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NegóciosMPOL
13/08/2026
8 min

A pequena cidade nordestina que produz 1 milhão de bonés por mês e movimenta R$ 190 milhões

Cadeia produtiva criada no sertão potiguar abastece empresas em todo o Brasil e tenta agora profissionalizar fornecedores, ampliar vendas e combater fraudes

A pequena cidade nordestina que produz 1 milhão de bonés por mês e movimenta R$ 190 milhões

Na pequena Serra Negra do Norte, cidade no interior do Rio Grande do Norte, é difícil passar muito tempo sem encontrar alguém que viva da fabricação de bonés.

Pode ser o dono de uma fábrica, uma costureira, um bordador, um vendedor que percorre o país em busca de clientes ou um fornecedor de abas, tecidos e aviamentos. Em uma cidade com menos de 8 mil habitantes, o acessório deixou de ser apenas uma peça de vestuário para se transformar em uma cadeia produtiva que alcança boa parte da economia local.

O município reúne 50 fábricas e mais de 500 vendedores ativos. Juntos, eles ajudam a manter cerca de 1.600 empregos diretos e uma produção mensal de aproximadamente 1 milhão de peças, entre bonés, viseiras, chapéus e bolsas.

Somente as indústrias faturam R$ 11 milhões por mês, ou R$ 132 milhões por ano. Quando entram na conta a atividade comercial e a folha de pagamento, a estimativa local é de uma movimentação superior a R$ 190 milhões por ano.

É essa concentração que rendeu a Serra Negra do Norte o apelido de Terra do Boné.

Como o boné virou negócio em Serra Negra do Norte

A especialização não termina na porta das fábricas.

Ao redor delas surgiu uma rede formada por costureiras, bordadores, serigrafias, fabricantes de abas e viseiras, fornecedores de tecidos e aviamentos, representantes comerciais e prestadores de serviços. Dados da Boné Brasil, feira que reúne empresas do setor, indicam que, do 1 milhão de itens produzidos mensalmente no município, cerca de 900 mil são bonés e outros 100 mil são produtos complementares, como viseiras, bolsas e chapéus.

A relação da cidade com o produto também antecede a facilidade de comprar qualquer mercadoria pela internet. Ygor Freire, diretor da Seu Boné, lembra que o pai de sua mulher, natural de Serra Negra do Norte, trabalhava vendendo os produtos das fábricas locais em outras regiões do país.

Não se vendia boné na internet. O pessoal viajava de carro, passava três ou quatro meses pegando pedido no Brasil inteiro, depois voltava e ia entregar de novo”, diz Freire.

O modelo ajudou produtores do Seridó a alcançar clientes longe do Rio Grande do Norte mesmo antes de ferramentas digitais reduzirem a distância entre as fábricas do interior e compradores de outras regiões.

Hoje, essa especialização se reflete também no perfil empresarial do município. Um levantamento fornecido pela prefeitura mostra que a confecção de artigos do vestuário e acessórios reúne 96 estabelecimentos em Serra Negra do Norte.

De onde veio a Seu Boné

A história da Seu Boné mostra como empresas passaram a ocupar outras etapas dessa cadeia sem necessariamente montar uma fábrica. Freire é engenheiro civil formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e trabalhava no mercado de petróleo. Sua mulher é advogada e nasceu em Serra Negra do Norte.

A ideia de vender bonés apareceu de forma pouco planejada. No casamento dos dois, amigos ligados às fábricas da região deram ao casal kits de bonés personalizados. Freire conta que inicialmente ficou receoso de distribuir o presente aos convidados. A reação foi a oposta.

“Foi uma surpresa, foi um sucesso grande. Todo mundo usou, acabaram os bonés e ficou todo mundo perguntando onde tinha mais”, diz.

Na época, Freire morava no Rio de Janeiro e queria retornar ao Nordeste. Em 2016, o casal começou a pegar produtos de fabricantes de Serra Negra do Norte e oferecê-los pelo Instagram.

A aposta foi usar ferramentas ainda pouco comuns entre empresas pequenas do setor. A companhia investiu em anúncios no Google e nas redes sociais, automação do atendimento, pós-venda e estrutura comercial.

“O nosso mercado de bonés é muito pulverizado, de empresas pequenas. A gente foi buscando coisas em outros mercados e trazendo para o boné”, diz Freire.

Dois anos depois, ele pediu demissão de um cargo na Petrobraspara se dedicar à empresa e se mudou para Natal.

Em 2025, a Seu Boné faturou R$ 52 milhões. Para 2026, a previsão da companhia é chegar a R$ 65 milhões. Atualmente são vendidos, em média, entre 130 mil e 140 mil produtos por mês.

Ygor Freire, diretor da Seu Boné: empresa faturou R$ 52 milhões em 2025 e projeta R$ 65 milhões neste ano (Seu Boné/Divulgação)

De onde vêm os bonés

A Seu Boné não possui uma indústria. A empresa concentra em Natal áreas como vendas, marketing, tecnologia, automação e gestão da marca. A fabricação fica a cargo principalmente de uma indústria parceira no Seridó, que produz exclusivamente para a companhia, além de outros fornecedores utilizados para complementar a capacidade.

“É melhor a gente focar no que a gente é bom e os parceiros focarem no que eles são bons”, diz Freire. “A nossa expertise é tecnologia, marketing e vendas. A do pessoal da região do Seridó é fabricação.”

Não há, por enquanto, plano de mudar esse modelo. Segundo Freire, ter uma fábrica própria exigiria grande volume de capital e colocaria a companhia em uma atividade diferente daquela que desenvolveu ao longo da última década.

O arranjo também mantém parte relevante da produção no polo potiguar. Freire afirma que a companhia tem mais de uma centena de funcionários em Natal e estima que seu volume de pedidos sustente mais de 300 postos ligados à fabricação no Seridó. 

A Seu Boné afirma ter mais de 56 mil clientes, a maioria composta de pequenas empresas. Entre os clientes maiores citados pelo executivo estão Coca-Cola, Chilli Beans, Cimed, Toyota, John Deere e XP. 

Os setores agropecuário e automotivo estão entre os que mais compram bonés de maneira recorrente, segundo Freire. Em outras áreas, os pedidos costumam aparecer ligados a eventos ou campanhas pontuais.

A empresa pretende lançar em setembro uma operação para pedidos a partir de cinco unidades, tentando alcançar pequenos empreendedores que não conseguem atingir os volumes mínimos tradicionalmente exigidos pelas fábricas.

A feira que recebeu quase quatro vezes a população da cidade

A concentração industrial também criou um evento dedicado praticamente inteiro ao boné. Entre 6 e 8 de agosto, Serra Negra do Norte recebeu a segunda edição da Boné Brasil, Feira Nacional da Cadeia Produtiva do Boné.

Quase 30 mil pessoas passaram pela cidade durante os três dias — perto de quatro vezes a população do município. Foram aproximadamente 10 mil visitantes a mais do que na primeira edição. Os estados com maior presença, segundo a organização, foram São Paulo, Pará, Santa Catarina, Paraná, Ceará, Paraíba e Pernambuco.

Ao todo, 45 empresas participaram. A relação de expositores ajuda a entender que o negócio não termina quando o boné está pronto. Havia vendedores de máquinas de costura e bordado, tintas, equipamentos a laser, tecidos, aviamentos e compressores, além de fabricantes do próprio polo de Serra Negra do Norte.

Algumas empresas divulgaram o volume comercializado durante o evento. A Silmaq, por exemplo, informou vendas de R$ 1,04 milhão, sendo R$ 720 mil em equipamentos de bordado, R$ 275 mil em máquinas e equipamentos de costura e R$ 45 mil em peças e acessórios.

A Jack & Ello, especializada em máquinas de costura, vendeu todo o estoque de peças levado ao evento e registrou R$ 2,362 milhões em vendas. A Lola Soluções Têxteis informou outros R$ 150 mil em negócios.

Somadas, as três empresas declararam R$ 3,552 milhões em vendas durante a feira.

De máquinas de costura a um selo para empresas do setor

A Boné Brasil incluiu ainda discussões sobre crédito, exportação, logística, reforma tributária e tecnologia.

Houve também um concurso de design dividido nas categorias Arte, Sustentabilidade e Artesanato. A Seu Boné venceu a categoria Sustentabilidade, enquanto a Invictuz Horse ficou com Arte e a artesã local Francisca Cláudia venceu em Artesanato.

Outra iniciativa apresentada durante o evento foi o Selo Boné Brasil. Desenvolvido pela organização da feira em parceria com a prefeitura de Serra Negra do Norte, ele pretende identificar empresas que cumpram critérios de regularidade fiscal e jurídica, capacidade produtiva, reputação e confiabilidade comercial.

Segundo os organizadores, a medida surgiu após relatos de golpes, fraudes e negociações feitas por empresas ou perfis sem estrutura produtiva. As companhias interessadas poderão solicitar a certificação e os compradores terão acesso à relação de participantes certificados.

Para Freire, a feira cumpre também uma função que vai além dos negócios. Ele cita dois grandes polos de produção de bonés no Brasil: o de Apucarana, no Paraná, e o formado por cidades do Seridó potiguar, como Serra Negra do Norte e Caicó.

No Rio Grande do Norte, diz, o evento aproxima fabricantes dos fornecedores de linhas, tecidos, máquinas e serviços financeiros. Mas também cria uma vitrine para uma atividade que sustenta boa parte da economia de cidades pequenas do interior.

“Eu acho que tem um aspecto cultural. A região procura também se sentir valorizada”, diz Freire.

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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