A nova ameaça ao petróleo: Houthis pressionam rota que liga o mundo à energia do Golfo
Com pouco espaço de manobra, a administração de Trump se vê presa entre o conflito com o Irã e pactos de defesa com Riad, que agora pede auxílio

Os Houthis, grupo islâmico rebelde que derrubou o governo do Iêmen, voltaram a atacar a Arábia Saudita e intensificaram a pressão sobre uma das principais rotas de transporte de energia do mundo, o estreito de Bab el-Mandeb, que serve como principal alternativa à Ormuz.
No sábado, o grupo atingiu Riad pela primeira vez desde a escalada iniciada no verão e também reivindicou um ataque contra instalações da Aramco em Yanbu, no litoral saudita. Ao mesmo tempo, o grupo — aliado a Teerã — parece ter conquistado posições estratégicas na costa do Iêmen próximas ao estreito, que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden.
A região ganhou ainda mais importância depois que o Irã fechou o estreito de Ormuz, obrigando a Arábia Saudita a redirecionar o escoamento de milhões de barris de petróleo por dia.
Apesar da conexão com o regime iraniano, a escalada atual é resultado de um conflito que se arrasta há mais de uma década, não à guerra no Irã. Os Houthis tomaram Sanaa, capital do Iêmen, ainda em setembro de 2014, e, seis meses depois, a Arábia Saudita interveio diretamente na guerra civil.
Após sete anos de operações militares, o conflito terminou sem solução definitiva. Riad passou então a buscar uma saída negociada, mas anos de conversas produziram poucos avanços.
Reverberações globais e Washington
Rebeldes Houthis, ligados a Teerã, pressionam rota marítima alternativa à Ormuz (Mohammed Hamoud/Getty Images)
Para a economia mundial, os efeitos vão além do petróleo, segundo o CFR. O desvio de embarcações afeta as cadeias de abastecimento, o transporte de energia e as receitas do Egito, que dependem, em parte, das tarifas cobradas pelo Canal de Suez.
O dilema se deslocou, então, para Washington. O príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, teria pedido ajuda ao presidente Donald Trump, enquanto o secretário de Estado, Marco Rubio, declarou que os Estados Unidos pretendem cumprir seus compromissos de defesa com a Arábia Saudita, sem detalhar como essa participação ocorreria.
Para o governo Trump, porém, uma eventual campanha militar contra os Houthis implicaria custos elevados. Depois de sete meses de guerra, há dúvidas sobre a capacidade americana de sustentar uma nova operação, enquanto Washington também precisa preservar recursos para um eventual confronto renovado com o Irã e para contingências na Ásia.
O estudo afirma, ainda, que os Estados Unidos gastaram uma grande quantidade de armamentos em operações contra os Houthis na primavera de 2025, com resultados limitados. Agora, o país estaria com estoques reduzidos de sistemas considerados importantes, entre eles os temidos interceptores Patriot, munições avançadas de alta tecnologia.
Ao mesmo tempo, não apoiar Riad também acarreta custos estratégicos para Washington, apura o CFR. A liberdade de navegação é apresentada pelo CFR como um interesse central dos Estados Unidos, e a incapacidade de proteger uma rota marítima internacional pode afetar a percepção de aliados e parceiros sobre a confiabilidade dos Estados Unidos.
Uma eventual ação militar, contudo, dificilmente seria resolvida apenas com ataques aéreos. Para retirar os Houthis das áreas que lhes permitem controlar ou ameaçar o Bab el-Mandeb, o estudo conclui que seria necessária uma operação terrestre de grande escala, o que seria dificultado pela fragilidade das forças do governo iemenita e pela relutância saudita em ampliar sua participação direta no conflito.
O Irã persiste como outro elemento central, embora o CFR ressalte que a guerra entre os Houthis e os sauditas não seja simplesmente uma extensão do confronto entre Washington e Teerã.
Há uma coordenação histórica entre os Houthis e o Irã, mas o grupo mantém a capacidade de agir de forma independente e não possui a mesma relação de subordinação que o Hezbollah libanês tem com a Guarda Revolucionária.
Ainda assim, a capacidade dos Houthis de ameaçar o Bab el-Mandeb representa uma vantagem para Teerã. Ao pressionar uma passagem estratégica para o comércio e o transporte de energia, o grupo adiciona uma nova fonte de instabilidade à economia global e pode conferir ao Irã maior poder de barganha nas negociações com os Estados Unidos.
O cenário também separa dois pontos estratégicos que, embora conectados, não precisam necessariamente ser resolvidos em conjunto.
Mesmo que Washington e Teerã cheguem a um entendimento sobre o estreito de Ormuz, os Houthis ainda poderiam manter a capacidade de ameaçar o Bab el-Mandeb, preservando uma segunda frente de pressão sobre o comércio internacional.
Escalada
Apesar dos laços com Teerã, a insurgência Houthi é um fenômeno independente, e precede, em mais de uma década, o atual conflito no Irã (Mohammed Hamoud/Getty Images)
O avanço dos Houthis criou um novo ponto de pressão sobre o fluxo global de energia, segundo um novo estudo do think tank Council on Foreign Relations (CFR). Embora o grupo tenha afirmado que não pretende atacar navios americanos, sua presença no Bab el-Mandeb já contribuiu para aumentar a instabilidade na região e levou companhias de navegação comercial a evitar a rota, o que as levou a arcar com custos de seguro mais altos.
A atual rodada de violência ganhou força em julho, quando a Arábia Saudita e aliados do governo iemenita internacionalmente reconhecido atacaram o aeroporto de Sanaa para impedir o pouso de uma aeronave iraniana.
O avião da Mahan Air transportava uma delegação Houthi que retornava do funeral do aiatolá Ali Khamenei. Segundo o estudo do CFR, também havia suspeitas de que assessores da Guarda Revolucionária Iraniana e equipamentos destinados às forças Houthis estivessem a bordo, em possível violação das sanções da ONU.
A aeronave acabou pousando em Hodeidah, mas o episódio deu aos Houthis uma nova justificativa para intensificar suas operações. Os ataques posteriores a Riad e à infraestrutura energética saudita passaram a expor, segundo o CFR, tanto a capacidade ofensiva do grupo quanto as vulnerabilidades do reino.
