A IA vai destruir empregos — e isso pode derrubar a bolsa, diz gestor

O fundador e CEO da Muddy Waters Capital, Carson Block, famoso por relatórios que derrubaram ações de empresas ao revelar fraudes, voltou a chamar atenção nesta segunda-feira, 22, com um alerta sobre as mudanças de mercado envolvendo a inteligência artificial e o futuro do trabalho.
A tese, desenvolvida no podcast Merryn Talks Money, em falas repercutidas pelo Business Insider, é que a destruição em massa de empregos causada pela IA pode travar o fluxo de dinheiro que sustenta as bolsas em Nova York e abrir caminho para uma renda básica universal.
Corte de 15 milhões de vagas no radar
Block estima que, nos próximos anos, cerca de 15% dos "trabalhadores do conhecimento" nos Estados Unidos podem perder seus empregos para a IA. Ao todo, são cerca de 100 milhões de pessoas empregadas em áreas como tecnologia, direito e finanças.
O setor jurídico é um dos exemplos que ele cita. Modelos de linguagem como o Claude, da Anthropic, já são capazes de compilar e organizar informações com tanta eficiência que podem eliminar "incontáveis horas faturáveis", segundo o gestor.
A diferença em relação a crises anteriores, na visão dele, é estrutural. Nas recessões do passado, os empregos perdidos voltavam com a retomada do crescimento ou os trabalhadores migravam para outras funções.
Com a IA, isso não acontece, pois "aqueles empregos foram embora, e o número de cadeiras para humanos vai continuar diminuindo", disse.
O mecanismo que pode derrubar o S&P 500
A conexão entre desemprego e bolsa, na lógica de Block, passa pela previdência privada. Trabalhadores que perdem a renda tendem a sacar recursos de suas contas de aposentadoria para cobrir despesas e deixam de fazer aportes mensais.
Somado à onda de resgates de uma geração de estadunidenses chegando à aposentadoria, esse movimento pode transformar as entradas líquidas do S&P 500 em saídas líquidas, derrubando os preços.
O S&P 500 operava em queda de 0,35% hoje, aos 7.474 pontos, por volta das 11h18 (horário de Brasília).
O cenário se agrava pelo avanço dos fundos passivos, na explicação do especialista. Com menos gestores ativos no mercado, haveria poucos compradores dispostos a absorver a queda.
Block compara a fragilidade estrutural criada pelo investimento passivo à que antecedeu a crise financeira global de 2008. Na mesma linha do que Michael Burry, do filme "A Grande Aposta", já havia alertado.
Nem todo o cenário é pessimista
Apesar de Block ter sido cético em relação à IA até fevereiro, sua visão mudou com o lançamento de ferramentas de nova geração, que o convenceram de que há "economia real de trabalho" a ser capturada.
Para a classe média, ele projeta uma semana de trabalho de dois ou três dias, com renda suficiente para gastar em viagens, lazer e pequenos negócios.
Para a parcela mais vulnerável da população, a previsão é de renda básica universal, sem necessidade de trabalhar. "A boa notícia é que acredito que a maioria das pessoas viverá vidas razoavelmente confortáveis", pontua.
