Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
InvestMercados
19/06/2026
7 min

A 'maldição' da Warner: o que a história de fusões desastrosas significa para a Paramount

A 'maldição' da Warner: o que a história de fusões desastrosas significa para a Paramount

Existe uma expressão circulando em Wall Street e na imprensa americana para descrever o padrão que se repete sempre que alguém tenta comprar os ativos ligados à marca Warner: a "maldição da Warner Bros".

A Paramount Skydance, que venceu a disputa contra a Netflix e está fechando a aquisição da Warner Bros. Discovery (WBD) por cerca de US$ 110 bilhões, está prestes a descobrir se a maldição é real — e o comportamento das ações da própria Paramount já sugere que o mercado também está pronto para caçar alguns fantasmas.

De onde vem a 'maldição'

O termo, popularizado por uma newsletter da Planet Money, do NPR, em dezembro de 2025, descreve um padrão histórico: toda vez que uma empresa tenta se fundir com os ativos que hoje formam a Warner Bros., o resultado tende a ser desastroso para os acionistas.

O caso mais emblemático aconteceu em 2000, quando a America Online (AOL) anunciou a compra da Time Warner por US$ 182 bilhões — na época, a maior fusão corporativa da história, criando uma empresa avaliada em US$ 350 bilhões.

A fusão é hoje amplamente considerada uma das piores da história corporativa americana.

O estouro da bolha da internet, choques de cultura entre as equipes, fraude contábil na AOL e a recessão de 2001 destruíram mais de US$ 200 bilhões em valor para os acionistas. Em 2003, a empresa removeu o "AOL" do nome, e em 2009 separou oficialmente as duas operações.

A maldição se repetiu em 2018, quando a AT&T pagou US$ 85,4 bilhões pela então chamada Time Warner, formando a WarnerMedia. Em entrevista ao podcast Decoder, do The Verge, o analista Rich Greenfield, cofundador da LightShed Partners, resumiu o padrão com humor sombrio.

harry potter e o prisioneiro de askaban

Harry Potter: saga faz parte do catálogo da Warner (Warner/Divulgação)

"A Time Warner persiste, como um zumbi que vai matar de novo. Vai fazer isso de novo. Mesmo depois dessa", afirmou.

Segundo Greenfield, o roteiro se repetiu de forma quase idêntica em cada uma das fusões anteriores, a ideia de que os ativos da Warner dariam poder a uma nova plataforma de distribuição. "Essa foi a tese da AOL. Foi a tese da AT&T. Até certo ponto, foi a tese da própria Discovery. Isso nunca funciona", disse o analista.

Por que a Paramount comprou mesmo assim?

Segundo Greenfield, a decisão dos Ellison (David Ellison, CEO da Paramount Skydance, e seu pai, o cofundador da Oracle Larry Ellison, principal financiador pessoal do negócio) reflete impaciência, não ingenuidade.

"Não há dúvida na minha cabeça de que David Ellison foi e comprou a Paramount com a Skydance. Esse é o ponto de partida dele", afirmou.

A Paramount já tinha um estúdio grande e um serviço de streaming e poderia, em tese, ter construído escala organicamente, replicando o modelo da Netflix de investir em tecnologia, aumentar o catálogo, elevar o preço e reinvestir.

"A família Ellison não estava disposta a ser paciente. Eles não queriam esperar e construir lentamente; queriam fazer isso rápido. E o caminho mais rápido era usar a fortuna da família para comprar a Warner Bros", disse Greenfield.

O preço dessa pressa, segundo o analista, foi alto.

A Paramount Skydance — uma empresa cerca de 40 vezes menor que a Netflix em valor de mercado — pagou cerca de 30% mais do que a Netflix havia oferecido pela Warner, e fechou o acordo com uma alavancagem de aproximadamente sete vezes a relação dívida/Ebitda.

"Isso é muita dívida que você vai ter que pagar ao longo dos próximos cinco anos", disse Greenfield. "Você também ficou com muita TV linear, e ninguém está assistindo à TV linear."

Por que comprar os canais de TV a cabo que ninguém mais queria

Um dos pontos mais reveladores da entrevista é sobre os ativos de TV linear da Warner, como CNN e TNT, que tanto a Netflix quanto a Comcast recusaram incluir em suas propostas.

Segundo Greenfield, a decisão da Paramount de comprar tudo, incluindo os ativos que ninguém queria, não foi apenas estratégica — foi matemática.

"Esses negócios de cabo lineares, mesmo não sendo bons negócios, geram muito caixa. Eles precisavam desse fluxo de caixa. A matemática dessa transação simplesmente não funcionaria sem esses ativos. Você não conseguiria se alavancar a esse nível sem comprá-los", afirmou.

A aposta (incerta) da inteligência artificial

Greenfield também abordou uma das questões centrais da operação: por que Larry Ellison trocaria parte de sua fortuna em ações da Oracle — impulsionadas pelo crescimento dos data centers de IA e negociadas a múltiplos elevados — por uma participação em uma empresa de mídia altamente endividada.

O analista afirmou que não há uma explicação definitiva, mas apontou uma possível tese por trás do negócio. A aposta seria que a inteligência artificial pode reduzir drasticamente os custos de produção de conteúdo e transformar a Oracle Cloud na principal infraestrutura tecnológica da companhia resultante da fusão.

Se isso acontecer, a Oracle passaria a ocupar um espaço que hoje não possui no setor de streaming. "Todos os olhos vão estar voltados para a Oracle. A Oracle realmente consegue fazer isso?", questionou Greenfield.

Segundo ele, gigantes como Netflix, ligada à AWS, e YouTube, apoiado na infraestrutura do Google, dificilmente migrariam para a Oracle, o que limita o potencial de valorização da estratégia mesmo em um cenário de sucesso técnico.

O analista também destacou um risco menos discutido pelo mercado. Se a IA tornar a criação de conteúdo significativamente mais barata e acessível para qualquer produtor, e não apenas para grandes estúdios, o valor dos catálogos tradicionais pode ser pressionado para baixo.

Warner e Paramount: nova gigante da mídia nasce com forte capital internacional.

Assim, os ativos que sustentam a aquisição da Paramount poderiam perder relevância econômica ao longo do tempo. "Essa é a preocupação real, a coisa que me mantém acordado à noite", disse.

O problema que nem dinheiro resolve

Para Greenfield, a pergunta central que vai decidir o sucesso ou fracasso do negócio não é tecnológica nem regulatória, mas comportamental: a Paramount conseguirá fazer com que as pessoas abram o aplicativo todos os dias?

"A internet é, historicamente, um mercado em que o vencedor leva quase tudo. A questão é: mesmo fazendo tudo isso — mais conteúdo, melhor tecnologia, mais marketing —, o mundo já escolheu seus vencedores?", disse.

Como exemplo, cita a Disney, que investiu pesadamente em conteúdo para o Disney+ sem conseguir mover de forma significativa o engajamento diário dos usuários.

Outro ponto destacado por Greenfield é que, segundo ele, tanto a Paramount quanto a Warner dependem fortemente de "lojas de canais" de terceiros — como o Amazon Prime Channels — para conseguir assinantes, o que significa que boa parte da audiência nunca abre o aplicativo próprio das empresas, apenas assiste pelo app da Amazon.

Apenas Netflix e Disney, segundo ele, têm a ousadia de operar fora desse modelo.

Se a Paramount decidir abandonar essas lojas de terceiros para construir uma base própria de assinantes, movimento ainda incerto. Isso será, segundo o analista, "um grande sinal de quão grandes são as ambições" de David Ellison.

O que vem agora?

Apesar de todos os riscos levantados, Greenfield acredita que o negócio será concluído. "Eu ficaria surpreso se essa transação não fechasse. Não acho que existam questões de monopólio aqui", afirmou.

Batman: super-herói faz parte do catálogo da Warner (Batman Begins/Divulgação)

A principal incerteza, segundo ele, é o cronograma — a Paramount projeta o fechamento antes do fim de setembro, mas o spread entre o preço atual da ação e os US$ 31 por ação prometidos no acordo sugere que o mercado está precificando um fechamento mais tardio, possivelmente só no quarto trimestre de 2026 ou primeiro trimestre de 2027.

AutorTamires Vitorio
FonteExame
Distribuído por