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Sacre Investimentos
InvestMercadosACS
30/07/2026
6 min

A Hypera agora tem seu próprio Ozempic. E a empresa pode faturar R$ 1 bi com ele

BTG estima que medicamentos GLP-1 podem chegar a 7% da receita da empresa até 2030, mas concorrência pressiona preços

A Hypera agora tem seu próprio Ozempic. E a empresa pode faturar R$ 1 bi com ele

Aaprovação de duas novas canetas de semaglutida pode abrir uma nova frente de crescimento para a Hypera (HYPE3). Segundo avaliação do Citi, a entrada da companhia no mercado de medicamentos da classe GLP-1 pode adicionar entre 3% e 5% ao Ebitda da farmacêutica, embora a pressão competitiva sobre preços seja apontada como o principal risco para a rentabilidade da categoria.

A análise ocorre após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovar, nesta quarta-feira, 29, o registro de cinco novos medicamentos injetáveis à base de semaglutida no Brasil. Entre eles estão o Semavy, da Cosmed, e o Zempneo, da Brainfarma, marcas da Hypera, além do Owozy, da Ávita Care, e do Seemasun e Orsema, da Sun Pharma e Ranbaxy Farmacêutica.

A aprovação marca uma nova etapa na corrida pelas chamadas “canetas emagrecedoras”, medicamentos originalmente desenvolvidos para diabetes tipo 2 que ganharam popularidade pelo uso no tratamento da obesidade. Os novos produtos entram no mercado após o fim da patente da semaglutida da Novo Nordisk, em março de 2026, abrindo espaço para versões sintéticas do princípio ativo.

Para o Citi, a aprovação ajuda a colocar no radar dos investidores uma oportunidade que ainda estaria pouco precificada pelo mercado para a Hypera. O banco avalia que o potencial de crescimento existe, mas destaca que a dinâmica de preços será determinante para definir a rentabilidade da operação.

Um dos pontos de atenção está justamente na maior concorrência. A Sun Pharma, que também recebeu aprovação para seus próprios produtos de semaglutida, é parceira de fabricação da Hypera para esses medicamentos, o que pode criar uma nova disputa dentro da cadeia.

O banco aponta que a expansão do mercado pode beneficiar o segmento de varejo farmacêutico, com aumento de volume e maior presença dos medicamentos GLP-1 nas farmácias. Ainda assim, o Citi mantém uma visão mais cautelosa sobre a economia por unidade vendida, diante da incerteza sobre preços e margens.

O BTG Pactual também avalia que a aprovação é positiva para a Hypera, mas destaca que o cenário competitivo ficou mais disputado do que o esperado. Segundo o banco, a expectativa inicial era que a companhia estivesse entre as duas ou três primeiras empresas a entrar no mercado, mas cinco produtos foram aprovados simultaneamente pela Anvisa.

Para o BTG, a aprovação elimina o principal obstáculo regulatório e abre caminho para a comercialização dos medicamentos. A administração da Hypera indicava anteriormente que os produtos poderiam chegar ao mercado cerca de 90 dias após a aprovação, o que aponta para um possível lançamento no quarto trimestre de 2026. O próximo marco será a definição do teto de preços pela CMED.

Apesar da maior concorrência, o banco estima que a oportunidade pode ser relevante para a Hypera. Em um cenário em que a companhia conquiste 20% de participação no mercado de semaglutidas sintéticas de marca, o BTG projeta uma contribuição de aproximadamente R$ 380 milhões em receita em 2027, equivalente a cerca de 4% da receita total da empresa. Em 2030, essa contribuição poderia chegar a aproximadamente R$ 960 milhões, ou cerca de 7% das receitas, segundo as estimativas do banco.

O Santander também vê potencial na Hypera, mas destaca que a execução será determinante para transformar a aprovação dos novos medicamentos em resultado financeiro. O banco mantém recomendação “Outperform” para as ações da companhia, com preço-alvo de R$ 29,00, mas aponta riscos relacionados ao lançamento e comercialização de novos produtos, incluindo a capacidade da empresa de capturar demanda no mercado de GLP-1.

Além desse fator, o Santander destaca outros riscos para a tese de investimento, como a exposição cambial — cerca de 40% dos custos da Hypera são denominados em dólar —, possíveis mudanças regulatórias, manutenção de benefícios fiscais e a capacidade de sustentar o crescimento das vendas ao consumidor final.

Quando as novas canetas chegam às farmácias?

Apesar da aprovação da Anvisa, os cinco medicamentos ainda não podem ser comercializados imediatamente. Antes da chegada às farmácias, as empresas precisam passar pela definição de preços da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED).

A CMED é o órgão responsável por estabelecer o teto de preços dos medicamentos no Brasil. A câmara define três referências: o Preço Fábrica (PF), utilizado nas vendas entre fabricantes e distribuidores; o Preço Máximo ao Consumidor (PMC), que determina o limite para as farmácias; e o Preço Máximo de Venda ao Governo (PMVG), aplicado em compras públicas.

Esses valores funcionam como um limite máximo, e não como um preço obrigatório. As farmácias podem vender abaixo do teto estabelecido, permitindo descontos e competição entre marcas.

Como os novos produtos de semaglutida foram registrados por comparação com medicamentos já existentes, a tendência é que a CMED utilize referências dos produtos atualmente disponíveis no mercado.

Quanto custa uma caneta de semaglutida hoje no Brasil?

Enquanto os novos medicamentos aguardam a definição de preço,os valores máximos atuais da categoria mostram o tamanho do mercado em disputa.

Segundo a tabela da CMED, os medicamentos à base de semaglutida disponíveis no país, incluindo marcas da Novo Nordisk e produtos da Eurofarma, possuem preços máximos ao consumidor que variam conforme a apresentação e a alíquota de ICMS de cada estado.

Medicamento/apresentação Faixa de preço máximo ao consumidor (PMC)
Ozivy (caneta de 1,5 mL, apresentação de entrada) R$ 544,50 a R$ 707,14
Ozempic, Wegovy, Poviztra, Extensior e Ozivy (doses baixas e médias) R$ 1.077,79 a R$ 1.399,72
Wegovy e Poviztra (dose de 2,27 mg/mL) R$ 1.614,43 a R$ 2.096,66
Wegovy e Poviztra (dose de 3,2 mg/mL) R$ 2.076,49 a R$ 2.696,75
Rybelsus (semaglutida oral, caixa com 10 comprimidos) R$ 384,89 a R$ 499,86
Rybelsus (caixa com 30 comprimidos) R$ 1.154,77 a R$ 1.499,70

Os valores representam o teto permitido pela regulação, e não necessariamente o preço final praticado pelas farmácias. A própria EMS, ao lançar o Ozivy, comercializou o produto abaixo do limite regulatório, com a caneta de entrada a partir de R$ 452 e condições promocionais para pacientes cadastrados em programas da companhia.

Fim da patente abre espaço para novos concorrentes

A entrada de novos fabricantes acontece após o encerramento da patente da semaglutida da Novo Nordisk, movimento que abriu espaço para versões sintéticas do princípio ativo.

Segundo a Anvisa, 68% dos pedidos de registro de medicamentos injetáveis para diabetes e obesidade já são de produtos sintéticos, indicando uma corrida da indústria para capturar parte desse mercado.

A expectativa é que o aumento da concorrência pressione os preços ao longo do tempo. O histórico da liraglutida, molécula anterior da mesma classe, é usado como referência: após a chegada de novos concorrentes, houve expansão da categoria e redução dos valores praticados.

No caso da semaglutida, porém, a queda tende a ocorrer de forma mais gradual. Relatórios do BTG Pactual apontam que, por serem medicamentos análogos — e não genéricos tradicionais —, os descontos iniciais podem ser mais moderados.

A disputa agora envolve não apenas a Novo Nordisk, dona do Ozempic e Wegovy, mas também empresas brasileiras e multinacionais que buscam uma fatia de um dos segmentos mais disputados da indústria farmacêutica.

AutorLetícia Furlan
FonteExame
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