A ‘poupança de água’ da Terra está se esgotando e reservas caem no Brasil, alerta ONU
Relatório da OMM traça panorama das reservas hídricas globais e mostra perda de geleiras pelo quarto ano consecutivo, rios mais secos em três décadas e avanço de desastres relacionados à água

As reservas de água que durante décadas protegeram países contra a seca estão diminuindo dramaticamente. Rios, aquíferos, geleiras, lagos e a umidade acumulada no solo apresentam sinais de deterioração, enquanto enchentes, ciclones e estiagens se tornam mais frequentes e intensos.
Nesse cenário de eventos extremos relacionados à água, a disponibilidade do recurso deixa de ser apenas uma questão ambiental e assume protagonismo econômico e geopolítico. E o Brasil não está imune.
O alerta consta em um novo relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM), divulgado nesta quinta-feira, 17.
Segundo a agência especializada da ONU, 2025 foi um dos anos de menor vazão dos rios em 35 anos. Em 36% da área global das bacias hidrográficas, as vazões ficaram abaixo do normal.
Pelo sétimo ano consecutivo, as bacias com condições consideradas normais foram minoria: representaram entre 34% e 38% do total, abaixo da média histórica de 46% registrada entre 1991 e 2020.
O problema não está restrito aos rios. O armazenamento terrestre de água, que inclui águas subterrâneas, lagos, rios, umidade do solo, vegetação, neve e gelo, apresenta uma tendência persistente de queda desde meados da década passada.
“Tradicionalmente, essas reservas lentas funcionam como a poupança do planeta: um colchão que absorve os anos ruins para que uma única seca ou uma única estação seca não se transforme diretamente em uma crise hídrica”, afirma Celeste Saulo, secretária-geral da OMM.
E alerta: “Estamos esgotando essa poupança”
O que acontece com as reservas de água
Diferentes partes do ciclo hidrológico reagem em velocidades distintas às alterações do clima. A chuva, a vazão dos rios e a umidade do solo podem variar em questão de dias ou semanas. Já aquíferos, geleiras e coberturas de neve levam anos ou décadas para se recompor.
São justamente essas reservas de recuperação lenta que funcionam como proteção durante períodos de escassez.
Segundo a OMM, o armazenamento terrestre de água apresenta uma trajetória negativa desde o período entre 2014 e 2016.
Em 2025, quase dois terços dos poços monitorados no mundo registraram condições fora do padrão histórico. Na comparação com 2024, o quadro avançou em direção ao déficit, e não à recuperação.
As geleiras também perderam massa em todas as grandes regiões do planeta pelo quarto ano consecutivo. Somente no ano hidrológico de 2025, a redução chegou a 408 gigatoneladas, volume que contribuiu com aproximadamente 1,1 milímetro para a elevação do nível do mar.
O dado surge no mesmo mês em que a ONU alertou que o planeta deve ultrapassar, provavelmente nos próximos anos, o limite de aquecimento de 1,5°C estabelecido pelo Acordo de Paris. Segundo o PNUMA, quanto maior e mais prolongada for essa ultrapassagem, maiores serão os efeitos da perda de geleiras, elevação do nível do mar e de eventos climáticos extremos.
O risco ficou evidente em agosto, quando uma avalanche de gelo e rochas na fronteira entre China e Nepal teria desencadeado uma inundação repentina que deixou centenas de mortos ou desaparecidos.
Entre 2023 e 2025, a perda acumulada alcançou 1.400 gigatoneladas de água. Segundo a OMM, isso equivale ao volume necessário para encher cerca de 560 milhões de piscinas olímpicas ou a aproximadamente um terço de toda a retirada anual de água doce no mundo.
O derretimento pode aumentar temporariamente a vazão dos rios e provocar enchentes. No longo prazo, porém, reduz uma fonte importante de abastecimento para comunidades, atividades agrícolas e sistemas de geração de energia.
O alerta para o Brasil: esgotamento acumulado por anos
O Brasil está entre os países que apresentam sinais de pressão tanto nas águas superficiais quanto nas reservas subterrâneas.
Em 2025, o armazenamento terrestre de água ficou abaixo do normal no leste do país. O indicador considera toda a água doce armazenada sobre e sob a terra, incluindo aquíferos, rios, reservatórios, umidade do solo, neve e gelo.
O relatório também identificou níveis persistentes e generalizados de águas subterrâneas abaixo ou muito abaixo do normal no Nordeste e no Centro-Oeste, entre 2022 e 2025.
Para a OMM, o cenário aponta um esgotamento acumulado associado a uma tendência de secagem que se estende por vários anos.
Nas águas superficiais, as bacias do São Francisco e do Prata registraram vazões abaixo ou muito abaixo do normal em 2025. A Bacia do Prata, no entanto, apresentou sinais de recuperação parcial após um período prolongado de seca.
A Bacia Amazônica também aparece entre as regiões que enfrentaram vazões recorrentemente abaixo do normal ao longo dos cinco anos analisados, de 2021 a 2025.
Por que a água se tornou uma questão geopolítica
A crise hídrica não acompanha os limites políticos desenhados nos mapas. Grandes rios atravessam países, geleiras abastecem populações localizadas a centenas de quilômetros de distância e decisões tomadas em um território podem alterar o volume e a qualidade da água disponível em outro.
“Água não respeita fronteiras. O equilíbrio hídrico de uma bacia depende do que acontece em outro país. O recuo de uma geleira em uma nação altera a disponibilidade de água para populações situadas centenas de quilômetros”, destaca Saulo.
Essa interdependência transforma a gestão da água em um tema de cooperação internacional. O compartilhamento de rios pode envolver interesses relacionados à irrigação, à produção de alimentos, ao abastecimento urbano, à navegação e à geração de energia.
O relatório não projeta conflitos específicos, mas mostra que a redução das reservas pode ampliar disputas já existentes e exigir maior coordenação entre governos. Países localizados nas cabeceiras dos rios, por exemplo, podem influenciar a disponibilidade de água nos territórios situados a jusante.
Para a OMM, o cenário reforça a necessidade de compartilhar dados, estabelecer padrões comuns de monitoramento e integrar sistemas de alerta precoce.
A cooperação se torna ainda mais importante porque as regiões mais afetadas nem sempre dispõem das melhores informações.
África e Ásia, que concentraram a maior parte dos impactos humanos provocados pelos eventos extremos, ainda estão entre as áreas menos representadas pelas observações hidrológicas globais.
Onde os desastres hídricos mais avançam
O ciclo da água está mais irregular e imprevisível, oscilando entre escassez e excesso. Nos últimos cinco anos, os Serviços Meteorológicos e Hidrológicos Nacionais registraram secas e enchentes recordes em diferentes regiões, um reflexo direto das mudanças climáticas.
Em alguns locais, não houve tempo para recuperação entre um desastre e outro.
Ásia e África concentraram pelo menos metade dos eventos extremos relacionados à água e mais de 80% das mortes associadas registradas entre 2021 e 2025.
Somente no Sul e no Sudeste Asiático, a combinação de ciclones tropicais e monções intensas provocou até 3.600 mortes em países como Sri Lanka, Paquistão, Vietnã, Indonésia, Tailândia, Malásia e Filipinas.
O impacto também alcançou as economias nacionais. Na Jamaica, as perdas causadas pelo furacão Melissa corresponderam a 41% do Produto Interno Bruto (PIB). No Sri Lanka, o ciclone Ditwah gerou prejuízos próximos de 4% do PIB.
Nesse cenário, a urgência da adaptação é unanimidade entre especialistas e o custo da inação já cobra "e bem caro" de quem não agir.
Ao mesmo tempo, secas persistentes atingiram as bacias Amazônica e do Prata, o Oriente Médio e o Grande Chifre da África. Enchentes severas se repetiram na África Ocidental e Central e no Sudeste Asiático.
“Estamos observando mais desastres relacionados à água”, complementa Saulo. Segundo a secretária-geral, o fortalecimento do El Niño deverá elevar o risco de seca em algumas regiões e de enchentes em outras.
No início do mês, a ONU confirmou que o fenômeno deve se tornar muito forte e persistir até fevereiro.
O alerta desta vez indica que a crise não se resume à falta de chuva. À medida que a “poupança” hídrica diminui, o planeta perde parte da capacidade de atravessar anos extremos sem transformar alterações do clima em crises de abastecimento, produção e infraestrutura.
