Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
Inteligência ArtificialBDR
24/06/2026
4 min

A Microsoft pode trocar Claude e ChatGPT por um modelo chinês no Copilot — e não é a única

A Microsoft pode trocar Claude e ChatGPT por um modelo chinês no Copilot — e não é a única

A Microsoft está avaliando substituir parte da inteligência artificial (IA) que move o Copilot Cowork, seu assistente corporativo, por uma versão hospedada do DeepSeek V4, modelo de código aberto desenvolvido na China.

Hoje, a ferramenta roda sobre modelos da Anthropic e da OpenAI— mas o custo de manter agentes de IA trabalhando em tarefas longas e repetitivas disparou, e a empresa busca uma alternativa mais barata.

"Temos usuários que realizam centenas de tarefas por semana, o que é ótimo porque a produtividade deles é muito alta, mas a consequência é que os custos podem aumentar significativamente", disse Charles Lamanna, vice-presidente executivo da Microsoft para Copilot, Agentes e Plataformas, à Axios.

A decisão final sobre adotar o DeepSeek, ou outro modelo aberto, é esperada para as próximas semanas.

Um momento político delicado

O timing da avaliação é especialmente sensível.

Dias antes, o governo dosEstados Unidos havia determinado que a Anthropic suspendesse o acesso de estrangeiros aos seus modelos mais avançados, Fable 5 e Mythos, citando risco à segurança nacional.

A Casa Branca também já cogitou banir o DeepSeek de dispositivos governamentais e ameaçou processar empresas chinesas de IA por suposto roubo de modelos americanos.

Para tentar contornar essa tensão, a Microsoft afirma que, se adotar o DeepSeek, o modelo vai rodar inteiramente dentro da infraestrutura Azure, sem que dados de clientes saiam dos servidores da empresa — e diz já ter ajustado o modelo, adicionando camadas de proteção.

Ainda assim, segundo o Centro de Padrões e Inovação em IA do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos (NIST/CAISI), a versão mais avançada do DeepSeek está cerca de oito meses atrás dos principais modelos americanos em desempenho — prazo bem maior do que os dois ou três meses que a empresa chinesa alega, com base apenas em rankings públicos.

O caso Microsoft é só a ponta de um movimento maior

A avaliação da Microsoft reflete uma tendência de que a China decidiu competir na corrida da IA não apenas tentando construir o modelo mais avançado do mundo, mas dominando o mercado de modelos de código aberto — gratuitos para qualquer desenvolvedor baixar, modificar e usar comercialmente.

A estratégia já produz números expressivos.

O Qwen, família de modelos do Alibaba, soma 700 milhões de downloads na plataforma Hugging Face e, desde dezembro de 2025, baixado mais do que a soma dos oito modelos seguintes na lista, incluindo sistemas da Meta e da OpenAI.

Segundo estimativas citadas por um órgão consultivo do Congresso dos Estados Unidos, cerca de 80% das startups americanas de IA já usam modelos chineses de código aberto em algum estágio de seus produtos.

Por que as empresas americanas escolhem modelos chineses?

A resposta parece ser puramente econômica.

O presidente-executivo da Siemens, Roland Busch, já disse não ver "nenhuma desvantagem" em usar IA chinesa de código aberto para treinar os próprios modelos da fabricante alemã, citando a vantagem de custo e a facilidade de personalizar os parâmetros do sistema.

O preço de modelos chineses pode chegar a ser até 95% mais barato do que opções equivalentes de laboratórios ocidentais, segundo levantamentos do setor.

Ironicamente, parte desse avanço chinês foi impulsionada pelas próprias restrições americanas.

Os controles de exportação que bloquearam o acesso da China aos chips mais avançados da Nvidia forçaram laboratórios chineses a inovar em arquitetura de software para compensar o hardware mais limitado — um dos motivos pelos quais o DeepSeek conseguiu treinar modelos competitivos com investimentos muito menores que os das rivais americanas.

O dilema que a Microsoft expõe

A movimentação da Microsoft é vista no setor como sintoma de um problema mais amplo: mesmo as maiores empresas de tecnologia do mundo, com caixa suficiente para sustentar parcerias bilionárias com laboratórios de IA americanos, estão sentindo o peso de operar agentes que chamam modelos repetidamente para completar uma única tarefa — um padrão de custo bem diferente do simples chat de pergunta e resposta.

O presidente-executivo da Microsoft,Satya Nadella, já havia sinalizado essa preocupação publicamente, em ensaio recente argumentando que depender de um pequeno grupo de modelos de fronteira para "todo o aprendizado do mundo" seria, no fim, ruim para a economia.

A avaliação do DeepSeek é a primeira tentativa concreta da empresa de colocar essa visão em prática, mesmo que isso signifique abrir a porta, ainda que parcialmente, para a tecnologia que Washington tenta manter trancada do lado de fora.

AutorTamires Vitorio
FonteExame
Distribuído por