A história do hotel que recebeu presidentes em Balneário Camboriú e agora vira prédio de 178 metros
Inaugurado em 1957, o Hotel Fischer recebeu Juscelino Kubitschek, João Goulart e gerações de famílias antes de dar lugar a um residencial de luxo

Antes das torres, dos apartamentos de alto padrão e da disputa pelo metro quadrado, Balneário Camboriú era uma cidade com poucos hotéis, acesso limitado e uma faixa de praia que começava a atrair famílias do interior de Santa Catarina.
Foi nesse cenário que surgiu o Hotel Fischer. Inaugurado em 15 de dezembro de 1957, o empreendimento ocupava um terreno na Barra Sul, longe da área mais movimentada da cidade naquela época. Décadas depois, o mesmo endereço passou a receber as obras do Fischer Dreams, residencial com duas torres de até 178 metros.
A história voltou ao centro das atenções porque a construção entra agora na fase final. O novo empreendimento terá 119 apartamentos, plantas de 186 a 491 metros quadrados e mais de 7 mil metros quadrados de lazer. Nas áreas comuns, a incorporadora pretende preservar fotos, livros de hóspedes e registros do antigo hotel.
“Era um hotel que tinha uma bagagem de história e de conexão com muitas histórias de família”, afirma Clóvis de Albuquerque Filho, diretor comercial da Procave, incorporadora responsável pelo novo projeto.
O futuro do endereço será residencial. Mas parte do valor do empreendimento está justamente no que existiu ali antes: um hotel que recebeu presidentes, marcou luas de mel, acompanhou o crescimento da cidade e ajudou a apresentar Balneário Camboriú a famílias do Sul do país.
Como este hotel foi erguido
Quando o Hotel Fischer foi inaugurado, Balneário Camboriú ainda fazia parte do município de Camboriú. A área onde o hotel foi construído tinha pouca infraestrutura. O acesso era limitado, não havia rede regular de energia e parte da operação dependia de gerador. A eletricidade ficava disponível apenas até as 23 horas.
O primeiro prédio tinha cerca de 20 quartos. Quatro deles contavam com banheiro dentro do próprio quarto, algo raro para os padrões da hotelaria brasileira da década de 1950.

A estrutura chamou a atenção dos hóspedes. Em um dos registros deixados no Livro de Ouro, o livro usado por visitantes para escrever impressões sobre a estadia, João Goulart destacou a modernidade do hotel e a presença de banheiros privativos.
Além de Goulart, o Hotel Fischer recebeu Juscelino Kubitschek. As passagens dos ex-presidentes ajudaram a consolidar a imagem do endereço em uma cidade que ainda começava a formar sua identidade turística.
A família que voltou da Alemanha depois da guerra
A origem do hotel está ligada à trajetória da família Fischer. Adolf Fischer e Hertha Fischer vieram para o Brasil depois da Primeira Guerra Mundial e se estabeleceram em Videira, no interior de Santa Catarina. O casal teve quatro filhos no país.
Com o aumento da hostilidade contra alemães antes da Segunda Guerra Mundial, a família decidiu voltar para a Alemanha. Pouco depois da chegada, Adolf foi convocado para o Exército alemão. Atuou durante a guerra, foi preso e só conseguiu retornar para casa em 1947.
No pós-guerra, a família recorreu ao Exército brasileiro para tentar repatriar os quatro filhos, que tinham nascido no Brasil. O pedido foi aceito, e todos retornaram para Santa Catarina.
De volta ao país, os Fischer passaram a trabalhar no Hotel Miramar, um dos poucos estabelecimentos de Balneário Camboriú naquele período.
Com o dinheiro acumulado, compraram um terreno na Barra Sul e começaram a construir o próprio hotel.
O Hotel Fischer abriu as portas em dezembro de 1957 com arquitetura de inspiração alemã e uma estrutura que se destacava em uma cidade ainda pequena.

Como o hotel se consolidou na cultura de Balneário Camboriú
O hotel cresceu junto com uma mudança no comportamento das famílias do Sul do país.
Naquele período, férias escolares de verão podiam durar até três meses. Famílias com maior renda passavam 20 ou 30 dias no litoral. O Hotel Fischer começou a receber hóspedes de Blumenau, Brusque, Jaraguá do Sul, Curitiba e cidades do Rio Grande do Sul.
Muitos voltavam todos os anos. Casais escolhiam o hotel para a lua de mel. Anos depois, retornavam com os filhos. Algumas crianças passaram vários verões seguidos no mesmo endereço.
“Vinham para a lua de mel, dois anos depois voltavam com o primeiro filho e repetiam essa rotina”, afirma Albuquerque Filho.
Os livros de hóspedes registraram parte dessas histórias. Havia relatos de casais recém-casados, desenhos feitos à mão e descrições das temporadas na praia. Em alguns casos, os visitantes desenhavam a silhueta da mulher tomando sol ou caminhando sob o luar.
Para famílias do interior de Santa Catarina, viajar até Balneário Camboriú naquele período representava uma mudança de cenário e de rotina. Segundo Albuquerque Filho, passar a lua de mel na cidade podia ter um peso simbólico semelhante ao de uma viagem internacional para os padrões da época.
O homem que foi a cara do hotel
Klaus Fischer, filho de Adolf e Hertha, passou a exercer um papel central na operação. Ele se tornou uma espécie de relações-públicas do hotel, o profissional responsável por receber hóspedes, criar vínculos e manter o ambiente social do empreendimento.
Klaus era conhecido pelo cavanhaque e pelo cachimbo. Mesmo sem ser marinheiro, cultivava uma imagem ligada ao mar e à vida na praia. Era ele quem circulava entre os hóspedes, conversava com empresários e acompanhava as famílias durante as longas temporadas de verão.
Com o crescimento do turismo e a melhoria do acesso rodoviário, Klaus percebeu que o hotel precisava aumentar sua capacidade. Na década de 1970, a família construiu uma torre de 12 andares ao lado do prédio original.

Naquele momento, a torre estava entre asconstruções mais altas de Balneário Camboriú. O novo edifício tinha linhas retas e influência modernista, estilo arquitetônico marcado por formas simples e pouca ornamentação.
A ampliação permitiu ao hotel receber mais hóspedes e acompanhar a expansão da cidade.
Como o hotel ajudou a vender Balneário Camboriú
Antes da expansão do mercado imobiliário, os hotéis funcionavam como porta de entrada para quem queria conhecer a cidade. Famílias passavam férias no Fischer, observavam a construção de novos prédios e acompanhavam a abertura de lojas, restaurantes e serviços.
Com o tempo, parte desses hóspedes decidiu comprar apartamentos em Balneário Camboriú. O hotel ajudou, portanto, a transformar turistas em proprietários. “O Hotel Fischer teve papel importante na formação de Balneário Camboriú como destino turístico e imobiliário”, afirma Albuquerque Filho.
Esse movimento ganhou força depois do asfaltamento da BR-101, que melhorou o acesso ao litoral catarinense. A cidade passou a receber mais visitantes, o número de hotéis aumentou e o mercado de apartamentos de veraneio começou a crescer.
O sucesso desse modelo também criou um problema para o próprio Fischer. Alguns dos hóspedes que passavam semanas no hotel compraram imóveis na cidade e deixaram de usar a hospedagem.
O começo do declínio
A década de 1980 foi um dos períodos de melhor desempenho do Hotel Fischer. Nos anos 1990, porém, o cenário começou a mudar.
Novos hotéis chegaram à cidade com estruturas mais recentes. O mercado imobiliário também passou a disputar o mesmo público que antes dependia da hospedagem. O prédio envelheceu, e as margens da operação foram diminuindo.
A operação deixou de ser sustentável no modelo anterior. Entre 2008 e 2009, a família Fischer começou a conversar com a Procave sobre um novo uso para o terreno. A incorporadora assumiu o controle do ativo, enquanto a família permaneceu como sócia do negócio.
O hotel continuou funcionando até 2012. Depois do fechamento, o terreno continuou atraindo visitantes.
Algumas pessoas iam até o antigo endereço para perguntar pelo hotel e contar lembranças. “Recebemos pessoas que diziam: ‘Meu pai passou a lua de mel aqui com a minha mãe’, ‘eu frequentei esse hotel’ ou ‘foi aqui que conheci minha primeira namorada’”, afirma Albuquerque Filho.
Os relatos ajudaram a Procave a entender que o hotel tinha um peso que ultrapassava o valor do terreno. A incorporadora instalou no local um painel de 28 metros de largura por 6 metros de altura. O material reunia fotografias da família Fischer, páginas dos livros de hóspedes, imagens dos ex-presidentes e registros de diferentes períodos do hotel.
O painel também apresentava o nome do novo empreendimento: Fischer Dreams. A intenção era mostrar que o endereço mudaria de função, mas manteria uma conexão com o passado.
A estrutura física mudou. O desafio da incorporadora será impedir que a história fique restrita ao nome colocado na fachada.
