A nova aposta bilionária de Carlos Wizard: consórcios com franquias de R$ 30 mil
Empresário entra como sócio da FVL Consórcios e quer levar a rede de 10 para 50 unidades ainda em 2026

Com juros altos e crédito mais caro, o consórcio ganhou espaço entre brasileiros que querem comprar carro, imóvel ou outros bens sem recorrer a um financiamento tradicional.
É esta a nova tese de Carlos Wizard, o guru das franquias brasileiras, fundador da escola de inglês Wizard.
O empresário se tornou sócio da FVL Consórcios, empresa criada em 2019 e que começou a franquear sua operação no ano passado. Hoje, são 10 franquias. O investimento inicial para abrir uma unidade parte de 30.000 reais.
A entrada acontece quando Wizard procura um novo negócio capaz de repetir uma fórmula que conhece há três décadas: transformar uma operação já testada em uma rede nacional de franquias.
A FVL nasceu na venda porta a porta, migrou para o digital durante a pandemia e agora tenta usar as franquias para chegar a cidades onde ainda tem pouca presença.
“Eu só invisto em negócio que tem potencial de ganhar escala. A FVL começou a franquear do zero e chegou a 10 unidades, mas eu consigo visualizar 100, 200, 300, 400, 500 franqueadas dentro da rede”, afirma Wizard.
O primeiro objetivo, porém, é mais curto. A projeção apresentada por Wizard à EXAME é terminar 2026 com50 franquias em funcionamento, cinco vezes a base atual. A expansão será nacional, com atenção também às cidades menores e a um modelo de microfranquia que pode funcionar de casa.
Por que Carlos Wizard entrou no mercado de consórcios
Wizard construiu sua trajetória empresarial principalmente no sistema de franquias. Agora, decidiu combinar essa experiência com um mercado no qual ainda não havia investido diretamente.
A tese começa pelo tamanho do setor e passa pelo cenário do crédito no Brasil. Com taxas elevadas, financiamentos ficam mais caros e aumentam o incentivo para que parte dos consumidores procure outras formas de planejar compras de maior valor.
Mas Wizard afirma que sua aposta não depende apenas de um período de juros altos. “Eu sou um investidor e franqueador ao mesmo tempo. Eu fico procurando ouro. Analisei e pesquisei que o setor de consórcios é um setor que está em ascendência no Brasil”, afirma.
A leitura encontra apoio nos números apresentados pela ABAC, a associação do setor. Em 2025, o mercado comercializou mais de 378 bilhões de reais em créditos e tinha mais de 11 milhões de participantes ativos, segundo o release da FVL.
Carlos Fuzinelli, fundador e CEO da companhia, também argumenta que o avanço do consórcio antecede o atual ciclo de juros. Ele trabalha no setor desde 2010.
“Quanto maior o juro, mais as pessoas buscam o consórcio, porque entendem que o custo do dinheiro fica muito caro. O meu sonho de ter o meu imóvel próprio ou o meu carro próprio não sumiu”, afirma Fuzinelli.
Ele cita a pandemia como exemplo. Mesmo no período em que a taxa básica de juros chegou a níveis bem inferiores aos atuais, a FVL triplicou suas vendas depois de migrar seu atendimento para o ambiente digital.
Qual é a história da empresa
Fuzinelli entrou no mercado de consórcios como vendedor porta a porta. Depois virou supervisor e gerente comercial. Ficou nove anos na mesma empresa antes de decidir abrir seu próprio negócio.
Em 2019, chamou dois antigos supervisores, Lucas Oliveira e Vitor Camarão, para a sociedade. A FVL começou a operar em junho daquele ano.
O primeiro modelo dependia de visitas presenciais. Um vendedor passava parte do dia no trânsito e conseguia fazer duas ou três reuniões.
A pandemia obrigou a empresa a rever a operação. As reuniões passaram para o digital. Segundo Fuzinelli, um vendedor passou a conseguir fazer cerca de seis atendimentos por dia. A mudança reduziu deslocamentos e permitiu ampliar a operação sem depender da presença física diante de cada cliente.
“Foi quando a gente viu que, de fato, o digital dava a escala que a gente precisava”, afirma.
Sócios do Carlos Wizard (FVL/Divulgação)
Em 2024, os sócios começaram a estudar a transformação da FVL em franquia. O projeto levou cerca de um ano para ser estruturado e começou a ser vendido, segundo Fuzinelli, por volta de julho de 2025.
A rede chegou a 10 unidades antes da entrada de Wizard.
Como é a tese de expansão
Uma das ferramentas para tentar acelerar essa expansão será a microfranquia.
O modelo parte de um investimento de 30.000 reais e pode operar no formato home based, modelo em que o franqueado trabalha a partir da própria casa.
Isso reduz a necessidade de investir em loja, aluguel e uma estrutura física maior. Na prática, a unidade funciona como um ponto comercial de venda e atendimento para os produtos de consórcio oferecidos pela rede.
“A pessoa que tem o desejo de empreender consegue montar um negócio com baixo investimento. É uma estrutura muito simples. Trabalhando até de casa mesmo ela consegue empreender e oferecer o produto”, afirma Fuzinelli.
A empresa vê nesse formato uma forma de chegar ao interior do país. Hoje, boa parte das 10 unidades está no estado de São Paulo. A intenção, porém, é expandir nacionalmente.
“A gente entende que, principalmente em cidades do interior e cidades menores, o acesso às vezes à informação sobre finanças ainda é menor. Como temos a modalidade de microfranquia, conseguimos expandir em nível nacional”, afirma Fuzinelli.
Quais são os desafios no caminho
A meta cria um desafio operacional. Para sair de 10 para 50 unidades até dezembro, a FVL precisará adicionar 40 franquias em pouco mais de quatro meses.
Wizard conhece o risco. Para ele, vender uma franquia representa apenas o início do trabalho. O ponto mais difícil é fazer alguém sem experiência naquele setor conseguir operar uma empresa.
“Vender franquia é fácil. Qual é o desafio? É você transformar aquele franqueado num empreendedor. Muitas vezes a pessoa tem o desejo de manter uma franquia, mas não entende do setor, não tem experiência e não tem histórico”, afirma.
A resposta da FVL será apostar em treinamento e acompanhamento dos novos donos. Wizard resume o modelo de franquias em cinco componentes: marca, produto ou serviço testado, treinamento, transferência de conhecimento operacional e apoio de marketing.
O risco aparece justamente quando uma rede aumenta o número de unidades sem conseguir replicar esses elementos.
“Não queremos viver de vender franquias. Nós queremos prosperar com a recorrência do resultado do franqueado, porque franqueado feliz gera retorno para a franqueadora”, afirma Wizard.
Qual é a trajetória do Wizard
Carlos Roberto Wizard Martins nasceu em Curitiba, em setembro de 1956. Aprendeu inglês com missionários americanos da igreja mórmon que a família passou a frequentar no fim dos anos 1960 e, na década seguinte, foi estudar nos Estados Unidos. Formou-se em ciência da computação e estatística na Brigham Young University, em Utah. De volta ao Brasil, começou dando aulas particulares.
Em 1987, abriu a própria escola de idiomas e adotou para ela um nome que depois viraria o dele: Wizard. O crescimento veio pelo franchising. A rede se tornou a maior do país no ensino de línguas, e a partir dos anos 2000 ele partiu para as aquisições — Yázigi, Microlins, Skill, Bit Company, entre outras — reunidas no Grupo Multi Educação.
A saída aconteceu em duas etapas. Em 2010, vendeu uma fatia minoritária ao Itaú. Em 2013, negociou o restante do grupo com a britânica Pearson, dona do jornal Financial Times, na maior transação já registrada no setor de educação brasileiro. O negócio o colocou na lista de bilionários da Forbes.
Foi aí que começou a segunda fase, a de investidor. Em 2014, comprou a rede de produtos naturais Mundo Verde e criou a Sforza, holding, empresa que controla participações em outros negócios, para administrar o patrimônio da família ao lado dos filhos. Em 2016, trouxe a Taco Bell para o Brasil e comprou participação nas marcas esportivas Topper e Rainha. Em 2017, virou sócio da WiseUp, concorrente direta da escola que ele mesmo havia fundado, e criou a Aloha Oils, de cosméticos. Também é sócio da Ronaldo Academy, escola de futebol montada com Ronaldo Nazário.
O padrão se repete: marca conhecida, modelo replicável por franquia, operação que já passou pelo teste do mercado. É o mesmo filtro que ele diz aplicar à FVL.
