A IA já chegou aos prédios — mas ainda não escolhe onde construir
Incorporadoras usam IA para acelerar projetos, vendas e obras, mas decisões bilionárias como compra de terrenos continuam dependendo de experiência e relacionamento

Durante décadas, o mercado imobiliário foi uma indústria de ciclos longos. Entre a compra de um terreno, a aprovação de um projeto, a criação de materiais de venda e a entrega das chaves, podem passar anos. Agora, a inteligência artificial começa a encurtar etapas que antes consumiam meses — da criação de imagens de empreendimentos à análise de contratos e acompanhamento de obras.
Mas existe uma decisão que continua fora do alcance dos algoritmos: escolher o próximo terreno.
Empresas como Benx, do Grupo Bueno Netto, e G.D8 estão usando inteligência artificial para acelerar diferentes partes do desenvolvimento imobiliário. As duas companhias têm em comum projetos de grande escala e alto grau de complexidade, em que decisões mais rápidas podem representar ganhos relevantes de produtividade.
A Benx é responsável por um dos maiores projetos imobiliários em desenvolvimento em São Paulo, o Parque Global, na Marginal Pinheiros. O empreendimento reúne residências, hotelaria, saúde, educação e áreas comerciais em um terreno de 218 mil metros quadrados, equivalente a cerca de 30 campos de futebol, com Valor Geral de Vendas (VGV) de R$ 14,2 bilhões.
Já a G.D8 atua no mercado corporativo de alto padrão e ganhou projeção com o Biosquare, edifício de 25 andares na Avenida Rebouças, em Pinheiros, com mais de 39 mil metros quadrados de área locável. O projeto atraiu grandes empresas de tecnologia, como a Amazon, em um momento de transformação do mercado de escritórios após a pandemia.
Em empresas desse porte, a inteligência artificial passou a ser usada não apenas para automatizar tarefas, mas para acelerar decisões ao longo de toda a cadeia de desenvolvimento imobiliário.
Da planta ao contrato
A inteligência artificial começou a alterar etapas que historicamente dependiam de processos manuais dentro das incorporadoras. A tecnologia já é usada para criar conceitos de produtos, gerar imagens tridimensionais, testar diferentes cenários comerciais e acelerar análises que antes levavam semanas ou meses.
Na G.D8, incorporadora especializada em edifícios corporativos de alto padrão, a IA passou a ser utilizada em diferentes áreas do negócio, como produto, projetos, novos negócios, marketing, financeiro, atendimento e obras.
“A IA está presente na concepção do produto, nos projetos, em novos negócios, marketing, financeiro, atendimento e obras. É uma atuação transversal, que vai da criação do produto até sua execução”, afirma Daniel Ribeiro, CEO da G.D8.
Segundo o executivo, um dos maiores ganhos aparece na fase de conceituação e comunicação dos empreendimentos. A geração de imagens e maquetes 3D, que antes exigia meses de trabalho, passou a ser feita em poucas semanas.
“Mais do que velocidade, a IA muda o próprio fluxo de trabalho. Conseguimos testar ideias para um produto a partir das imagens antes de levá-lo de fato ao mercado, sem gastar meses desenvolvendo por completo um projeto que ainda será ilustrado”, afirma.
Na avaliação de Ribeiro, o ganho não está apenas em reduzir tempo, mas em permitir que a reação do cliente entre mais cedo no processo de desenvolvimento, reduzindo retrabalho e melhorando a aderência do produto final.
O algoritmo ajuda, mas não compra terrenos
A maior promessa da IA no setor imobiliário está na capacidade de analisar grandes volumes de dados e acelerar decisões. Mas, para as incorporadoras, ela ainda não substitui uma das etapas mais importantes do negócio: a aquisição do terreno.
A tecnologia consegue ajudar a mapear regiões, analisar dados públicos e testar quais produtos poderiam funcionar em determinada localização. Mas a decisão final envolve fatores menos objetivos, como negociação com proprietários, leitura do bairro e visão de longo prazo.
“A decisão de compra do terreno continua humana: envolve leitura de contexto, negociação e visão de longo prazo que a IA ainda não substitui”, afirma Ribeiro.
Segundo o CEO da G.D8, a empresa criou uma ferramenta própria com inteligência artificial capaz de consultar simultaneamente diferentes dados públicos relacionados à aquisição de terrenos, tornando o processo mais organizado e preciso.
