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Sacre Investimentos
EXAME AgroCMDT
23/09/2026
6 min

A nova disputa da soja brasileira: China, indústria e bilhões em jogo

Enquanto exportações para a China seguem fortes, indústria de esmagamento investe para transformar o grão em farelo, óleo e biodiesel, diz BTG

A nova disputa da soja brasileira: China, indústria e bilhões em jogo

RESUMO | O Brasil deve produzir quase 180 milhões de toneladas de soja em 2026, mas a indústria nacional ainda processa apenas cerca de um terço da safra, segundo relatório do BTG Pactual. O processamento de soja no Brasil deve receber R$ 5,9 bilhões em investimentos neste ano, enquanto as esmagadoras disputam o grão com exportadores que atendem sobretudo à China.


O Brasil nunca teve tanta soja disponível. A produção nacional deve se aproximar de 180 milhões de toneladas em 2026, enquanto a indústria de processamento deve investir R$ 5,9 bilhões em investimentos neste ano para transformar mais grão em farelo, óleo e biodiesel. O problema é que, antes de chegar às fábricas, boa parte dessa soja encontra outro destino: os navios rumo à China.

Essa é a tese do relatório “Soybean Crushing 101”, dos analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla, do BTG Pactual (mesmo grupo de controle da EXAME). Segundo o estudo, a indústria brasileira de esmagamento cresceu junto com a expansão da produção, mas ainda processa apenas cerca de um terço da safra nacional.

A indústria de processamento vive uma onda de investimentos. Segundo os analistas, a capacidade instalada de processamento de oleaginosas deve chegar a 82,6 milhões de toneladas por ano em 2026, alta de aproximadamente 17% em relação a 2022.

O setor também deve receber cerca de R$ 5,9 bilhões em investimentos neste ano, com potencial de adicionar 18,9 mil toneladas por dia em capacidade.

A disputa pelo grão acontece porque o produtor rural não escolhe entre vender para uma esmagadora ou para um exportador olhando apenas o preço oferecido pela indústria. Ele compara as alternativas disponíveis — e a exportação para a China continua sendo uma das mais fortes.

“Um esmagador não compra soja contra o custo de produção do agricultor. Ele compra contra a melhor alternativa disponível para o produtor, muitas vezes um exportador vendendo para o mercado global”, afirmam os analistas.

Até julho, a China importou 44,53 milhões de toneladas de soja do Brasil, volume 5,4% superior ao registrado no mesmo período de 2025, segundo dados da Amius, casa de derivativos.

A consequência é que a indústria brasileira precisa disputar a matéria-prima com um mercado externo consolidado. A China absorve cerca de80% das exportações brasileiras de soja, tornando o país asiático o principal destino do grão produzido no país.

Entre janeiro e agosto de 2026, as importações chinesas de soja brasileira somaram US$ 26,10 bilhões, alta de 13% em relação ao mesmo período de 2025.

O desafio das esmagadoras brasileiras não é encontrar soja no país que mais produz o grão no mundo, mas conseguir comprar essa soja antes que ela seja enviada ao mercado externo.

A indústria de processamento vive uma onda de investimentos. Segundo os analistas, a capacidade instalada de processamento de oleaginosas deve chegar a 82,6 milhões de toneladas por ano em 2026, alta de aproximadamente 17% em relação a 2022.

O setor também deve receber cerca de R$ 5,9 bilhões em investimentos neste ano, com potencial de adicionar 18,9 mil toneladas por dia em capacidade.

O movimento acompanha o crescimento da oferta brasileira de soja, mas cria uma nova questão para as empresas: como garantir matéria-prima suficiente para operar as plantas.

“O Brasil oferece um grande volume estrutural de soja, mas isso não significa que o grão esteja automaticamente barato para o processador”, dizem. A razão é que a commodity segue precificada pela lógica do mercado internacional, com influência dos preços de exportação, câmbio, frete e demanda externa.

A situação é diferente de outros setores agrícolas em que a indústria consegue controlar melhor o fornecimento. Na soja, o produtor tem uma alternativa global clara: vender o grão para exportadores.

A disputa pelo grão acontece porque o esmagamento permite transformar uma commodity em produtos de maior valor agregado.

Cada tonelada de soja processada gera aproximadamente 75% a 78% de farelo, usado principalmente na alimentação animal, e 19% a 20% de óleo, utilizado tanto na indústria de alimentos quanto na produção de biodiesel. 

Segundo os analistas do BTG, o farelo é o produto de maior volume da operação, mas o óleo ganhou relevância para a rentabilidade das esmagadoras.

“O farelo carrega o volume do negócio. O óleo carrega uma parcela desproporcional da margem”, afirmam. 

O avanço do biodiesel aumentou essa importância. Cerca de 75% da matéria-prima usada na produção brasileira de biodiesel vem do óleo de soja, criando uma ligação direta entre política energética e indústria de processamento.

Esmagamento de soja

Apesar dos investimentos, o setor também monitora um possível excesso de capacidade. Os analistas apontam que a utilização média das plantas de processamento caiu de 87,9% em 2022 para cerca de 80,4% estimados para 2026, porque a expansão da capacidade ocorreu em ritmo superior ao crescimento do processamento.

No biodiesel, a indústria também opera abaixo do potencial. O Brasil tem 15,9 bilhões de litros de capacidade instalada, mas a utilização estava em aproximadamente 66% em julho de 2026, deixando cerca de 5,5 bilhões de litros de capacidade ociosa.

A expansão do esmagamento também está mudando a geografia da indústria. Como o transporte pesa na conta, as empresas buscam estar próximas das regiões produtoras.

O Centro-Oeste concentra 44% da capacidade brasileira de processamento, enquanto Mato Grosso responde por 23% da capacidade nacional.

Para as empresas, o próximo desafio não é apenas construir novas fábricas, mas garantir que elas tenham soja suficiente para operar com margens positivas.


Quanto da safra brasileira de soja é processado no país?

A indústria brasileira processa apenas cerca de um terço da safra nacional, segundo o relatório “Soybean Crushing 101”, dos analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla, do BTG Pactual.

Quanto a indústria de processamento de soja deve investir em 2026?

O setor deve receber cerca de R$ 5,9 bilhões em investimentos em 2026, com potencial para adicionar 18,9 mil toneladas por dia à capacidade de processamento, segundo os analistas do BTG Pactual.

Por que as esmagadoras disputam soja com os exportadores?

As esmagadoras disputam o grão porque o produtor compara a oferta da indústria com a melhor alternativa disponível, que muitas vezes é a venda para exportadores. A China absorve cerca de 80% das exportações brasileiras de soja.

Quanto farelo e óleo são produzidos com uma tonelada de soja?

Cada tonelada de soja processada gera aproximadamente 75% a 78% de farelo e 19% a 20% de óleo. Segundo os analistas do BTG Pactual, o farelo concentra o volume da operação, enquanto o óleo responde por uma parcela desproporcional da margem.

Qual é a importância do óleo de soja para o biodiesel brasileiro?

O óleo de soja fornece cerca de 75% da matéria-prima usada na produção brasileira de biodiesel. Essa participação cria uma ligação direta entre a política energética e a indústria de processamento.

Existe risco de excesso de capacidade no processamento de soja?

Sim. Segundo os analistas do BTG Pactual, a utilização média das plantas deve cair de 87,9% em 2022 para cerca de 80,4% em 2026, porque a capacidade instalada cresceu mais rapidamente do que o processamento.

AutorCésar H. S. Rezende
FonteExame
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