreriam nesta segunda-feira, depois de dizer anteriormente que cancelou um ataque iminente na esperança de obter um acordo para reabrir o Estreito de Ormuz.

O governo iraniano, porém, declarou quenão mantém atualmente negociações com os Estados Unidos, descartando as falas de Trump. Uma fonte anônima iraniana disse à Reuters que tentativas anteriores de flexibilidade apenas resultaram em maior pressão dos EUA, reforçando a ideia de que, primeiro, é preciso criar poder de barganha.

Michael Singh, também do Washington Institute, afirmou ao veículo que Teerã ainda acredita ter a iniciativa. Segundo ele, a administração Trump aparenta incerteza sobre até onde está disposta a ir militarmente.

Por sua vez, Alan Eyre, ex-diplomata americano e especialista em Irã, avaliou que a estratégia iraniana busca dissuadir Washington, forçando o fim do bloqueio e dos ataques militares. O objetivo seria impedir que os Estados Unidos ditem o ritmo dos acontecimentos.

No centro da disputa está o futuro da governança de Ormuz. Fontes regionais disseram que Omã apresentou ao Irã uma proposta, apoiada por países do Golfo, para administrar a hidrovia, incluindo taxas voluntárias de uso, mas Teerã quer autoridade administrativa e cobrança de serviços de embarcações, enquanto Washington insiste que o estreito permaneça uma via internacional livre de controle iraniano.

Até então, sucesso

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Curso doonflito no Oriente Médio, apesar de custoso e violento, se alinha com a estratégia iraniana (KEN CEDENO/AFP) (KEN CEDENO/AFP)

A campanha iraniana já produziu um efeito considerado coerente com os seus interesses. À medida que as ameaças se expandiram para além de Ormuz, potências regionais e ocidentais passaram a concentrar esforços na proteção de rotas comerciais e de infraestrutura energética, e não em intensificar diretamente a pressão sobre o Irã.

A coalizão marítima liderada pela Arábia Saudita é vista por fontes do Golfo como um mecanismo defensivo voltado à escolta de navios comerciais, ao compartilhamento de inteligência e à proteção das rotas marítimas. Knights compara a iniciativa à missão europeia Aspides no Mar Vermelho, criada para proteger o tráfego mercante, não para alterar o equilíbrio militar.

Para Teerã, isso representa um sinal de sucesso parcial. Sem capacidade de rivalizar diretamente com o poder militar americano, oIrã ainda pode impor custos ao forçar governos e marinhas a adotarem uma postura defensiva permanente.

Cada nova ameaça em Ormuz, Bab al-Mandeb ou outros pontos estratégicos aumenta os recursos necessários para manter o comércio global em funcionamento. No fundo, a disputa tornou-se uma competição de resistência econômica, militar e política.

Líderes iranianos parecem acreditar que conseguem suportar a pressão econômica por mais tempo do que uma coalizão liderada pelos Estados Unidos consegue suportar interrupções recorrentes no comércio mundial e nos mercados de energia.

Ao demonstrar que pode ampliar a crise quando necessário, Teerã também tenta moldar os termos de qualquer negociação futura.

Ray Takeyh, do Council on Foreign Relations, resumiu à Reuters que, se houver negociações, o Irã quer definir as condições da mesa. Ainda assim, nenhum dos lados parece disposto a recuar, e o risco permanece o de que uma estratégia criada para maximizar poder de barganha acabe escapando ao controle de Washington e Teerã.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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